Aos 90, o que eu gostaria de ter sabido aos 60 | G1
Gerontólogo nonagenário ensina: “Antes de rejeitar algo por causa da idade, pergunte-se se vai conseguir fazer isso e aproveitar. Se a resposta for sim, comece”
A economista italiana Annamaria Lusardi, professora da Escola de Negócios da Universidade Stanford, é uma das principais referências mundiais em educação financeira. É dela uma das mais incisivas declarações sobre quão míope é a nossa visão do futuro: “As pessoas não têm noção sobre a própria longevidade e subestimam o número de anos que têm pela frente. Não saber calcular com um certo grau de acurácia a expectativa de vida faz muita diferença, porque afeta o comportamento em relação a se preparar para o futuro”. E como fazer um cálculo tão complexo?
Amigas se divertindo: “um dos segredos para se manter jovem é ter algo que dê vontade de fazer amanhã. A aposentadoria perigosa não é a saída do trabalho. É a aposentadoria do interesse” — Foto: Age without limit
Algumas pistas são conhecidas: o estilo de vida que adotamos é um bom indicador sobre as probabilidades de estender a existência, assim como se nossa família se distingue por seus membros longevos. Mas a melhor resposta para o desafio é a do gerontólogo Carl Bourhenne, fundador de um instituto que leva seu nome e que continua na ativa.
Aos 90 anos, ele escreveu um texto para a revista Sixty+Me no qual faz uma lista de coisas que gostaria de ter sabido... há 30 anos! Como estou na casa dos 60 – com vários amigos na mesma faixa – sua provocação acendeu um alerta: será que estou me preparando para chegar aos 90? Ou esta é quase uma questão retórica porque, na verdade, nem sequer levo a hipótese em consideração? Voltando à professora Lusardi: e se eu estiver subestimando os anos que tenho pela frente? Por isso, decidi compartilhar os conselhos de Bourhenne e fiquei feliz ao constatar que uma das minhas mais recentes providências – me dedicar com afinco à atividade física – está no topo da lista.
Leve sua saúde a sério: aos 60, é fácil pensar que estamos indo relativamente bem, mas o “mais tarde” sempre dá um jeito de chegar. O melhor momento para cuidar do seu corpo é enquanto ele ainda está colaborando contigo. Caminhe. Exercite-se. Mantenha um peso razoável. Alimente-se com bom senso. Faça seus exames médicos periódicos. Você não precisa viver como um monge, mas preste atenção quando perceber sinais de que algo não vai bem. Uma boa saúde lhe dá algo que o dinheiro não compra: a capacidade de aproveitar quase todo o resto.
Pare de se preocupar com problemas que não aconteceram: Bourhenne afirma que passou mais horas do que gostaria de admitir se preocupando com coisas que nunca se concretizaram. Imaginamos conversas que dão errado, doenças que não temos, desastres financeiros que não se materializaram. Se um problema pode ser resolvido, trabalhe para solucioná-lo. Se não depender de você, a ruminação só vai afetar sua paz de espírito.
São as pessoas que importam: acumulamos móveis, roupas, objetos, aparelhos eletrônicos, caixas cheias de itens que nem nos lembramos de ter comprado. No entanto, as coisas mais valiosas da vida não cabem em caixas. Não adie a ligação para o amigo que não vê há tempos. Almoce com alguém de quem você gosta. Diga às pessoas que as ama. Perdoe as pequenas coisas. Um dos privilégios de envelhecer é perceber o quanto certas discussões eram tolas. Estar certo às vezes traz satisfação. Estar perto de quem se ama é bem melhor.
Cultive sempre algo que desperte seu interesse: um dos segredos para se manter jovem é ter algo que dê vontade de fazer amanhã. Não importa se é escrever um livro, aprender a cantar, cuidar do jardim, viajar, estudar, começar a pintar, fazer trabalho voluntário, abrir um negócio ou tentar entender a tecnologia mais recente. A aposentadoria perigosa não é a saída do trabalho. É a aposentadoria do interesse.
É muito provável que você não esteja velho demais: aos 60 anos, as pessoas começam a descartar possibilidades apenas por causa do número no bolo de aniversário. “Estou velho demais para começar isso”, dizem elas. Talvez estejam. Mas, provavelmente, não estão. Antes de rejeitar algo por causa da idade, faça uma pergunta melhor: “Eu consigo fazer e vou aproveitar?”. Se a resposta for sim, comece. Você pode se surpreender com a quantidade de vida que ainda tem pela frente.
Continue aprendendo, mesmo quando o mundo se tornar irritante: toda geração chega ao ponto em que o universo parece ter mudado sem pedir licença. Novas tecnologias surgem. Novas expressões aparecem. Tarefas que antes exigiam três pessoas agora são feitas em segundos no celular. Você pode reclamar de tudo, mas é muito mais interessante aprender. Faça perguntas. Experimente coisas novas. Deixe os mais jovens ensinarem algo a você. Leia sobre assuntos que ignora. Quando decidimos que nada mais vale a pena ser aprendido, também diminuímos o nosso próprio território.
Não fique guardando a sua vida para mais tarde: “As pessoas passam anos esperando o momento perfeito para desfrutar da vida. Depois de se aposentar. Depois de quitar o financiamento da casa. Depois que o problema familiar se resolver. Depois que as coisas ficarem menos complicadas. Infelizmente, a vida nunca demonstrou muito interesse em se tornar descomplicada. Um dia comum e agradável é para ser valorizado. Uma caminhada. Uma conversa. Uma boa refeição. Acordar sentindo-se bem. Isso não é uma pausa enquanto espera a vida de fato começar. Isso é a vida. Se você tem 60 anos hoje, pode sentir que seus melhores anos ficaram para trás. Eles não precisam ter ficado. Cuide de si mesmo. Mantenha a curiosidade. Ame as pessoas. Continue aprendendo. Comece algo novo. Aproveite o dia de hoje.”
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