Saúde mental dos homens: Dados alertam para casos no Setembro Amarelo | G1
Psicólogos avaliam que valores culturais potencializam o número de mortes por suicídio entre população do sexo masculino.
O olhar para os números sobre saúde mental no Brasil se direciona especialmente a uma parte da população: os homens. Eles figuram entre as principais vítimas do sofrimento psíquico que leva à morte.
De acordo com o Atlas da Violência, levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no estado de São Paulo, aproximadamente 78,8% dos casos de suicídio ocorrem com eles. Em Sorocaba (SP), a rede pública de saúde registrou mais de 13 mil atendimentos psicológicos de janeiro a agosto de 2026. Somado aos atendimentos psiquiátricos, esse número representa um aumento de 5% na rede municipal em comparação ao mesmo período no ano anterior.
Uma oportunidade de enfrentamento desta realidade está no ato de desmistificar a busca pelo tratamento profissional e conscientizar as pessoas sobre as ferramentas de cuidado e preservação da saúde mental. É por esta razão que campanhas como a do Setembro Amarelo ganham espaço em diferentes ambientes da sociedade.
Pesquisa indica que homens são as principais vítimas de suicídio — Foto: Freepik
Dandriê Crestani é psicólogo e atua diariamente com atendimento clínico a pessoas que procuram ajuda profissional. Ele explica que, para muitos homens, o primeiro passo de reconhecer os sintomas do mal-estar mental é a maior dificuldade.
O isolamento social, a mudança de humor e o silêncio diante destas aflições são fatores que potencializam o sofrimento de quem precisa, na verdade, de ajuda especializada.
“Quando a gente fala que 80% das vítimas são do sexo masculino, a gente tá obviamente diante de uma questão que também envolve a maneira como os homens são socialmente ensinados a lidar com o sofrimento. O fracasso, a perda, as vulnerabilidades... Isso é uma questão cultural e coletiva, porque ao longo da vida muitos homens aprendem que precisam ser fortes, independentes, provedores e capazes de resolver seus próprios problemas custe o que custar ”, comenta.
O psicólogo alerta: "A pessoa pode estar passando, por exemplo, por um problema financeiro muito grave, alguma perda considerável dentro da família ou um fracasso profissional. E aí, em vez de procurar ajuda, ela vai tentar suportar isso tudo sozinha. É assim que temos o começo e a morada de todo o sofrimento".
Dandriê Crestani atua como psicólogo clínico e organizacional há 13 anos — Foto: Dandriê Crestani / Arquivo pessoal
O resultado é a sequência de adoecimento psíquico. Alterações no sono, abuso de substâncias, comportamentos impulsivos e compulsivos, são mais alguns dos sintomas.
Rodrigo Pierobon, psicólogo e coordenador do curso de Psicologia na Faculdade Anhanguera, indica que enxerga uma mudança positiva neste comportamento da comunidade mais jovem.
“Nós estamos passando por uma transformação na sociedade, que ainda levará alguns bons anos, mas que isso tá sendo desmistificado. Isso se dá muito por dois pontos principais de transformação. Primeiro nós tivemos uma mudança muito grande na legislação, obrigando as empresas a tratarem do assunto de saúde mental dentro dos postos de trabalho. E também hoje, desde muito pequeno, as crianças já ouvem falar sobre a saúde mental, sobre a importância de falar sobre sentimentos”, pontua.
Jean Camargo, hoje com 22 anos, é exemplo desta mudança. O jovem conta que seu primeiro contato com terapia foi aos nove anos. "Na minha casa nunca foi tabu. Eu passei por acompanhamento em um período da infância e depois, mais velho, quis voltar por conta própria, justamente porque isso sempre foi valorizado".
Além do apoio dentro de casa, Jean também cita que em seus grupos de amigos, percebe uma facilidade em discutir saúde mental e reconhecer a escuta profissional.
"Na época da escola, de fato não era um assunto recorrente, mas em toda oportunidade que tinha, eu comentava da minha experiência. Já mais tarde, na faculdade, pelo menos três amigos também faziam terapia, e a gente conversava sobre", diz.
Jean Camargo buscou ajuda profissional em diferentes períodos da vida — Foto: Jean Camargo / Arquivo pessoal
Diferente de Jean, Sergio Pena, de 26 anos, vem de uma experiência que não foge a regra. Na sua casa, o exemplo foi um cenário mais comum da realidade brasileira: "O meu pai também não fala muito sobre as coisas que ele pensa ou sobre como ele se sente no geral. E eu sempre fui igual, mais quieto. Odiava falar como eu me sentia, mas eu tenho treinado muito isso. É o que eu estou trabalhando em terapia", relata.
Aos 18 anos, o jovem buscou romper com essa referência do silêncio. Com a dificuldade de verbalizar e o isolamento social, Sergio percebeu que o sofrimento estava afetando também a sua saúde física.
"Eu fui descobrir que desenvolvi uma gastrite nervosa. Tratei a ansiedade por uns quatro anos em terapia e, desde então eu sou, como bem dizer, outra pessoa, tipo de um jeito melhor. Pelo menos nunca mais fiquei sem comer ou sem dormir por conta disso", relembra.
Nessa atitude de buscar ajuda profissional e perceber os resultados, Sergio influenciou também o bem-estar de outras pessoas ao seu redor. "Eu fui meio que o precursor de fazer terapia na minha família. Hoje pelo menos minha mãe e minha irmã também fazem acompanhamento", conta.
Sergio procurou ajuda psicológica após perceber níveis de ansiedade fora do comum — Foto: Sérgio Pena / Arquivo pessoal
Apesar do fortalecimento de assuntos de saúde mental no público jovem, o professor Rodrigo faz questão de ressaltar que o adoecimento se apresenta também de forma "atualizada", diante dos contextos contemporâneos.
"O isolamento social é um sintoma, certo. E aí hoje temos os casos de quando a gente nota adolescentes e jovens envolvidos com jogos eletrônicos, que ficam muitas horas isoladas socialmente. A compulsão e o vício, um exemplo que temos visto muito também nos mais velhos, é a questão dos jogos de azar, o 'tigrinho', que também tem acometido uma grande parcela da população", diz.
Rodrigo Pierobon é mestre em psicologia organizacional e é coordenador do curso de graduação em psicologia da Faculdade Anhanguera, em Sorocaba — Foto: Rodrigo Pierobon / Arquivo pessoal
Ainda nesta análise da atualidade, Rodrigo complementa sobre outro cenário que atrai, principalmente, os homens. Uma vez que um sintoma do sofrimento patológico é o isolamento social, a oferta de acolhimento em grupos que naturalizam certos comportamentos da "cultura masculina" reforçam o adoecimento da população.
"Todo grupo ele é importante em determinado grau, porém quando você tá em um grupo que reforça essas características de autossuficiência, de que você não precisa pedir ajuda, de que o homem ele tem que dar conta de tudo, que ele tem que sofrer calado e que ele tem que superar — que é o que a comunidade Red Pill proporciona — Esse tipo de discurso ele não ajuda. Ele atrapalha, inclusive", finaliza.
💡O movimento Red Pill ganhou notoriedade na internet depois que homens começaram a abordar ideologias misóginas em seus discursos. A comunidade surgiu a partir de um conceito fictício do filme Matrix, de 1999, em que a pílula vermelha seria a escolha para "despertar" e ganhar "consciência" da realidade do mundo.
Em Sorocaba, é possível encontrar atendimento profissional gratuito na rede pública de saúde e também em clínicas-escola por valores acessíveis. Veja abaixo os endereços.
CAPS de Sorocaba (SP) — Foto: Prefeitura de Sorocaba/Divulgação
Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) com funcionamento gratuito e disponível 24h:
Endereço: Rua Giovani Boletta, 35 - Jardim Maria Eugênia
CAPS AD III – Roda Viva (Região Central)
Endereço: Rua Francisco Ferreira Leão, 203 - Vila Leão
CAPS III – Arte do Encontro (Regional Norte)
Endereço: Avenida Itavuvu, 1.083 – Jardim Maria Antônia Prado
CAPS III – Alegria de Viver (Regional Oeste)
Endereço: Rua Ricardo Marcos de Madureira Moreira, 61 – Jardim Refúgio
CAPS III – Viver em Liberdade (Regional Leste)
Endereço: Rua Guatemala, 185 – Barcelona
Clínica-Escola de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Sorocaba
Endereço: Av. Dr. Armando Pannunzio, 1478 - Sala 1 - Jardim Itangua
Horário de Atendimento: De segunda a sexta-feira, das 8h às 21h.
Centro de Psicologia Aplicada (CPA) - UNIP Sorocaba
Horário de Atendimento: De segunda a sexta-feira, das 8h às 22h
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