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França: como protesto levou 500 mil às ruas e mergulhou Paris no caos | G1

Mais de 2 mil manifestantes foram presos durante o fim de semana após confrontos com a polícia. Governo ordenou toque de recolher para conter ações em várias cidades.

· 1,094 words

Cerca de 500 mil pessoas tomaram as ruas da França durante protestos que chacoalharam o país ao longo do fim de semana. Os atos ganharam força após o início de um simples protesto estudantil, que evoluiu para reivindicações sociais mais amplas e desencadeou uma onda de manifestações pela Europa.

▶️ Contexto: O movimento começou em setembro, quando estudantes bloquearam o acesso a uma escola na região de Paris para exigir mais recursos para a instituição. Logo, alunos de outras escolas aderiram aos protestos, e as manifestações se espalharam pelo país.

Os estudantes passaram a reivindicar melhores condições nas salas de aula, mais professores e mais recursos financeiros.

Alunos afirmam que estudam em salas superlotadas e reclamam da falta de estrutura básica nos prédios. Além disso, algumas escolas sofrem com a falta de professores.

Os atos ocorreram em meio à alta rejeição ao governo do presidente Emmanuel Macron e à proposta de Orçamento para 2027, que prevê o congelamento do salário-base dos funcionários públicos.

Nas semanas seguintes, dezenas de escolas foram afetadas pelas manifestações. Professores e outros funcionários públicos também aderiram ao movimento.

Entre o fim de setembro e o início de outubro, a França começou a registrar protestos mais violentos. Duas escolas foram incendiadas, e carros e veículos públicos também foram destruídos. Em algumas cidades, houve confrontos com a polícia, e manifestantes foram presos.

Com o passar dos dias, os protestos ganharam força e incorporaram novas reivindicações. O que começou como uma mobilização estudantil se transformou em uma manifestação de insatisfação generalizada com o alto custo de vida, a queda na qualidade dos serviços públicos e o governo.

O cientista político Thomás Zicman de Barros , professor e pesquisador do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po Paris, vê os protestos atuais como uma retomada das mobilizações dos Coletes Amarelos, que tomaram as ruas da França a partir de 2018.

Segundo ele, no início de setembro, antes do início dos protestos estudantis, grupos ligados aos Coletes Amarelos já organizavam atos contra o aumento do custo de vida para o dia 17 de outubro.

“Há uma sensação de perda de poder de compra e esse pessoal falou: 'A gente precisa ir para a rua contra a vida cara'”, afirma.

🔎 A pauta, no entanto, não estava diretamente relacionada às reivindicações dos estudantes . Com o surgimento do movimento estudantil, os dois temas acabaram se encontrando e impulsionaram as manifestações.

Para Barros, a principal diferença das manifestações atuais em relação a movimentos anteriores na França está no aumento da violência nos confrontos com as forças de segurança. Ele também aponta uma particularidade na forma como os protestos se organizam e se espalham pelo país.

As manifestações não têm uma liderança centralizada, o que dificulta a atuação do governo.

Os atos se organizam de forma espontânea, sem depender dos sindicatos tradicionais, embora essas entidades também tenham aderido às mobilizações.

Com essa dinâmica, os manifestantes conseguem se deslocar de forma imprevisível pelas cidades e surpreender as forças de segurança.

“Essas manifestações não são inéditas. Nos Coletes Amarelos, já havia um pouco dessa dinâmica. Mas são difíceis de controlar porque não são organizadas por estruturas centralizadas. Elas têm uma dimensão espontânea, que aqui na França eles chamam de selvagem.”

Manifestante em frente a fogo em protesto em Paris, neste domingo (18) — Foto: Abdul Saboor/Reuters

Os protestos contra o governo francês deixaram um rastro de destruição em várias cidades do país no fim de semana. Paris e Marselha estão entre as mais afetadas.

Em Paris, lojas de luxo fecharam e reforçaram a segurança para se proteger dos protestos.

Mesmo assim, a porta de uma boutique da Dior foi quebrada, e vitrines de outras marcas, como Rolex, Louis Vuitton, Ralph Lauren e Gucci, também foram danificadas.

Em Marselha, o Olympique de Marseille informou que sua loja oficial, localizada em uma das principais avenidas da cidade, foi saqueada.

A filial de Bordeaux das Galerias Lafayette, complexo de compras e um dos principais pontos turísticos da França, foi saqueada.

Segundo a Federação do Comércio e Varejo, quase 3 mil lojas foram afetadas durante o fim de semana.

Para conter os atos de violência, a França mobilizou 60 mil policiais e outros agentes de segurança no sábado, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. No entanto, ele reconheceu que o efetivo não foi suficiente.

Apenas no sábado, cerca de 2.400 pessoas foram presas, e quase mil policiais ficaram feridos, segundo o Ministério do Interior. Um manifestante também morreu após sofrer uma parada cardíaca.

No sábado, cerca de 2.400 pessoas foram presas, e quase mil policiais ficaram feridos, segundo o Ministério do Interior. Um manifestante também morreu após sofrer uma parada cardíaca.

Já na segunda-feira (19), as autoridades impuseram toques de recolher em áreas de várias cidades, incluindo Paris, Lille e Nice, para tentar conter novos episódios de violência e saques.

Os atos também se espalharam por outros países. Manifestações foram registradas na Itália, Albânia e Portugal, por exemplo.

O presidente da França, Emmanuel Macron, em 18 de outubro de 2026 — Foto: Ludovic Marin/Reuters

Diante da crise, o presidente Emmanuel Macron fez um pronunciamento na TV no domingo (18). Ele afirmou que “nada justifica” a violência “desenfreada” e que é preciso separar as reivindicações legítimas dos atos de destruição.

Enquanto isso, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, tem responsabilizado a extrema esquerda pela violência nas manifestações. Segundo ele, há uma ala política que quer provocar “uma profunda agitação no país” para influenciar as eleições presidenciais de 2027.

🔎 Segundo a agência Reuters, serviços de inteligência franceses disseram ao governo que a onda de protestos foi iniciada pela extrema esquerda em uma operação orquestrada pelo partido França Insubmissa. A legenda nega as acusações e afirma que defende manifestações pacíficas.

Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa e possível candidato à Presidência, cobrou provas das acusações feitas publicamente pelo primeiro-ministro. “Caso contrário, ele deveria se desculpar, ficar em silêncio e parar de atiçar as chamas da agitação”, disse em entrevista.

Para o cientista político Thomás Zicman de Barros, o governo e a extrema direita podem se aproveitar dos episódios de violência para atacar a oposição e defender medidas mais duras de segurança, em meio à disputa política.

O pesquisador alerta, porém, que reduzir os protestos a um problema de ordem pública pode deixar em segundo plano as causas da mobilização. Ele destaca que, embora os atos de violência e os danos provocados sejam condenáveis, é preciso entender a demanda popular.

“Ao tratar das manifestações apenas como um caso de polícia, o governo não consegue entender o que está por trás disso, que é uma insatisfação”, afirma.

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Tuesday, October 20, 2026

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