Skip to content
Gigantum.net
Science & space

Por que Manaus está coberta de fumaça há semanas? Entenda o avanço dos incêndios no Amazonas | G1

Capital amazonense registrou episódios de fumaça desde o início de setembro, e o cenário se agravou em outubro. Incêndios alcançaram comunidades, destruíram áreas de floresta e levaram 36 municípios a entrar em situação de emergência.

· 1,672 words

Em pouco mais de um mês, Manaus teve 19 episódios de fumaça provocada por incêndios florestais. O problema, registrado pela primeira vez em 8 de setembro , se agravou em outubro, quando a capital passou nove dias consecutivos com fumaça no ar, aulas foram suspensas, atividades ao ar livre foram canceladas e centenas de pessoas procuraram atendimento médico por problemas relacionados à poluição .

A fumaça que encobriu a capital vem de incêndios registrados na Região Metropolitana de Manaus e em municípios do interior do Amazonas. O avanço das chamas é favorecido pela vegetação seca, pela baixa umidade e pelas altas temperaturas, em um cenário associado aos efeitos do fenômeno climático El Niño. A ação humana, responsável por iniciar grande parte dos incêndios, também contribui para agravar a situação.

O problema não se limita a Manaus. Entre 1º de setembro e 14 de outubro, o Amazonas registrou 5.365 focos de incêndio, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um aumento de 195% em relação ao mesmo período de 2025. Em 10 de outubro, o governo estadual decretou situação de emergência em 36 dos 62 municípios do estado , medida reconhecida pelo governo federal no mesmo dia.

Como a fumaça dos incêndios chega a Manaus?

Os incêndios florestais liberam grandes quantidades de fumaça, que contém partículas capazes de prejudicar a saúde. Transportadas pelas correntes de vento, essas partículas podem percorrer dezenas ou centenas de quilômetros e alcançar áreas distantes dos focos de fogo.

Mesmo quando as chamas estão concentradas em municípios do interior, a fumaça pode encobrir Manaus e outras cidades da região.

“Por isso, uma cidade pode ficar coberta de fumaça mesmo sem muitos focos por perto: ela recebe a fumaça emitida em outras áreas, somada à que é produzida localmente”, afirmou o meteorologista Leonardo Vergasta.

Imagem da NASA revela extensão da fumaça sobre Manaus e o AM no dia 9 de outubro em meio ao avanço de queimadas. — Foto: Reprodução/Nasa Worldwide View

A intensidade do problema foi registrada pela plataforma internacional IQAir. Entre 8 e 12 de outubro, Manaus ficou cinco dias consecutivos com a pior qualidade do ar entre as capitais brasileiras , com índices que variaram entre as categorias "insalubre" e "perigoso". No dia 9, a capital chegou a 366 pontos na escala US AQI+, classificação considerada perigosa.

🔎 Segundo a escala US AQI+, a qualidade do ar é considerada boa quando o nível de poluição atmosférica está entre 0 e 50 pontos.

A sequência de dias com fumaça também mudou a rotina dos moradores.

A promotora de vendas Milena Sampaio, que tem asma, passou a semana usando máscara e relatou dificuldades para trabalhar.

"Eu estou com muita falta de ar, muita dor no meu peito. Eu já tenho esse problema de asma, sinusite, rinite e parece que está piorando mais esses dias. Vai fazer uma semana que eu estou muito ruim"

O problema também afetou quem pratica atividades físicas. O estudante Ryan, por exemplo, deixou de jogar futebol e correr por causa da fumaça. "Jogo bola, faço caminhada, de vez em quando vou pra academia também, ai dei uma paradinha agora por conta da fumaça."

O aposentado Veridiana Padeira de Araújo também relatou ter passado mal durante a madrugada e disse não entender por que a situação piorava naquele período do dia.

"Duas, três vezes, de madrugada, quando ela (fumaça) ataca muito, não sei porque", afirmou.

Aposentado Veridiano Araújo reclamou da dificuldade para dormir por causa da fumaça em Manaus. — Foto: Rede Amazônica

Os efeitos chegaram aos serviços de saúde. Entre 1º de julho e 9 de outubro, 375 pessoas foram atendidas em Serviços de Pronto Atendimento (SPAs) de Manaus por problemas relacionados à fumaça, segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM). Desse total, 82 atendimentos ocorreram em apenas uma semana, entre 1º e 8 de outubro .

A rotina da cidade também foi afetada. Em 9 de outubro, a Prefeitura de Manaus suspendeu as aulas da rede municipal de ensino devido à piora da qualidade do ar. No dia seguinte, anunciou o cancelamento de atividades ao ar livre previstas para os dias 11 e 12 . Em 14 de outubro, novas suspensões atingiram programas esportivos e aulas de corrida e natação para adultos.

Depois de nove dias consecutivos de piora, a fumaça chegou a perder força na capital , mas na manhã de sexta-feira (16), voltou a se intensificar nas primeiras horas do dia.

Incêndios florestais avançam pelo Amazonas

O avanço do fogo no estado aparece nos números e nos relatos de quem vive perto das áreas atingidas. Além da fumaça que chega a Manaus, incêndios de grandes proporções destruíram vegetação, ameaçaram territórios indígenas e obrigaram famílias a deixar suas casas .

Um dos principais focos está na região do Rio Urubu, em Itacoatiara. Até 15 de outubro, o incêndio permanecia ativo havia mais de 40 dias . O monitoramento por satélite apontava mais de 3 mil hectares de área destruída, e as chamas já haviam atingido parte do território indígena do povo Mura.

Na Terra Indígena Paraná do Arauató, moradores relataram a morte de animais silvestres e problemas de saúde provocados pela fumaça . A cacica da Aldeia Paricá, Aldenora Maquinez Lima, que também atua como agente indígena de saúde, disse acompanhar os impactos sobre a floresta e a população.

"Dá pena de ver os bichos morrer. Preguiça, pássaros que vão fugindo do fogo e vão se acabando", relatou à Rede Amazônica.

Segundo ela, a fumaça provoca tosse seca e alergias, principalmente entre idosos e pessoas com problemas de saúde. A cacica também afirmou que o fogo se espalha com mais facilidade nas áreas próximas aos lagos, que ficam mais secos durante a estiagem.

Outro incêndio atingiu a região do Lago do Canaçari , também em Itacoatiara. O fogo queimou cerca de 1,3 mil hectares ao longo de aproximadamente 20 dias e foi considerado controlado em 9 de outubro. No dia 13, porém, novos focos de calor foram identificados na mesma região.

O pescador Antônio Miranda, que mora nas proximidades, acompanha diariamente o avanço das chamas para impedir que o fogo alcance a área onde o gado se alimenta.

"Todo dia eu estou indo, pra ver se não passa fogo pra cá, pro campo. Essa é minha luta", contou.

Na Região Metropolitana, outro incêndio atingiu uma área de floresta entre os quilômetros 3 e 4 da rodovia AM-070, em Cacau Pirêra , distrito de Iranduba. Entre 30 de setembro e 2 de outubro, as chamas destruíram cerca de 456 hectares.

Em Manaus, um incêndio em uma área de mata usada para descarte de lixo no Distrito Industrial II atingiu 15 mil metros quadrados, segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). O fogo contribuiu para a fumaça que encobriu a capital entre 6 e 8 de outubro. Segundo a corporação, foi o primeiro incêndio registrado na cidade a contar com apoio de aeronaves de combate ao fogo .

A proximidade das chamas com áreas residenciais também obrigou famílias a deixar suas casas. Em Careiro da Várzea, moradores precisaram sair de suas residências entre 10 e 11 de outubro, depois que um incêndio se aproximou de uma área habitada. Parte das famílias foi levada temporariamente para uma escola; outras ficaram na casa de vizinhos, segundo a Defesa Civil municipal.

Fumaça encobre cidades e queimadas deixam rastro de destruição no Amazonas

Seca, El Niño e ação humana agravam os incêndios

A quantidade de incêndios ocorre em um período de condições ambientais que favorecem a propagação do fogo. A vegetação mais seca, a baixa umidade do ar e do solo e as temperaturas elevadas facilitam o avanço das chamas. O fenômeno climático El Niño pode agravar esse cenário ao alterar os padrões de chuva e temperatura na região

Segundo a meteorologista Andrea Ramos, períodos prolongados de pouca chuva reduzem a umidade da vegetação e do solo. Com isso, o fogo se espalha com mais facilidade, e a fumaça pode permanecer por mais tempo na atmosfera.

O El Niño, no entanto, não provoca incêndios diretamente. O fenômeno aumenta as condições favoráveis à seca e ao calor, mas o fogo depende de uma fonte de ignição, que pode estar relacionada à ação humana.

A suspeita de incêndios provocados deliberadamente também passou a ser investigada por órgãos ambientais. Durante um sobrevoo em áreas atingidas, em 11 de outubro, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou ter identificado focos de fogo no interior de áreas de floresta preservada, distantes de áreas agropecuárias.

Em Itacoatiara, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou que 15 pessoas foram autuadas sob suspeita de provocar incêndios florestais. As multas aplicadas ultrapassam R$ 300 mil. Os casos foram encaminhados ao Ministério Público do Amazonas e à Polícia Civil.

Governos ampliam ações de combate ao fogo

Com o agravamento da crise, uma comitiva do governo federal chegou a Manaus em 10 de outubro para acompanhar a situação e reforçar o combate aos incêndios. A equipe reuniu representantes dos ministérios do Meio Ambiente e da Integração e do Desenvolvimento Regional, além de integrantes do Ibama e da Defesa Civil Nacional.

Na mesma data, 11 aeronaves foram mobilizadas para apoiar as operações: seis aviões Air Tractor, um cargueiro KC-390 da Força Aérea Brasileira, três helicópteros do Ibama e um avião Caravan. Também foram mobilizados 290 brigadistas federais.

As aeronaves passaram a atuar em diferentes regiões do estado . Os aviões partem da Base Aérea de Manaus para municípios como Autazes, Itacoatiara e Parintins. Os helicópteros são usados no transporte de brigadistas e equipamentos, enquanto o Caravan presta apoio logístico. Uma base de apoio às operações aéreas também está sendo estruturada em Itacoatiara.

O governo estadual, por sua vez, lançou em maio a operação Amazonas+Verde, que reúne ações de combate a incêndios, fiscalização de crimes ambientais e educação ambiental. Em setembro, publicou um decreto que proibiu o uso do fogo por 120 dias em todo o Amazonas e instituiu o Plano Estadual de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas.

Mapa mostra fumaça de queimadas no Amazonas — Foto: Infográfico/g1

Gathered from external sources. Rights to this text belong to whoever originally published it.

Saturday, October 17, 2026

© 2026 Gigantum.net. Content gathered automatically from external sources; rights to each text belong to whoever originally published it.