Voepass: Passageira desmaiou com calor de 40°C em voo de 2023 | G1
Documentos obtidos com exclusividade pelo g1 integram ação na Justiça Federal e mostram que pilotos eram pressionados a omitir falhas técnicas para evitar retenção de avião. Empresa teve licença cassada pela Anac após queda com 62 mortos em Vinhedo (SP).
Documentos do processo na Justiça Federal sobre o desastre aéreo da Voepass obtidos pelo g1 revelam que, em setembro de 2023, uma passageira desmaiou e precisou ser socorrida no porão de carga de uma aeronave após o sistema de ar-condicionado falhar e a cabine atingir 40 °C durante um voo.
O caso consta de uma denúncia formalizada na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), anexada ao inquérito da Polícia Federal.
Segundo o documento, os pilotos eram pressionados pela direção da companhia aérea de Ribeirão Preto (SP) a omitir do livro de bordo e dos relatórios de manutenção essa e outras panes no turboélice de matrícula PP-PTQ para evitar a retenção do avião em solo.
Aeronave da Voepass, antiga Passaredo, que encerrou atividades após acidente e crise financeira. — Foto: Reprodução/EPTV
A comprovação de omissões técnicas fundamentou o indiciamento de 16 pessoas pela PF e levou a Justiça Federal a tornar réus 12 denunciados pelo Ministério Público Federal.
Após a queda do avião que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, a Voepass encerrou as atividades ao ter o certificado de operações cassado pela Anac e hoje está em processo de recuperação judicial, que não engloba a principal empresa do grupo.
Em nota, a Voepass informou que a companhia seguirá colaborando com o poder judiciário e com as demais autoridades, fornecendo documentos e informações ao longo do processo.
Além disso, comunicou que, em mais de três décadas de atuação, manteve a segurança operacional como princípio fundamental, com procedimentos de manutenção, operação e treinamento orientados pela regulamentação aeronáutica e diretrizes internas de segurança e conformidade.
"A Voepass reitera seu respeito às autoridades e sua solidariedade aos familiares das vítimas do voo 2283."
Avião da Voepass. — Foto: Reprodução/Jornal Nacional
De acordo com o termo de denúncia registrado na Anac, o incidente considerado grave ocorreu no turboélice ATR 72 de matrícula PP-PTQ durante um voo em 1º de setembro de 2023.
A aeronave decolou com o sistema de ar-condicionado e pressurização (PAC) inoperante. A origem e o destino do voo não foram informados na denúncia.
🔍 PAC : sigla em inglês para 'Pack', o sistema responsável pelo ar-condicionado e pela pressurização da cabine .
Ao longo dos anos, ex-piloto reuniu registros de irregularidades na Voepass — Foto: Arquivo pessoal
Com o calor de 40 °C no interior do avião, uma passageira passou mal e desmaiou. Sem condições de atendimento na cabine principal devido à alta temperatura, a tripulação precisou removê-la para o porão de bagagens, apontado no documento como o único compartimento da aeronave que apresentava temperatura adequada para que ela recuperasse a consciência.
Pressão para ocultar 14 panes e 'cultura de desvios'
O documento anexado aos autos reproduz relatos de tripulantes da Voepass, que afirmaram à fiscalização operar sob constante pressão corporativa.
A denúncia aponta que a aeronave voava com 14 não conformidades técnicas ativas. Além do ar-condicionado, o sistema de combate ao acúmulo de gelo (degelo) das asas e dos motores apresentava inoperância.
Para evitar que fiscais da Anac impedissem as decolagens por descumprimento de normas de segurança, a orientação interna, segundo a investigação, era não registrar os defeitos no livro de bordo nem na lista de ações corretivas retardadas (ACR).
Justiça torna réus 12 acusados de envolvimento na queda do avião da Voepass — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
🔍 ACR : sigla em inglês para a lista de ações corretivas retardadas, onde devem ser lançadas as não conformidades mantidas a bordo .
O Núcleo de Inteligência Policial da Polícia Federal utilizou o relato do episódio na aeronave PP-PTQ para confrontar depoimentos da diretoria da Voepass.
Enquanto executivos sustentavam que a orientação era reportar todas as falhas, a denúncia de 2023 reforçou indícios de que havia uma política de omissão para conter prejuízos financeiros .
Os investigadores concluíram que a empresa assumiu o risco de um desastre ao manter aviões voando sem equipamentos essenciais.
O conjunto de provas fundamentou a denúncia do MPF aceita pela Justiça Federal, tornando réus o proprietário da empresa, diretores de manutenção, de operações e técnicos.
Coletiva de imprensa da PF para anunciar o relatório final do acidente da Voepass — Foto: Gabriella Ramos/g1
O desastre aéreo e o fim das operações da Voepass
Em 9 de agosto de 2024, o voo 2283 da Voepass, que havia partido de Cascavel (PR) rumo ao Aeroporto de Guarulhos (SP), caiu em um condomínio residencial em Vinhedo (SP). Todas as 62 pessoas a bordo morreram.
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) confirmou a presença de uma "cultura de normalização de desvios" na empresa, destacando a rotina de decolagens com sistemas de degelo inoperantes.
Diante das irregularidades apuradas pelas autoridades, a Anac cassou o certificado de operador aéreo da Voepass, resultando no encerramento de suas atividades de voo.
Atualmente, a companhia aérea encontra-se em processo de recuperação judicial, ação que não abrange a principal empresa do grupo econômico.
Avião da Voepass na pista do Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto (SP) — Foto: Marcelo Moraes/EPTV
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