FAB analisa áudio de piloto que questionou rota para Varginha | G1
DECEA diz que eventuais condutas inadequadas nas frequências podem resultar em medidas administrativas. Caso aconteceu em voo do Rio de Janeiro para Varginha.
A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), informou que está analisando os registros de áudio e os dados operacionais de um voo com destino a Varginha (MG) que teve uma mudança de rota questionada pelo piloto. O caso aconteceu no dia 4 de setembro e ganhou repercussão após um trecho da comunicação entre a aeronave e o controle de tráfego aéreo circular nas redes sociais.
Durante a transmissão, uma voz disse: “ Amigão, você não manda nem em casa, quer mandar aqui? ”. A autoria do comentário ainda não foi identificada. Segundo o piloto Pedro Costa, de 35 anos, a frase não foi dita pela controladora com quem ele mantinha a comunicação.
Ao g1 , o DECEA confirmou que tem conhecimento da comunicação e que os registros de áudio da frequência utilizada no momento estão sendo analisados tecnicamente.
Segundo o órgão, os controladores de tráfego aéreo envolvidos atuam de acordo com os padrões operacionais, de cortesia e de profissionalismo estabelecidos para a prestação dos serviços de navegação aérea no Brasil.
Piloto questiona rota e ouve provocação durante voo com destino a MG — Foto: Maurício Costa Spotter
De acordo com o DECEA, o gerenciamento do fluxo de tráfego aéreo e eventuais alterações de rota são feitos com base em critérios técnicos e operacionais, tendo como prioridades a segurança, a regularidade e a eficiência das operações.
O órgão citou a ICA 100-37 – Serviços de Tráfego Aéreo , que estabelece que autorizações e alterações podem ser emitidas pelo órgão de controle quando necessárias ao gerenciamento do tráfego aéreo, inclusive para evitar possíveis conflitos entre aeronaves.
O voo era realizado em um Cessna 525 CitationJet M2 , de matrícula PS-KCI, que saiu do Aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, com destino a Varginha. Havia três pessoas a bordo: o piloto, o copiloto e um passageiro.
Piloto questiona rota e ouve provocação durante voo com destino a MG — Foto: Reprodução / Flight Radar 24
Segundo Pedro, a rota inicialmente planejada não foi aprovada por causa da existência de uma área militar ativa no trajeto. Foi necessário, então, contornar o espaço aéreo restrito para que o plano de voo fosse aceito.
Já durante o voo, o controle informou que seria necessária uma nova alteração, com orientação para que a aeronave prosseguisse pelo ponto de navegação MUDKA.
“Essa alteração representaria um acréscimo significativo de milhas à rota previamente planejada e aprovada, conduzindo inicialmente a aeronave em direção oposta ao destino pretendido”, afirmou Pedro ao g1 .
🔎 PIRAÍ, NIGMA e MUDKA, siglas citadas no áudio, são pontos de navegação (waypoints) usados para definir rotas no espaço aéreo.
Infográfico - Piloto questiona rota e ouve provocação durante voo com destino a MG — Foto: Arte g1
Um dos pontos levantados pelo piloto durante o voo foi o impacto que a mudança de rota poderia ter sobre o combustível e a autonomia da aeronave. Pedro afirmou que comunicou a preocupação ao controle e pediu uma alternativa que evitasse o desvio em direção oposta a Varginha.
Sobre a questão, o DECEA ressaltou que o planejamento de combustível é responsabilidade do piloto em comando. Segundo o órgão, antes do voo, cabe ao comandante assegurar que a aeronave tenha a quantidade necessária de combustível para realizar a operação com segurança, conforme os requisitos do Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) nº 91.
O órgão também explicou que, se houver uma alteração de rota durante o voo, a tripulação deve considerar os impactos sobre o combustível e a autonomia. Nessa situação, o piloto pode comunicar a condição ao controle e solicitar uma alternativa ou correção da autorização.
Sobre o comentário “ Amigão, você não manda nem em casa, quer mandar aqui? ”, o DECEA informou que as frequências aeronáuticas são destinadas exclusivamente à coordenação e à comunicação relacionadas às operações de voo.
O órgão afirmou que eventuais condutas inadequadas nesses canais podem ser analisadas e estão sujeitas às medidas administrativas cabíveis, conforme a legislação aplicável.
O DECEA não informou quem fez o comentário, nem se algum profissional envolvido já foi identificado.
"Os registros de fonia e os dados operacionais pertinentes estão sendo analisados pelo DECEA para o devido esclarecimento do episódio, reafirmando o compromisso do DECEA com a segurança e a fluidez do espaço aéreo", informou em nota.
Pedro Costa tem 35 anos, 14 deles como piloto — Foto: Arquivo pessoal/Pedro Costa
Após o episódio, Pedro foi orientado a registrar a ocorrência por meio de um Relato de Prevenção (RELPREV).
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) explicou ao g1 que o RELPREV é um reporte voluntário previsto pelo Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SIPAER), destinado ao registro de situações com potencial para afetar a segurança operacional.
Segundo o CENIPA, o RELPREV é baseado nos princípios da voluntariedade, do sigilo e da não punibilidade e tem como objetivo contribuir para a prevenção de acidentes aeronáuticos.
O DECEA não informou prazo para a conclusão da análise dos registros de áudio e dos dados operacionais relacionados ao caso.
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