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Sunday, September 6, 2026

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Antiga senzala em fazenda de Itapecerica vira memorial da escravidão | G1

Espaço no porão do Hotel Fazenda Palestina reúne informações sobre a presença e a resistência de pessoas escravizadas na região. Visita é aberta a hóspedes e pode ser agendada por moradores.

· 1,034 words

No porão de um antigo casarão colonial de Itapecerica , paredes de pedra, madeira e terra guardam uma parte dolorosa da história do Brasil. O espaço que um dia foi utilizado como senzala hoje abriga um memorial dedicado às pessoas negras escravizadas que viveram e trabalharam no local.

O espaço fica no Hotel Fazenda Palestina, propriedade histórica que remonta ao período colonial e está associada à exploração do ouro e, posteriormente, à atividade agropecuária. Hoje transformada em empreendimento de turismo rural, a fazenda preserva parte de sua estrutura antiga, inclusive o espaço onde pessoas escravizadas eram mantidas.

Esta é a quarta reportagem da série especial “Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias”, que o g1 apresenta todos os domingos. Em cada capítulo, mostramos diferentes aspectos da história, da cultura e das tradições que ajudam a contar sobre a identidade do município. Desta vez, o olhar se volta para um dos capítulos mais dolorosos dessa história: a escravidão e a memória das pessoas negras escravizadas, preservada neste antigo espaço que hoje abriga um memorial.

Casarão do Hotel Fazenda Palestina em Itapecerica, onde no porão havia uma senzala — Foto: Anna Lucia Silva/g1

A proposta do memorial é justamente impedir que essa parte da história seja apagada ou até mesmo romantizada.

Ao invés de contar apenas a história do casarão, dos antigos proprietários ou dos ciclos econômicos que passaram pela fazenda, o espaço coloca em evidência aqueles que foram submetidos à exploração e cujo trabalho foi fundamental para a economia daquele período.

A própria história apresentada no memorial afirma que a escravidão em Itapecerica esteve relacionada ao período colonial e à exploração do ouro. O material também registra a presença de pessoas escravizadas na construção de templos religiosos, o trabalho forçado na mineração e na agricultura e as formas de resistência, incluindo a fuga para quilombos.

Para a historiadora Erivelta Diniz, é importante fazer uma distinção: as antigas senzalas não são apenas uma construção histórica preservada. Elas representam um sistema que transformou seres humanos em propriedades, submeteu homens, mulheres e crianças à violência, ao trabalho compulsório, à separação de famílias e a diferentes formas de punição.

"A existência desse espaço dentro de uma fazenda histórica ajuda a compreender que a escravidão não foi uma realidade distante ou restrita a grandes centros mineradores. Ela esteve presente também no interior de Minas Gerais e participou diretamente da formação econômica e social de municípios como Itapecerica", destacou Ertivelta.

A historiadora também aponta que efeitos da escravidão também permanecem na cultura local. "Se observarmos com sensibilidade percebemos a ancestralidade, resistência e recriação no próprio Reinado de Itapecerica, em que os sofrimentos vividos durante o período escravista continuam presentes através da memória revivida nos cantos, rituais e manifestações culturais e religiosidade", disse.

Documentos ajudam a reconstruir essa história

A memória da escravidão em Itapecerica também está registrada em documentos históricos que se encontram dispersos por instituições arquivistas como cartórios, Fórum, igreja, atas do reinado, arquivos e especialmente no Arquivo Público Mineiro (APM). "Há ainda livros específicos de escrituras de compra e venda de escravizados referentes às décadas de 1870 e 1880", pontuou Erivelta.

"Documentos desse tipo são importantes justamente porque ajudam a dimensionar a violência institucionalizada daquele período", completou a historiadora.

O espaço que antes fazia parte da estrutura da fazenda ganhou uma nova função: preservar a memória.

Na parede da antiga senzala, um painel intitulado “Escravidão em Itapecerica” apresenta informações sobre o período e chama atenção para o sofrimento provocado pelo sistema escravista, o trabalho forçado na mineração e na agricultura, a resistência por meio dos quilombos e a importância das manifestações culturais negras na preservação dessa memória.

O texto também lembra que a escravidão brasileira chegou ao fim oficialmente em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea, depois de quase quatro séculos de existência do sistema escravista no país. Mas a abolição não apagou as marcas deixadas por esse período.

Por isso, entrar na antiga senzala é também entrar em contato com uma história que não pode ser reduzida à arquitetura bonita do casarão ou ao cenário de uma fazenda antiga.

É olhar para um lugar que testemunhou a exploração de pessoas negras e reconhecer que a riqueza produzida naquele período teve, entre suas bases, o trabalho compulsório de milhares de seres humanos.

Hotel Fazenda Palestina em Itapecerica — Foto: Anna Lúcia Silva/g1

A preservação da senzala transforma o espaço em uma espécie de documento físico da história. Mais do que explicar como era uma fazenda colonial, o memorial permite discutir quem trabalhava, em quais condições e quem se beneficiava daquela estrutura social.

A própria pesquisa acadêmica sobre a Fazenda Palestina ressalta a importância de enxergar construções históricas não apenas como monumentos, mas como vestígios capazes de revelar relações sociais e formas de trabalho de outras épocas.

E há uma conexão importante entre essa memória e a cultura que sobrevive até hoje em Itapecerica.

O Reinado, as irmandades, os batuques e outras manifestações de matriz africana não são apenas tradições folclóricas. Essas manifestações carregam memórias da escravidão, da resistência e da reconstrução de identidades negras ao longo das gerações.

Assim, o memorial da antiga senzala se soma a outros espaços e manifestações que ajudam a contar uma Itapecerica que vai muito além da arquitetura colonial e das festas tradicionais.

É uma oportunidade de lembrar quem sofreu, quem resistiu e quem ajudou a construir a história do município, mesmo quando seus nomes não ficaram registrados nos grandes relatos oficiais.

O Memorial dos Escravizados pode ser visitado pelos hóspedes do Hotel Fazenda Palestina durante a estadia.

Moradores de Itapecerica e demais visitantes que não estiverem hospedados também podem conhecer o espaço, mediante agendamento prévio com o hotel.

O empreendimento mantém ainda a chamada Trilha do Ouro, percurso que, segundo o próprio hotel, acompanha caminhos utilizados por pessoas escravizadas durante o período colonial e que hoje integra as atividades oferecidas aos visitantes.

A visita, portanto, pode ser entendida não como uma viagem nostálgica ao passado, mas como uma oportunidade de conhecer um dos capítulos mais violentos da formação do Brasil e refletir sobre as marcas que ele deixou e que ainda permanecem na sociedade brasileira.

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