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Câncer de mama aos 32 anos levou mulher a descobrir doença rara no coração e hipótese para a morte súbita da mãe | G1

Após o tratamento oncológico, Patrícia Biscaro descobriu uma alteração cardíaca congênita e recebeu o diagnóstico de uma síndrome genética. A mãe e duas tias morreram subitamente, e ela precisou implantar um desfibrilador para se proteger de arritmias graves.

· 1,770 words

A empresária Patrícia Biscaro — Foto: Arquivo Pessoal

Patrícia Biscaro tinha acabado de concluir o tratamento de um câncer de mama agressivo quando os médicos pediram uma ressonância do coração, só para descartar sequelas da quimioterapia. As imagens mostraram algo que não tinha relação com o remédio: uma má-formação rara no músculo cardíaco , que ela tinha desde o nascimento e que anos de exames de rotina não haviam revelado.

A descoberta a levou de volta aos 18 anos, quando viu a mãe, de 42, morrer de forma súbita diante dela. A família cogitou infarto, mas a causa nunca foi esclarecida. Mais de uma década depois, a doença no coração de Patrícia trazia uma hipótese, impossível de confirmar: a de que a mãe tivesse morrido de uma arritmia grave , possivelmente associada ao mesmo problema.

Hoje, aos 40 anos, a empresária tem um desfibrilador implantado no peito, descobriu uma síndrome genética que afeta o tecido de sustentação do corpo e enfrentou um segundo câncer, na tireoide . Tudo começou em 2018, aos 32 anos, com um tumor de mama que um ultrassom feito sete meses antes não havia apontado.

Sete meses entre exame sem alterações e tumor agressivo

Patrícia fazia ultrassom de mama anualmente. Não tinha idade para a mamografia nem histórico de câncer de mama na família. No fim de 2017, sentiu um incômodo vago no seio, sem nada que o toque revelasse. Como os exames eram recentes, todos a tranquilizaram.

No início de 2018, apalpou um nódulo duro. A ginecologista suspeitou de mastite, a inflamação típica da amamentação, e deu a ela alguns meses de prazo para um novo ultrassom. Patrícia, que nunca amamentou, desconfiou e marcou o exame por conta própria. A imagem era muito diferente da de setembro, e o laudo pediu biópsia . Em 5 de abril, uma mastologista confirmou um câncer de mama triplo negativo, com um linfonodo da axila comprometido.

Patrícia foi internada na hora para exames que descartaram a doença em outros órgãos e encaminhada ao oncologista. Ele lhe disse que ela havia sido rápida: chegara junto com o tumor.

ℹ️ O triplo negativo é o subtipo em que as células malignas não têm os três receptores que servem de alvo a boa parte dos tratamentos, e é o de maior risco de recidiva entre os cânceres de mama , afirma o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e membro da instituição científica Americas Health Foundation.

Para o oncologista responsável pelo caso, Daniel Gimenes, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o quadro se encaixa no que a oncologia chama de tumor de intervalo , aquele que nasce entre um exame e o seguinte. Aos 32 anos, ela estava fora da faixa de rastreamento, e o ultrassom, lembra o médico, deixa escapar muita coisa.

Patrícia durante o tratamento oncológico — Foto: Arquivo Pessoal

A quimioterapia começou em maio de 2018, em seis ciclos aplicados antes da cirurgia, estratégia que reduz o tumor e mostra se o organismo responde ao remédio. O cabelo caiu, e Patrícia passou a usar peruca. A cirurgia retirou apenas uma parte da mama, mas, na axila, a análise do material mostrou que a quimioterapia não havia eliminado todas as células tumorais.

Quando a resposta completa não vem, o resultado orienta os passos seguintes, explica Stefani. No caso de Patrícia, a doença que sobrou era pequena , mas pedia mais tratamento: 30 sessões de radioterapia, concluídas em janeiro de 2019, e uma nova fase de quimioterapia, em comprimidos.

Oito anos depois, sem sinal de recidiva, a medicina a considera em remissão completa , afinal esse tipo de tumor dificilmente retorna de forma tardia.

Terminado o tratamento, Patrícia manteve as consultas de revisão a cada três meses. As dores nas articulações e as manchas roxas pelo corpo , que ela atribuía aos remédios, não passavam e mudavam de lugar. Ortopedistas e reumatologistas não achavam a causa.

Gimenes, que a acompanhava, suspeitou de que o tratamento não explicava as queixas. Antes de encaminhá-la a um reumatologista, pediu que passasse pela cardio-oncologista do consultório, que solicitou uma ressonância magnética do coração para verificar se a quimioterapia havia lesado o músculo.

Patrícia foi sozinha e tranquila ao exame. A médica procurava marcas do remédio e encontrou outra coisa: uma má-formação cardíaca chamada miocárdio não compactado.

O nome descreve uma falha na formação do ventrículo esquerdo , a câmara do coração que empurra o sangue para o corpo inteiro, ocorrida ainda na gestação. Durante o desenvolvimento do bebê, explica o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP, a parede dessa câmara começa como uma trama de fibras soltas e vai se adensando até virar um músculo firme.

No miocárdio não compactado, esse processo não se completa, e a parede fica com aspecto de esponja . Com os anos, o coração perde força para bombear, o que pode levar à insuficiência cardíaca, e fica sujeito a batimentos descompassados, as arritmias graves . Nos vãos da parede também podem se formar coágulos, que, se chegarem ao cérebro, provocam um acidente vascular cerebral (AVC).

É uma doença rara e, em geral, silenciosa. Os exames de Patrícia, como o ecocardiograma e o eletrocardiograma, sempre vieram sem alterações; só a ressonância, mais sensível, mostrou o problema.

Ao ver as imagens, a cardiologista perguntou se a mãe de Patrícia não havia morrido de morte súbita. Havia. Aos 18 anos, Patrícia viu a mãe, de 42, cair diante dela. A família supôs um infarto, e a causa nunca foi esclarecida.

Mais tarde, ela soube que duas tias também tinham morrido de forma súbita, ainda jovens . Apesar de consultar cardiologistas havia anos, nenhum lhe pediu uma ressonância. Kazunori afirma que uma arritmia grave está entre as explicações possíveis para a morte da mãe, hipótese que já não há como confirmar.

“Após o tratamento oncológico, meu oncologista me disse: ‘Agora é hora de cuidar do coração’. Adiei por anos. Por um tempo, aceitei que talvez eu também morresse de forma súbita e não havia o que ser feito.”

A partir de 2023, os sintomas impediram que ela continuasse ignorando o problema. Patrícia começou a desmaiar. Num dia comum, o coração chegou a 190 batimentos por minuto enquanto pendurava roupa no varal. A pressão despencava todas as manhãs, e ela só conseguia secar o cabelo deitada, com a ajuda do marido.

O cardiologista pediu o teste de inclinação, em que o paciente fica em uma maca que simula a posição em pé. Em seis minutos, Patrícia desmaiou, sem nenhum remédio para provocar a reação . O diagnóstico foi disautonomia grave, falha do sistema nervoso autônomo, que controla pressão e batimentos.

Reumatologistas investigaram artrite reumatoide, síndrome de Sjögren e lúpus e foram descartando cada hipótese.

O diagnóstico saiu do consultório de um especialista em doenças raras: síndrome de Ehlers-Danlos. Ele notou que o branco dos olhos de Patrícia era fino demais, com tom azulado, e ela se lembrou de que a mãe tinha a mesma marca. Um exame genético amplo descartou o tipo vascular da síndrome, o mais perigoso.

Para Patrícia, as peças se encaixaram: as dores, as quedas de pressão, a flexibilidade fora do comum, o nariz que sangrava muito na infância . Ela compara a síndrome a um prédio construído sobre um pilar defeituoso, que com os anos acumula infiltrações e rachaduras.

ℹ️ A síndrome de Ehlers-Danlos reúne doenças genéticas do tecido conjuntivo , o que conecta e sustenta os demais tecidos do corpo. Falhas no colágeno, explica a geneticista Maria Luísa Carpinetti Tinoco, do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, deixam o organismo frágil em vários pontos: articulações que se movem além do normal, pele alterada, vasos, órgãos, ligamentos e olhos mais vulneráveis.

O diagnóstico costuma demorar, porque os sintomas atingem vários sistemas , incluem queixas difíceis de medir, como dor e cansaço, e não existe exame de laboratório que confirme a suspeita.

Não há relação estabelecida com o miocárdio não compactado : a literatura registra um caso isolado de paciente com as duas, e Kazunori diz que não é comum pensar nelas em conjunto.

O desfibrilador entrou na história quando um arritmologista concluiu, conta Patrícia, que ela preenchia os critérios para o implante: mortes súbitas na família, miocárdio não compactado confirmado na ressonância e a síndrome. Apelidado de anjo da guarda, o aparelho fica sob a pele do peito, monitora o ritmo do coração e, ao identificar uma arritmia ventricular grave, aplica um choque, explica Kazunori. Para Patrícia, o câncer foi o fio que puxou todo o resto.

“Sem o câncer, eu não teria descoberto o problema no coração, não teria colocado o aparelho e continuaria sem saber o que levou a minha mãe”, afirma.

Rotina calculada e negócio nascido do tratamento

O que mais limita Patrícia hoje é a disautonomia, desencadeada por ficar em pé, mas também por calor, cheiros, estresse e certos alimentos. Com a ajuda de uma nutricionista, relata, descobriu que abacate e banana estavam por trás das quedas de pressão depois das refeições.

Antes de ir a qualquer lugar, pergunta se haverá onde sentar. No metrô, usa uma pulseira de girassol, símbolo de deficiências ocultas, e às vezes recorre à fila preferencial, sob olhares tortos. Como não parece doente, o jeito mais rápido de se explicar é mostrar o aparelho no peito.

É no próprio ritmo que ela toca o negócio criado na época do câncer de mama. Entre consultas, exames e receitas, Patrícia, tecnóloga em alimentos de formação, sentiu falta de um lugar para registrar tudo: a agenda distribuída pela clínica era pequena demais, e a busca na internet por um “oncoplanner”, nome que lhe ocorreu na hora, não trouxe resultado algum.

Oncoplanner, agenda para tratamento oncológico, criado por Patrícia — Foto: Arquivo Pessoal

Ela pediu a uma conhecida com gráfica que imprimisse a sua versão, registrou a marca e hoje o Oncoplanner é comprado por médicos, clínicas, hospitais e farmacêuticas, que o entregam aos pacientes com o próprio logotipo na capa.

A saúde, porém, não saiu de cena. No início deste ano, Patrícia recebeu o diagnóstico de câncer de tireoide, num nódulo que acompanhava desde 2019, e teve a glândula inteira retirada. Os testes genéticos de câncer hereditário deram negativo, e ela passou a suspeitar de uma ligação com a síndrome de Ehlers-Danlos, já que conhece outras pessoas com o diagnóstico que também tiveram câncer.

A ciência não confirma essa relação: a geneticista diz que não há vínculo conhecido entre a síndrome e a predisposição ao câncer, e Stefani afirma que a literatura médica não traz evidência sólida de que ela aumente o risco de tumor de mama ou de tireoide. Por ora, a origem dos dois tumores segue sem explicação definida.

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Wednesday, November 4, 2026

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