Aquecimento global deve superar 1,5°C em poucos anos | G1
Novo relatório da ONU afirma que ultrapassar temporariamente o limite do Acordo de Paris já é provável. Quanto maior e mais longa for essa alta, maiores serão os riscos de danos irreversíveis ao clima, aos ecossistemas e às populações.
O aquecimento global está levando a Terra a um ponto crítico, principalmente no Ártico, onde os impactos das mudanças climáticas são ainda mais intensos. — Foto: Kathryn Hansen/NASA
O planeta deve ultrapassar o limite crítico de 1,5°C de aquecimento global nos próximos anos, e até o cenário mais otimista analisado por um novo relatório das Nações Unidas prevê que a temperatura média da Terra chegue a um pico de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais antes de começar a cair.
A conclusão é de um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) , que analisa o que o mundo ainda pode fazer diante da perspectiva cada vez mais provável de ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris .
🌡️ ENTENDA: O limite de 1,5°C é a meta internacional, estabelecida pelo Acordo de Paris em 2015, para conter o aquecimento global. Ele representa o aumento máximo seguro da temperatura média da Terra em relação aos níveis pré-industriais.
➡️ Segundo o documento, não há um cenário seguro acima de 1,5°C.
A cada fração adicional de grau e a cada ano em que a temperatura permanecer acima desse patamar, aumentam os riscos de eventos extremos mais intensos , perdas de ecossistemas e danos à saúde, à produção de alimentos, ao abastecimento de água, às cidades e às economias.
O relatório afirma que, diante dos anos de demora na redução das emissões, a estratégia mais viável agora é tentar fazer essa ultrapassagem ser a menor e mais curta possível .
Isso significa reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa, chegar às emissões líquidas zero e, depois, retirar da atmosfera mais dióxido de carbono do que é lançado, numa tentativa de fazer a temperatura global cair novamente para 1,5°C ou menos.
⚠️ Mas os próprios autores destacam que esse retorno não está garantido .
“O calor escaldante deste verão, os incêndios florestais e as enchentes fatais são um alerta do que está por vir. Precisamos fazer com que a ultrapassagem de 1,5°C seja a menor e mais curta possível. Isso exige uma ambição ainda maior”, afirmou António Guterres, secretário-geral da ONU.
O cenário mais otimista analisado pelo Pnuma prevê um pico de aproximadamente 1,8°C. Nos demais, o aquecimento ultrapassa os 2°C .
A diferença de alguns décimos de grau pode parecer pequena, mas tem consequências importantes para o sistema climático.
Segundo o relatório, a cada fração adicional de aquecimento aumenta o risco de mudanças que podem se tornar difíceis ou impossíveis de reverter em escalas de tempo humanas .
Entre elas estão a desestabilização de grandes mantos de gelo, mudanças na nossa Floresta Amazônica e alterações na Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc, no termo em inglês) , sistema de correntes oceânicas que ajuda a distribuir calor pelo planeta e tem papel importante na regulação do clima.
Essas mudanças são chamadas de pontos de não retorno , ou tipping points . Elas podem ocorrer de forma abrupta ou se desenvolver gradualmente ao longo de décadas.
📝 O documento também cita impactos mais diretos :
Sem medidas eficazes de adaptação, a produção global de alimentos pode cair até 14% até 2050.
Em cenários de aquecimento abaixo de 3°C , as geleiras podem perder mais de um quarto de sua massa até 2100, contribuindo com outros 9 a 13 centímetros para a elevação do nível do mar.
Cúpula do Teatro Amazonas aparece encoberta por tons de laranja em manhã de calor intenso em Manaus. — Foto: Alcides Neto
Segundo o Pnuma, a principal estratégia agora é fazer com que a ultrapassagem de 1,5°C seja a menor e mais curta possível.
Para isso, o mundo precisa reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa , chegar às emissões líquidas zero e, depois, retirar da atmosfera mais dióxido de carbono do que ainda é lançado.
Essa retirada pode ser feita por medidas naturais, como o reflorestamento , ou por tecnologias de captura de carbono .
O relatório, porém, ressalta que essas soluções não substituem os cortes nas emissões e têm capacidade limitada de reduzir o aquecimento. Mesmo nos cenários mais otimistas, a remoção de CO₂ deve diminuir a temperatura global em apenas alguns décimos de grau ao longo deste século.
Ao mesmo tempo, será necessário ampliar a adaptação às mudanças climáticas, já que parte dos impactos não poderá mais ser evitada.
Isso envolve preparar cidades e infraestruturas para eventos extremos, reforçar sistemas de saúde e adaptar a produção de alimentos, entre outras medidas.
Quanto maior e mais longa for a ultrapassagem de 1,5°C, mais difíceis e caras serão essas ações. Por isso, o relatório defende que redução de emissões e adaptação avancem juntas , com os países que mais contribuíram historicamente para o aquecimento assumindo uma parcela maior do esforço.
A pesquisadora Joana Portugal Pereira, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Lisboa, resume essa necessidade: " Romper esse ciclo exige ação antecipada e vontade política multilateral".
“O perigo que este relatório expõe não é apenas a ultrapassagem de 1,5°C, mas a armadilha de responder a ela crise após crise. A adaptação leva décadas para ser construída, por isso os planos precisam ser elaborados e colocados em prática agora, antes que os impactos aconteçam", acrescenta.
Segundo o Pnuma, a principal estratégia agora é fazer com que a ultrapassagem de 1,5°C seja a menor e mais curta possível. — Foto: EPA
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