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Sunday, September 6, 2026

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Vídeo: agricultor filma rotina de dois filhotes de carcará em ninho | G1

Francisco Uruna Gomes da Silva mostrou, nas redes sociais, a rotina dos irmãos e do carcará adulto em um ninho no topo de uma árvore em Tamboril, no interior do Ceará.

· 1,130 words

Um agricultor, no interior do Ceará, criou um verdadeiro “reality show” em seu perfil no Instagram após encontrar um ninho com dois filhotes de carcará, uma das aves-símbolos do sertão nordestino . Francisco Uruna Gomes da Silva subiu em uma árvore e filmou, durante mais de um mês, a rotina dos irmãos de bico e o carcará adulto que os alimentava.

O ninho foi encontrado no topo de uma árvore com cerca de 15 metros de altura, em um sítio no distrito de Oliveiras, zona rural de Tamboril , município no interior do Ceará que fica a cerca de 287 km de Fortaleza.

“A gente ficou na curiosidade quando eu achei o ninho lá. Depois, eu fui pesquisar e vi que só ‘se criava’ [sobrevivia] um. Aí eu fiquei na curiosidade e pensei: ‘vou fazer o acompanhamento desse ninho’”, comentou Francisco, de 33 anos.

Na rede social, os seguidores do agricultor começaram a torcer pela sobrevivência do filhote menor. Há um credo popular, principalmente no interior do estado, que apenas um filhote de carcará sobrevive quando dois habitam o mesmo ninho. Normalmente, o maior, mais velho e mais forte mata o outro.

A teoria não está de todo errada. Em algumas aves de rapina, é comum o comportamento chamado “cainismo” ( entenda mais abaixo ), em referência à história bíblica em que Caim mata o próprio irmão, Abel.

“Aí acabou que foi como se o Nordeste todo tinha se juntado ali para torcer pelo filhote mais novo”, reforçou o agricultor sobre a viralização dos vídeos e os comentários das pessoas na torcida pelo filhote caçula.

O cainismo é um comportamento presente nos filhotes de aves de rapina. — Foto: Francisco Uruna/Reprodução

O cainismo é um fenômeno comportamental que ocorre com frequência em aves de rapina (como águias, falcões e corujas) e em aves marinhas (como garças e pelicanos). O fenômeno consiste em um filhote matar o outro, e o nome é referência à história bíblica em que Caim, filho de Adão e Eva, mata o próprio irmão, Abel.

Mas por que isso acontece? O biólogo Sanjay Veiga Mendonça explicou ao g1 que o comportamento é mais comum quando há escassez de alimentos. Então, por uma questão de sobrevivência da espécie, o menor filhote é morto.

“Esses gatilhos de agressividade são geralmente disparados por escassez de alimento. Então, quando tem alimento em abundância, a agressividade é menor, sobrevivem os dois. Quando tem o alimento em menor abundância, pela degradação ambiental — hoje em dia é mais comum menor abundância —, um filhote entra em agressividade e termina matando o outro”, explicou Sanjay, que é mestre em ciências veterinárias.

Apesar da agressividade assustar aqueles não acostumados ou desinformados sobre o comportamento animal, a prática é benéfica para as espécies. “Porque, no lugar de ficar dois filhotes fracos, que não sobreviveriam nenhum dos dois, a comida vai ser toda direcionada só para o filhote mais forte, porque venceu a luta, estava mais apto”, salientou o biólogo.

“Às vezes não é nem exatamente o mais forte, mas é o mais sortudo que nasceu um dia antes. E, às vezes, o fato dele nascer um dia antes torna ele maior, porque ele vai ser sempre maiorzinho, mais esperto, e ele vai ter mais acesso à comida. Com o tempo, essa diferença vai se tornar muito gritante de um filhote para outro”, complementou.

Agriculto fez série de vídeos observando carcará adulto cuidando de ninho com dois filhotes, no Ceará. — Foto: Francisco Uruna/Reprodução

O primeiro vídeo feito por Francisco, publicado no dia 20 de julho, mostrou os dois filhotes de carcará bem pequenos, mas o agricultor não sabe exatamente quando eles saíram dos ovos. Movido pela curiosidade, Francisco passou a subir na árvore todos os dias pela manhã , para filmar a rotina do ninho; em especial, saber se o carcará adulto iria alimentar ambos e se o filhote maior mataria o outro.

➡️ O biólogo Sanjay Veiga Mendonça explicou que, apenas com os vídeos, não é possível afirmar se o carcará adulto é macho ou fêmea.

“Eu uso uma câmera adaptada. Um rapaz adaptou ela pra mim, para a gente conseguir fazer essas filmagens. Mais de manhã para meio-dia, porque à tarde o tempo é quente demais”, explicou o agricultor sobre a rotina de filmar o ninho em um município no sertão cearense, com clima tropical quente semiárido.

“A sorte é que eu sou maneiro. Sorte que eu sou ‘magrinho’, aí dá pra gente fazer isso [subir todo dia]. Mas, para qualquer outra pessoa, é difícil subir”, comentou Francisco.

Com o esforço, o agricultor conseguiu flagrar diversos momentos da rotina entre os irmãos carcarás e o adulto. Entre eles, foi possível ver o animal adulto alimentando os dois filhotes; em alguns momentos, inclusive, deu para ver o irmão menor “roubando” a comida do maior, que era a prioridade do adulto.

No dia 25 de agosto, o maior filhote alçou o primeiro voo . Assim, a curiosidade de Francisco mudou: agora, ele queria saber se o adulto voltaria para alimentar o caçula, que permaneceu no ninho. Três dias depois, veio a resposta: o adulto retornou para alimentar o segundo filhote .

Os carcarás também possuem relação parental com os filhotes, mesmo quando eles saem do ninho. “Ele vai continuar muito tempo sendo acompanhado pelos pais, para ir aprendendo a viver. Imagina que a vida de um carcará é complexa, ele precisa aprender muitas coisas com os pais. Então, ele passa a voar e ficar pedindo comida, do mesmo jeito que no ninho, só que agora acompanhando, perturbando o pai e a mãe pra onde for”, explicou Sanjay.

Apesar do cainismo comum entre algumas aves, os dois carcarás filmados em Tamboril sobreviveram. Sanjay Viega Mendonça explicou que o caso não é exceção devido a uma característica da espécie: os carcarás se alimentam de “quase tudo”.

“Elas [outras aves] não comem carniças, elas não são grandes oportunistas como o carcará. Elas realmente ficam mais restritas a caçar presas vivas e, muitas vezes, essas presas vivas podem sofrer uma escassez maior, e o filhote sentir muita fome e desencadear essa agressividade”, explicou.

A resiliência do carcará é relatada até na música homônima da ave, lançada por Chico Buarque e João do Vale em 1981.

Carcará Come inté cobra queimada [...] Carcará mesmo assim não passa fome Os burrego que nasce na baixada Carcará Pega, mata e come Carcará Não vai morrer de fome

Ao contrário da história bíblica, não houve morte no ninho de carcarás de Tamboril. O mais velho voou primeiro, e o adulto voltou para alimentar o segundo, que não conseguiu ainda voar (até a publicação desta reportagem).

Na verdade, Francisco conseguiu filmar mais um momento que contraria a crença popular. Nesta quinta-feira (3), o irmão mais velho voltou para o ninho e reencontrou o mais novo.

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