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Thursday, September 24, 2026

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Pó de brita no lugar de cassiterita: como fraude levou à ação da PF | G1

Operação Disco de Ouro II foi deflagrada após empresa suíça pagar cerca de US$ 48 milhões pela carga, receber pó de brita e denunciar o caso à Polícia Federal.

· 1,133 words

Uma carga de pó de brita enviada a uma empresa estrangeira no lugar de cassiterita , em 2023, fez com que a Polícia Federal descobrisse um esquema de milionário de lavagem de dinheiro com a venda de minério extraído ilegalmente da Terra Indígena Yanomami , em Roraima. A investigação tem como um dos alvos o cantor Alexandre Pires e dois irmãos empresários . Eles foram alvos da segunda fase da operação Disco de Ouro II , deflagrada nesta quarta-feira (23).

Segundo a investigação, Alexandre Pires e uma empresa dele, produtora musical, receberam R$ 31 milhões de empresas apontadas como parte da organização criminosa. O cantor e a empresa são suspeitos de terem sido usados para fracionar, ocultar e dissimular valores obtidos com a fraude.

Também foram alvos os irmãos Diego Possebon , apontado como principal articulador do esquema , e Matheus Possebon , que era empresário de Alexandre à época.

O cantor nega participação (leia a nota na íntegra abaixo) . A reportagem tenta contato com a defesa dos demais citados.

Entenda: A cassiterita, também conhecida como "ouro negro", é o principal minério utilizado na produção de estanho, metal empregado na fabricação de diversos produtos, como latas de alimentos, peças automotivas, vidros e equipamentos eletrônicos, incluindo celulares. Por ter alto valor de mercado e grande demanda da indústria, ela é frequentemente alvo de exploração ilegal.

Operação Disco de Ouro II mira esquema de lavagem de dinheiro com venda de cassiterira na Terra Yanomam, em Roraima — Foto: Arte g1

Empresa suíça comprou cassiterita e recebeu pó de brita

As investigações da PF começaram após uma empresa suíça de comércio de metais apresentar uma notícia-crime, um pedido de investigação. A empresa denunciou que o grupo, liderado por Diego Possebon, vendeu pó de brita como se fosse cassiterita e causou prejuízo estimado em US$ 48 milhões (cerca de R$ 247 milhões na cotação atual).

🔎 A brita , ao contrário da cassiterita, não é um minério. Trata-se de uma rocha, como o granito, que é usada na construção civil, e tem um valor bem abaixo que o do "ouro negro".

A empresa suíça contratou, em 2021, uma empresa norte-americana para intermediar a compra de cassiterita. Segundo a investigação, a suspeita é de que a intermediadora comercial já conhecia o mercado de mineração no Brasil e atuava no setor em parceria com Diego.

Por intermédio de Diego, a empresa norte-americana passou a adquirir cassiterita da mineradora Betser , de Christian Costa dos Santos , apontado como um dos líderes do grupo investigado.

A Betser tinha licença para extrair minério em Itaituba, no Pará. A PF identificou que a autorização era usada para dar aparência de legalidade ao minério extraído ilegalmente da Terra Yanomami , em Roraima.

Em fevereiro de 2022, a PF apreendeu mais de 100 toneladas de cassiterita na sede e no depósito de uma filial da Betser, em Rorama, durante uma operação.

Após a apreensão do minério, segundo a investigação, o grupo ficou sem a cassiterita necessária para cumprir o contrato com a empresa suíça. Por isso, enviou pó de brita no lugar do minério para receber o pagamento antecipado da carga.

Em abril de 2023, a empresa suíça enviou um representante ao Brasil para inspecionar a operação. Ele visitou os armazéns da empresa responsável por guardar os minérios em Manaus (AM), e acompanhou o carregamento dos contêineres que seriam enviados. Diego Possebon e Christian Costa também estavam no local .

Segundo a investigação, Diego e Christian simularam nos armazéns o empacotamento do minério. Para que os embarques ocorressem, eles emitiram laudos de inspeção e testes químicos falsificados que indicavam que a suposta cassiteria tinha até 75% de estanho.

Cassiterita, minério também conhecido como 'ouro negro'. — Foto: PRF/Divulgação/Arquivo

Com base na documentação falsa, a empresa suíça transferiu antecipadamente US$ 48 milhões para a intermediadora. Desse valor, segundo a investigação, US$ 20,4 milhões (R$ 105,41 milhões) foram repassados à Metalsur, empresa sediada em Canoas (RS) e pertencente a um amigo de Diego Possebon.

O dinheiro foi transferido por meio de um contrato de empréstimo considerado falso pela investigação.

Outros US$ 22,2 milhões (R$ 114 milhões) foram enviados à empresa Empire Strong International, nos Estados Unidos. Segundo a investigação, ela distribuiu parte do dinheiro para contas de pessoas físicas e jurídicas ligadas a Diego por meio de operações de dólar-cabo. A empresa é controlada por duas empresárias.

Foram as empresárias que, após a primeira fase da operação , em 2023, perceberam que tinham movimentado dinheiro para pessoas ligadas a um esquema de extração ilegal de minério e também denunciaram à PF. Na investigação, as duas são citadas como “colaboradoras premiadas”.

Os investigadores identificaram um grupo no WhatsApp chamado "GRUPO CONTA USD". Segundo a investigação, Diego enviava por ele comprovantes de depósitos em dólares nos EUA e determinava depósitos equivalentes em reais no Brasil para dezenas de contas bancárias de intermediários e laranjas. Entre essas contas estavam as da empresa de Alexandre Pires.

Em maio de 2023, um mês após a visita ao Brasil, a empresa suíça constatou que os contêineres recebidos estavam carregados de areia e formalizou a denúncia à Polícia Federal. Isso deu origem a segunda fase da operação Disco de Ouro deflagrada nesta quarta-feira.

PF faz buscas no RS contra empresários suspeitos de fraude na venda de minério — Foto: Ronaldo Bernardi/Agência RBS

A investigação é um desdobramento da primeira fase da Operação Disco de Ouro , de 2023, que apura crimes relacionados à comercialização e à exportação de minério. A operação também investiga o uso de documentos falsos para dar aparência de regularidade a determinadas transações.

A ação cumpriu 12 mandados de busca e apreensão e 17 ordens judiciais para o sequestro de bens e valores, expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal em Boa Vista . Não houve mandados de prisão.

Os investigados poderão responder, de acordo com a participação de cada um, por lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsidade ideológica, operação irregular de instituição financeira e outros crimes que sejam identificados durante as investigações.

"Na qualidade de advogado do cantor e compositor Alexandre Pires, eu, Dr. Luiz Flávio Borges D’Urso, venho a público, diante das notícias veiculadas pela mídia em geral, esclarecer que o cantor Alexandre Pires não tem e nunca teve qualquer envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena.

Destaco que o referido cantor e compositor é uma das mais importantes referências da música brasileira, sendo possuidor de uma longa e impecável carreira artística.

Alexandre Pires foi tomado de surpresa diante dos novos desdobramentos da operação da Polícia Federal que indevidamente envolveu seu nome.

Por fim, saliento que o cantor e compositor Alexandre Pires jamais cometeu qualquer ilícito, o que já está sendo devidamente demonstrado no curso das investigações, reiterando sua confiança na Justiça brasileira."

Leia outras notícias do estado no g1 Roraima .

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