Por que Laranjeiras foi eleito um dos bairros mais legais do mundo? | G1
Bairro da Zona Sul do Rio ficou em 17º lugar em ranking da revista britânica Time Out. Região reúne construções históricas, áreas verdes e bares tradicionais e ganhou novas atrações.
Laranjeiras, no Rio de Janeiro, é um dos bairros na lista da Time Out — Foto: Getty Images via BBC
Feira de rua com chorinho aos sábados, casarões históricos, cinema de rua, bares tradicionais, novos restaurantes e ruas arborizadas aos pés do Corcovado. Essa mistura entre um Rio antigo e novidades que chegaram nos últimos anos ajuda a explicar por que Laranjeiras, na Zona Sul, foi escolhido como um dos bairros mais legais do mundo pela revista britânica Time Out .
O bairro aparece na 17ª posição de um ranking com 40 regiões de diferentes cidades do planeta. É um dos dois representantes brasileiros na lista — o outro é a República, em São Paulo, que ficou em 25º lugar. Para montar o ranking, a publicação levou em conta critérios como gastronomia e bebidas, vida noturna, comércio local, qualidade de vida e senso de comunidade.
No caso de Laranjeiras, a revista destaca justamente a convivência entre diferentes momentos da história do bairro : dos casarões e do Parque Guinle ( onde fica o Palácio Laranjeiras, no vídeo acima ) à feira da Rua General Glicério e aos bares tradicionais, passando por uma nova geração de restaurantes e espaços culturais.
Nos últimos anos, essa mistura ganhou novos ingredientes. O CineCarioca José Wilker voltou a funcionar depois de 16 anos fechado, o Mercadinho São José foi recuperado e reaberto, uma nova livraria chegou ao bairro e restaurantes passaram a integrar o circuito gastronômico local.
Feira da Praça General Glicério, em Laranjeiras — Foto: Alexandre Macieira/Riotur
É aos sábados que uma das imagens mais características do bairro ganha força. A feira da Rua General Glicério é apontada pela Time Out como uma das principais atrações de Laranjeiras. Além das barracas, o programa é acompanhado pelo tradicional chorinho tocado na rua.
A música faz parte da identidade cultural da região. Além da General Glicério, a vizinha Praça São Salvador é conhecida pelas rodas de choro e outros encontros musicais ao ar livre.
A Time Out recomenda começar um sábado justamente pela feira, com opções que vão de pastéis e tapiocas a ostras, água de coco e caldo de cana.
A publicação também cita entre os representantes da vida de bairro estabelecimentos tradicionais como o Cardosão e a Tasca do Edgar .
Se parte do charme de Laranjeiras vem de lugares que resistiram ao tempo, outra parte está em espaços que ganharam vida nova. Um dos exemplos é o CineCarioca José Wilker , instalado nas Casas Casadas .
O cinema havia fechado em 2008 e voltou a funcionar em dezembro de 2024, 16 anos depois. A reforma recebeu investimento de R$ 2,3 milhões.
O espaço tem duas salas, com capacidade para 66 espectadores cada, projetores 4K, sistema de som digital e recursos de acessibilidade.
O nome é uma homenagem ao ator e diretor José Wilker, que também teve ligação com o cinema brasileiro e com a gestão da RioFilme.
Mercadinho renasceu após sete anos fechado
Outra recuperação destacada pela Time Out é a do Mercado São José , mais conhecido pelos cariocas como Mercadinho São José.
O mercado foi inaugurado em 31 de maio de 1944 e se consolidou ao longo das décadas como ponto de comércio e convivência do bairro. O imóvel foi reconhecido como patrimônio cultural municipal.
Fechado em 2018, o espaço permaneceu sete anos sem funcionar. A Prefeitura comprou o prédio e o terreno vizinho em 2023 e promoveu sua recuperação .
Fachada do Mercado São José, em Laranjeiras — Foto: Cristina Boeckel/ g1
O Novo Mercado São José foi inaugurado em setembro de 2025, com 16 empreendimentos . O espaço passou a reunir hortifruti orgânico, queijaria, confeitaria, café, massas, sorvetes, bares e restaurantes, além de atividades culturais.
A restauração também recuperou elementos históricos do imóvel, como uma fonte centenária e os azulejos com a imagem de São José na fachada.
Essa renovação não ficou restrita aos equipamentos culturais. A Time Out destaca uma leva de estabelecimentos que chegaram a Laranjeiras nos últimos anos e ajudaram a movimentar a gastronomia e o comércio local.
Entre os restaurantes citados pela revista estão Nizza Rotisseria , Pressa Cozinha e Esperança.Eco . A publicação também destaca a chegada da Janela Livraria e indica o Maya Café como uma das paradas possíveis durante um passeio pelo bairro.
Parque Guinle — Foto: Alexandre Macieira/Riotur
A sugestão da revista para um dia em Laranjeiras é justamente misturar o antigo e o novo: começar pela feira da General Glicério, passar pela livraria, almoçar no bairro, assistir a um filme no CineCarioca, descansar no Parque Guinle e terminar o dia no renovado Mercado São José.
Para a noite, a publicação ainda cita as rodas de samba do Mirante do Pedrão , com vista para a cidade, e a Praça São Salvador .
Bloco Gigantes da Lira é uma das atrações da Rua General Glicério, em Laranjeiras — Foto: Alexandre Macieira/Riotur
A Time Out recomenda ainda conhecer Laranjeiras durante o carnaval. O bairro e seus arredores recebem blocos voltados tanto para adultos quanto para crianças ( como o Gigantes da Lira , na foto acima ), espalhando a folia por suas ruas e praças.
A localização também é apontada como uma vantagem para quem visita a cidade: Laranjeiras fica perto do Cosme Velho, de onde parte o Trem do Corcovado para o Cristo Redentor .
Um bairro que cresceu às margens do Rio Carioca
Rio Carioca: símbolo do Rio de Janeiro tem 4,3 km de extensão, mas praticamente não é visto pelo povo que leva seu nome — Foto: Júnior Alves/Reprodução/TV Globo
A história de Laranjeiras está diretamente ligada a um rio que hoje passa praticamente despercebido por quem atravessa o bairro.
O Rio Carioca nasce na Serra do Corcovado, na altura das Paineiras, desce pelo vale de Laranjeiras e foi o primeiro grande manancial de abastecimento de água da cidade. Durante séculos, suas águas tiveram papel fundamental no desenvolvimento do Rio.
A ocupação do vale começou ainda nos primeiros tempos da colonização. Grandes chácaras se espalhavam pelas margens do rio e produziam frutas e verduras. Parte desses produtos seguia de canoa até regiões mais próximas do Centro.
A região chegou a ser conhecida como Vale do Carioca . Uma das explicações históricas para o nome atual é justamente a grande quantidade de laranjeiras existente ali — embora haja também historiadores que relacionem a denominação a Laranjeiras, em Portugal.
Com a expansão da cidade, as antigas chácaras começaram a dar lugar a residências. Ao longo do século 19, Laranjeiras tornou-se endereço de famílias abastadas e ganhou casarões e palacetes. No fim daquele século, o bairro viveu outra transformação: a chegada da indústria.
Na década de 1880, foi inaugurada na atual Rua General Glicério a Companhia de Fiações e Tecidos Aliança, uma das maiores fábricas do país, que chegou a ter mais de mil operários. A indústria ajudou a mudar o perfil do bairro e levou à construção de uma vila operária na região da Rua Cardoso Júnior.
A fábrica fechou em 1937, e parte de seus terrenos posteriormente deu origem ao loteamento Jardim Laranjeiras.
Parque e palácio guardam parte dessa história
Palácio das Laranjeiras, no alto do Parque Guinle — Foto: Reprodução/RJ2
Um dos símbolos da fase aristocrática do bairro continua de pé. O Palácio das Laranjeiras foi construído entre 1909 e 1913 para ser a residência do empresário Eduardo Guinle. Projetado pelos arquitetos Armando Carlos da Silva Telles e Joseph Gire, o prédio foi inspirado no estilo Luís XIII.
O imóvel passou para o governo federal na década de 1940 e chegou a ser utilizado como residência presidencial. Em 1975, foi transferido para o governo do estado e se tornou residência oficial dos governadores do Rio .
Ao redor do palácio fica outro cartão-postal do bairro: o Parque Guinle , com cerca de 25 mil metros quadrados, jardins, gramados e lagos.
O conjunto também tem importância para a arquitetura brasileira. Edifícios residenciais construídos na área exploram elementos que se tornaram característicos da arquitetura moderna, como pilotis, cobogós e brises.
Em 2026, o governo do estado iniciou a reabertura gradual do Palácio das Laranjeiras para visitação . Atualmente, o acesso presencial ainda ocorre de forma controlada, com grupos de estudantes da rede pública e grupos ligados a universidades e instituições de preservação do patrimônio.
Um endereço importante para a história do futebol brasileiro
Primeiro jogo do Brasil em 1914, no campo das Laranjeiras no Rio de Janeiro, Exeter City — Foto: CBF
Laranjeiras também guarda um pedaço importante da história do futebol. Na sede do Fluminense fica o Estádio das Laranjeiras , construído para o Campeonato Sul-Americano de Seleções de 1919, competição que posteriormente se tornaria a Copa América.
Antes mesmo da construção das arquibancadas, o campo de Laranjeiras recebeu, em 1914, o primeiro jogo da história da Seleção Brasileira , um amistoso contra o Exeter City, da Inglaterra.
Em 1919, já com o estádio construído, o local foi palco do primeiro título internacional da Seleção Brasileira. O Brasil venceu o Uruguai por 1 a 0 na partida decisiva do Sul-Americano, com gol de Friedenreich.
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