Campinas tem alta de 39% em matrículas de alunos superdotados | G1
Número de estudantes com altas habilidades identificados na educação básica passou de 186 para 260 em um ano. Para pesquisadora, além de ampliar a identificação, é preciso garantir suporte educacional compatível com as necessidades desses alunos.
As matrículas de estudantes com altas habilidades ou superdotação na educação básica cresceram 39,7% em Campinas (SP). Dados da Sinopse Estatística da Educação Básica, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que o número de alunos passou de 186 em 2024 para 260 em 2025.
Em junho, foi sancionada a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação , que prevê medidas de identificação, acompanhamento e desenvolvimento desses alunos nas redes de ensino .
Apesar do crescimento dos registros, especialistas afirmam que os números ainda estão longe de refletir a realidade.
"Hoje, a gente considera superdotada a pessoa que tem um potencial elevado em alguma área. Pode ser na inteligência, mas também na criatividade, liderança, área acadêmica ou psicomotora", explica a psicóloga e pesquisadora Tatiana Nakano, especialista em neuropsicologia.
Segundo ela, um dos principais desafios continua sendo a identificação desses estudantes.
"A literatura mostra que de 3% a 5% da população tem superdotação. Se aplicarmos esse percentual aos estudantes brasileiros, deveríamos ter cerca de 2 milhões de alunos identificados. Hoje, temos aproximadamente 57 mil", afirma.
Miguel, de 8 anos, morador de Campinas (SP), tem diagnóstico de superdotação e demonstra facilidade em áreas que despertam seu interesse, especialmente matemática — Foto: Alexandre de Jesus/EPTV
A pesquisadora destaca que crianças com altas habilidades costumam apresentar desenvolvimento acelerado em algumas áreas, vocabulário avançado, aprendizado rápido, curiosidade intensa e interesses aprofundados desde cedo .
"Os pais geralmente percebem que a criança se desenvolve de um jeito diferente, muitas vezes mais cedo que as outras da mesma idade", diz.
Foi justamente essa diferença que chamou a atenção da dona de casa Camila Ferreira Cabral quando o filho Miguel ainda era bebê.
"Com um ano e quatro meses ele já montava o alfabeto com letras de EVA, de trás para frente, sem nem falar ainda. Conforme o tempo foi passando, as coisas só foram aumentando", lembra.
Após avaliações com especialistas, Miguel recebeu o diagnóstico de superdotação aos 3 anos.
"O primeiro sentimento foi um susto. Você pega o laudo e pensa: 'superdotado, e agora?'. A primeira coisa que fizemos foi ligar para várias escolas para entender qual delas tinha estrutura para atender uma criança com altas habilidades", conta a mãe.
A busca, porém, se mostrou mais difícil do que a família imaginava. "Infelizmente, hoje não existe uma escola preparada para isso. O Miguel já está na terceira escola."
A psicóloga e pesquisadora Tatiana Nakano, especialista em neuropsicologia, destaca a necessidade de acompanhamento educacional adequado aos estudantes com altas habilidades e superdotação — Foto: Reprodução/EPTV
Atualmente com 8 anos, Miguel demonstra facilidade em áreas que despertam seu interesse, especialmente matemática.
"Eu gosto de fazer contas, montar cubo mágico e brincar com coisas de números", conta.
Na escola, a disciplina favorita é matemática. Questionado sobre o conteúdo das aulas, ele dá uma resposta que ajuda a ilustrar um dos desafios enfrentados por alunos com altas habilidades.
"Por enquanto, tudo o que ela [professora] fala, eu já sei."
Para Tatiana Nakano, esse é justamente um dos motivos pelos quais esses estudantes precisam de acompanhamento educacional adequado.
"Eles têm necessidades educacionais diferenciadas. A escola precisa ser desafiadora. Quando a criança já está em um nível mais elevado e continua recebendo apenas conteúdos muito básicos, podem surgir problemas como desmotivação, isolamento social e até bullying", afirma.
A especialista ressalta que cada caso exige avaliação individualizada e que as adaptações podem variar conforme o perfil do estudante.
"O importante é entender as forças e fragilidades daquela criança para definir qual medida educacional faz mais sentido."
Camila afirma que uma das maiores dificuldades enfrentadas pela família não está ligada ao desempenho acadêmico do filho, mas à maneira como a sociedade compreende a superdotação.
"As pessoas acham que, por serem inteligentes, essas crianças não precisam de suporte. E aí mora o problema", afirma.
Segundo ela, muitos alunos apresentam sensibilidades emocionais e comportamentais que costumam ser confundidas com falta de educação ou outros transtornos.
"A sociedade acha que é tudo muito perfeito, mas não é. Nós temos muitas dificuldades. A maior delas é as pessoas entenderem o que é uma criança com altas habilidades."
A mãe defende que a nova política nacional seja acompanhada de investimentos na formação das equipes escolares.
"O ideal seria que todas as escolas tivessem profissionais capacitados para lidar com essas crianças. Hoje o Miguel está em uma escola que acolheu a gente e isso faz toda a diferença. Hoje meu filho é feliz na escola."
Para Tatiana Nakano, a nova legislação representa um avanço ao dar mais visibilidade ao tema, mas ainda apresenta limitações.
"A lei traz alguns avanços, mas não é ela sozinha que vai resolver o problema da identificação."
A pesquisadora cita como preocupação o veto presidencial aos dispositivos que previam uma identificação educacional mais ampla dos estudantes e destaca que a adesão de estados e municípios à política será voluntária.
"Essas crianças continuam sendo, muitas vezes, invisíveis para a educação. Precisamos discutir melhor as formas de identificação e atendimento para que a legislação se transforme em prática."
No caso de Miguel, o desejo da família é simples.
"Ele é uma criança alegre, curiosa e carinhosa. O que a gente quer é que ele tenha a oportunidade de desenvolver todo o potencial dele, mas também seja compreendido como criança", resume Camila.
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