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Thursday, September 3, 2026

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Em áudio, ex-número 3 da Fazenda de SP fala em comprar sauna para lavar dinheiro e teme ser algemado | G1

Gravação de almoço entre fiscais foi encontrada no celular de outro investigado e passou por perícia. André Weiss, preso nesta quinta, também aparece discutindo o 'rateio' de valores relacionados a processos tributários.

· 987 words

O ex-diretor-geral da Administração Tributária de São Paulo André Weiss, preso nesta quinta-feira (3) por suspeita de envolvimento em um esquema de corrupção na Secretaria da Fazenda , afirmou durante um almoço entre fiscais que pensou em comprar uma sauna para lavar dinheiro.

A conversa foi gravada em julho de 2023 por um dos participantes e encontrada posteriormente pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) no celular do auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, preso na Operação Ícaro, em agosto de 2025.

Segundo a transcrição apresentada pelo MPSP, Weiss também demonstrou preocupação com a possibilidade de chamar a atenção das autoridades caso aparecesse dirigindo uma Mercedes de R$ 250 mil. Ele afirmou que isso poderia levá-lo aos jornais e fazê-lo terminar algemado.

Weiss ocupou até maio deste ano o terceiro posto mais alto na hierarquia da Secretaria da Fazenda, subordinado apenas ao subsecretário da Receita Estadual e ao secretário da Fazenda. Para o MPSP, ele comandava o núcleo público da organização criminosa investigada.

Em um dos trechos da gravação, Weiss sugere que uma sauna seria um bom negócio para receber valores em espécie:

“Você sabe que eu pensei em pegar dinheiro e comprar uma sauna em São Paulo... pra fazer reunião... vamos juntar uma grana e vamos pegar uma porra de uma sauna, né? E para lavar também é bom”, afirmou.

Na sequência, ele argumentou que os clientes dificilmente utilizariam cartões no estabelecimento:

“Quantas pessoas entram em sauna e pagam em dinheiro? Quase todas, cara.” “Pô, quem que vai passar um cartão em sauna? Ninguém”, prosseguiu.

O MPSP afirma que a fala descreve, em primeira pessoa, uma possível forma de lavagem de dinheiro por meio de um estabelecimento com grande circulação de recursos em espécie. Os documentos não indicam que a compra da sauna tenha sido concretizada.

Em outro momento do almoço, Weiss disse que era preciso ter cuidado com demonstrações externas de riqueza.

“Se eu comprar uma Mercedes... eu não vou comprar uma Mercedes seminova... 250 pau uma Mercedes, né... se você aparece na Delegacia, cara... isso aí vai sair no jornal”, afirmou.

Em seguida, acrescentou: “Você é algemado... chega um promotor pra me prender na hora lá.”

A conversa ocorreu em 27 de julho de 2023, menos de um mês antes da primeira entrega de propina relatada pelo ex-delegado regional tributário do Butantã Paulo Sérgio Siqueira Prado, que firmou um acordo de colaboração premiada.

O áudio, com mais de duas horas de duração, foi submetido a uma perícia do Núcleo de Computação Forense do Centro de Apoio Operacional à Execução (Caex), que atestou sua integridade.

A Justiça considerou que a gravação pode ser usada como prova por ter sido feita por um dos participantes da conversa, sem atuação clandestina dos investigadores.

Paulo Sérgio Siqueira do Prado, conhecido como "PP", se aposentou em 2024, mas durante a carreira na secretaria, ocupou cargos de destaque na Receita Estadual de São Paulo. — Foto: Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais

Durante o almoço, os fiscais também discutiram procedimentos de ressarcimento de ICMS de grandes redes varejistas.

Ao ser questionado sobre o assunto de uma reunião reservada que teria mantido com Paulo Prado, Weiss respondeu: “Rateio”.

Em outros trechos, eles falam sobre três processos cujos números ou valores “não estariam batendo” e combinam um novo encontro para discutir o assunto.

Segundo o MPSP, o conteúdo indica que os participantes tratavam da divisão de vantagens indevidas relacionadas à liberação dos créditos tributários. A gravação também apresenta relatos e piadas sobre “caixinhas” mantidas por fiscais.

A decisão que decretou a prisão preventiva afirma que o áudio ganha relevância quando analisado em conjunto com a colaboração premiada, documentos manuscritos sobre a divisão dos valores, dados bancários e relatórios de inteligência financeira.

Paulo Prado declarou ter recebido aproximadamente R$ 13,6 milhões do advogado João André Buttini de Moraes para agilizar e destravar pedidos de ressarcimento tributário.

Segundo o colaborador, cerca de R$ 4,5 milhões foram posteriormente repassados a Weiss. As entregas teriam ocorrido em dinheiro vivo, dentro de mochilas, principalmente em restaurantes da Rua Ferreira de Araújo e em uma unidade da Ofner na Rua Pedroso de Moraes, em Pinheiros.

Prado também afirmou que, a partir de meados de 2023, passou a pagar R$ 250 mil mensais a Weiss para ser mantido à frente da Delegacia Regional Tributária do Butantã até sua aposentadoria, ocorrida em 2024.

O MPSP afirma ter encontrado na casa de Prado documentos manuscritos com divisões de valores. Uma das anotações atribui a “Weiss” uma cota de R$ 747,1 mil relacionada a um processo da Via.

O juiz responsável pelo caso ressaltou que as acusações não estão baseadas somente na palavra do colaborador. Segundo ele, há elementos externos de corroboração, como documentos, quebras de sigilo, movimentações financeiras e a gravação ambiental periciada.

Weiss e Buttini foram presos preventivamente nesta quinta. Outros seis agentes públicos foram afastados das funções e estão proibidos de acessar as dependências e os sistemas da Secretaria da Fazenda.

Os investigados poderão responder por organização criminosa, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.

O g1 procurou as defesas de André Weiss e dos demais investigados citados, além da Secretaria da Fazenda, e aguarda retorno. O espaço permanece aberto.

Desde a deflagração da Operação Ícaro, em agosto de 2025, a Secretaria da Fazenda e Planejamento atua em conjunto com o Ministério Público de São Paulo na apuração rigorosa dos fatos. As ações da pasta resultaram na demissão de cinco envolvidos, além de um exonerado e 17 servidores afastados sem remuneração.

As empresas envolvidas também estão sendo responsabilizadas, com autuações específicas que já resultaram na constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros.

Qualquer novo fato decorrente dos desdobramentos da operação, inclusive de eventuais acordos de delação ou denúncias, será rigorosamente apurado e, comprovadas irregularidades, serão adotadas as medidas cabíveis.

A Secretaria colabora integralmente com as investigações e reafirma seu compromisso com a rigorosa apuração e responsabilização de eventuais desvios, sem qualquer tolerância com condutas irregulares.

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