Quase metade dos corais que formam recifes está ameaçada de extinção | G1
Estudo inédito avaliou 892 espécies e aponta mudança climática como principal ameaça. No Atlântico, metade das espécies analisadas está em risco, e Nordeste do Brasil é área de preocupação.
Recife de coral na Papua-Nova Guiné, um dos ecossistemas marinhos mais diversos do planeta. — Foto: Tom Shlesinger
Quase metade das espécies de corais responsáveis pela formação dos recifes está ameaçada de extinção, segundo a maior avaliação global já feita sobre esse grupo de animais.
O estudo, publicado na revista "Nature", analisou 892 espécies de corais construtores de recifes. Entre as 774 para as quais havia dados suficientes, 340 — ou 44% — foram classificadas como ameaçadas.
São 33 espécies criticamente ameaçadas, 251 ameaçadas e 56 vulneráveis. A situação piorou em relação à primeira avaliação global, feita em 2008, quando cerca de um terço dos corais aparecia entre os grupos ameaçados.
O principal fator por trás dessa deterioração é o aquecimento dos oceanos provocado pela mudança climática.
O aumento da temperatura favorece eventos de branqueamento, quando o coral expulsa as algas microscópicas que vivem em seus tecidos e fornecem grande parte de sua energia. Se o calor persiste, o animal pode morrer.
A mudança climática foi determinante para a classificação de mais de 90% das espécies que aparecem nos grupos de maior risco, segundo os pesquisadores.
O trabalho combinou dados sobre perda de cobertura de corais , projeções de branqueamento e características que tornam determinadas espécies mais vulneráveis .
Recife de coral preservado na Papua-Nova Guiné, em área que ainda mostra resistência aos efeitos do aquecimento dos oceanos. — Foto: Tom Shlesinger
David Obura, um dos principais autores do estudo e copresidente do grupo de especialistas em corais da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) , afirma que os resultados representam um sinal claro de que as ameaças estão se intensificando.
“Esta avaliação fornece o panorama mais completo até hoje sobre o risco global de extinção entre os corais que formam recifes”, avalia.
Os próprios pesquisadores alertam, porém, que o quadro atual provavelmente é ainda pior.
Os dados usados na avaliação vão até 2020 e, portanto, não incorporam plenamente os três anos excepcionalmente quentes entre 2023 e 2025 nem o quarto evento global de branqueamento de corais.
O estudo não calcula qual seria hoje a nova porcentagem de espécies ameaçadas.
Atlântico e Brasil entre áreas mais vulneráveis
Ainda de acordo com o estudo, metade das espécies de coral avaliadas no Atlântico está ameaçada de extinção, proporção acima da registrada no Indo-Pacífico, de 43%.
No Atlântico Sudoeste, especialmente no Nordeste do Brasil, o risco é considerado particularmente alto.
A região reúne espécies com distribuição pequena e concentra o maior nível de endemismo do Atlântico, ou seja, abriga corais que não existem em nenhum outro lugar do planeta .
Essa característica faz com que uma perda local possa ter consequências maiores. Como há menos espécies desempenhando funções semelhantes, a perda de uma delas pode ter efeitos desproporcionais sobre a estrutura do ambiente e sobre outros organismos que dependem dele.
“Para uma espécie endêmica, uma extinção local é uma extinção global, porque não há outro lugar para ela persistir ou de onde possa recolonizar”, afirmou Francoise Cabada-Blanco, copresidente do grupo de especialistas em corais da IUCN e professora da Universidade de Portsmouth, em entrevista ao g1 .
Coral Galaxea fascicularis no Golfo de Aqaba, no Mar Vermelho. A espécie foi classificada como de menor preocupação na nova avaliação. — Foto: Tom Shlesinger
Ela ressalta ainda que os impactos recentes reforçam essa preocupação. Durante o quarto evento global de branqueamento, episódios severos de branqueamento e mortalidade foram registrados ao longo de uma extensa faixa da costa brasileira.
Entre os grupos mais pressionados estão os Acroporidae, corais ramificados que ajudam a formar a estrutura dos recifes.
No Indo-Pacífico, 68% das espécies avaliadas dessa família foram classificadas como ameaçadas.
No Atlântico, Acropora cervicornis e Acropora palmata sofreram quedas populacionais superiores a 80%.
Os pesquisadores chamam atenção também para um efeito menos visível da degradação. Um recife pode manter uma cobertura aparentemente estável mesmo depois de perder espécies mais sensíveis , caso elas sejam substituídas por outras mais resistentes.
Nesse processo, porém, há perda de diversidade e de complexidade estrutural .
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