Jornaleiros resistem às mudanças do mercado e mantêm bancas abertas | G1
No Dia do Jornaleiro, profissionais falam sobre o impacto das mudanças no consumo de informações e das adaptações necessárias para seguir com os negócios em Sorocaba (SP).
🗞️📰 Se, no passado, era necessário procurar um jornaleiro para comprar o jornal e saber das manchetes “fresquinhas”, hoje, não é mais preciso sequer sair de casa para ficar informado sobre aquilo que acontece na cidade e no mundo. A tecnologia e a internet trouxeram mudanças para o consumo de informações e isso impactou diretamente as bancas. Enquanto a maioria desapareceu, algumas resistiram às transformações do mercado e seguem abertas, com um público cativo.
Para marcar o Dia do Jornaleiro , celebrado em 30 de setembro, o g1 conversou com dois profissionais que continuam com bancas abertas em Sorocaba (SP). Mesmo admitindo as mudanças impostas pelo tempo, eles contaram não pensar em abandonar os negócios e até se preparam para o futuro.
A Banca da Sé, que está há 78 anos na praça Coronel Fernando Prestes, é administrada por Miguel Moreira Machado Júnior. Tudo começou com o pai dele, que instalou o negócio ali em julho de 1948, com uma estrutura modesta.
“Meu pai conheceu o distribuidor de revistas da época, que pediu para ele abrir um ponto de banca no centro de Sorocaba. Eu tinha 11 anos quando comecei a intercalar os estudos com o trabalho na banca. Ele me trouxe para ver se eu pegava gosto pela coisa, mas não queria interferir no meu livre arbítrio, sabia que era muito trabalhoso”, disse.
Só que Machado pegou gosto pelo negócio e foi ficando. Depois de terminar os estudos, optou por seguir na banca, onde trabalha há 56 anos e viu, ao longo dessas décadas, o mercado se transformar. “Antes do advento da internet, havia cerca de 450 bancas de rua em Sorocaba. Hoje, se tiver 10, é muito”.
Banca da Sé está aberta desde julho de 1948 na praça Coronel Fernando Prestes, em Sorocaba (SP) — Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução
O jornaleiro quase acertou esse número. De acordo com a Secretaria do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Semepp) da Prefeitura de Sorocaba, restam 15 bancas em atividade no município . E, para se manter em atividade, muitas tiveram que diversificar os produtos oferecidos.
“Virou uma loja de conveniência. Eu coloquei doces, recarga de celular, vendo chips, bebidas e isso sustenta. Não teria como ficar só com jornais e revistas. Nos áureos tempos, a banca vendia, em média, 300 jornais por dia. Aos domingos, vendíamos 600 exemplares, chegamos a ultrapassar mil. Hoje, caiu bastante. A internet alterou muitos segmentos e ficaram aqueles que se adequaram”.
Além das mudanças do mercado, o negócio também sofreu impactos da pandemia de covid-19. Depois de meses fechada por conta das restrições, a Banca da Sé deixou de abrir para o público aos domingos e feriados. “Após esse período, alteramos para segunda a sexta, das 8h às 17h, e aos sábados, das 8h às 14h. Antes, o movimento já tinha diminuído, mas a gente insistia”, contou Machado.
Jornaleiros Miguel Machado e Ivo Rocha mantêm bancas em Sorocaba (SP) com diversificação de produtos e público cativo — Foto: Erick Rodrigues/g1
Mais do que afetar o hábito de consumo de notícias, a tecnologia permitiu uma modernização de sistemas e processos. Mas não na Banca da Sé, que não aderiu à internet e nem mesmo ao computador. Há mais de 70 anos, todo o controle financeiro é feito à mão, no caderno.
“A banca não é informatizada. É assim desde o tempo do meu pai. Está tudo marcado aqui [no caderno]. Não desliga, não cai a internet, qualquer dúvida sobre os fornecedores está aqui. Esse aqui é o meu computador”.
Sem internet e computador: na Banca da Sé, em Sorocaba (SP), o controle financeiro é feito no bom e velho caderno até hoje — Foto: Erick Rodrigues/g1
A internet e, mais especificamente, as redes sociais foram incorporadas à rotina da Banca Progresso, que é administrada por Ivo Silvério da Rocha desde 1992. O jornaleiro mantém perfis do negócio no Instagram e no Facebook, além de utilizar o WhatsApp para comunicação com os clientes.
“Tenho umas revistas que, quando chegam, eu coloco no Instagram e acabo alcançando o público que gosta, que está procurando. Dá um retorno muito bom publicar lá dizendo que o produto chegou. Hoje, é difícil quem não tenha rede social e, como são poucas bancas, acaba impulsionando”, explicou.
Convivendo com os clientes há 34 anos, na região da Vila Progresso, Rocha também teve que investir na venda de outros produtos para seguir com o negócio. “Hoje, eu trabalho também com brinquedos, lupas corretivas, doces, pilhas e até cola. Também tem a prestação de serviços, com recarga de celular e de passe de ônibus”.
Além dos clientes habituais, o jornaleiro vê uma renovação de público, impulsionada por figurinhas e pela busca por opções fora das telas.
“A criançada compra figurinhas e, depois, me reconhece como o tio da banca e acabo conhecido por eles também. Vai formando o público. Os mais jovens também buscam quadrinhos e mangás, algumas escolas estão pedindo gibis para incentivar a leitura. E é muito legal perceber que já vendi figurinhas para três gerações, do avô ao neto”, pontuou Rocha.
Na Banca Progresso, em Sorocaba (SP), figurinhas e gibis garantem renovação de público para o negócio — Foto: Erick Rodrigues/g1
O jornaleiro da Banca da Sé ainda pretende seguir no comando do negócio por mais alguns anos, mas já é acompanhado pelo filho, que pode assumir a banca no futuro.
“Eu tenho clientes aqui de 60 anos, que são fiéis e voltam por serem bem tratados. E, também, os mais novos, que conquistamos. Meus pais batalharam juntos, é essa homenagem que eu deixo para os dois e é isso que eu tento passar para o meu filho. Respeito, trabalho e persistência acima de tudo. Comércio é assim”, destacou Machado.
Na Banca Progresso, a renovação de público e o auxílio das redes sociais tornaram Rocha mais otimista sobre a continuidade do negócio. “Eu não me vejo fora da banca, mesmo diminuindo o ritmo. Eu sou otimista, porque tem a criança que vem e pega a revista, não quer procurar na internet. Ela pega o papel e isso resgata um pouco. O trabalho de jornaleiro é muito gratificante, a nostalgia que traz”, finalizou.
Trabalhando como jornaleiro há 34 anos, Ivo Silvério da Rocha não se vê longe da banca e é otimista sobre o futuro do negócio — Foto: Erick Rodrigues/g1
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