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Bolsa de sangue raro cruza o país na cabine de avião comercial para chegar a paciente transplantado | G1

Internado em Juiz de Fora (MG) após um transplante de rim, paciente tem anticorpo contra um marcador presente no sangue da maioria dos brasileiros, e só seis doadores cadastrados podem atendê-lo. A bolsa colhida no Ceará viajou com o piloto, nos primeiros casos de um novo acordo do Ministério da Saúde com as companhias aéreas.

· 1,139 words

Um paciente internado em Juiz de Fora (MG) precisava de um tipo de sangue que, no cadastro nacional, somente seis pessoas no Brasil podem oferecer . Uma delas mora no Ceará. Na quinta-feira (8), ela chegou cedo ao hemocentro do estado para doar, e a bolsa de sangue deixou o aeroporto às 18h dentro da cabine de um avião comercial, aos cuidados do piloto.

É um tipo de transporte que o Ministério da Saúde está formalizando com as companhias aéreas e que, até agora, só valia para órgãos. A chegada a Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, está prevista para as 5h desta sexta-feira (9). De lá, o sangue segue de carro até o hospital, onde será transfundido ainda pela manhã.

Quem espera a bolsa é um paciente que passou por transplante de rim , está estável e precisa de sangue porque a hemoglobina está baixa. O problema apareceu quando a equipe médica testou o sangue dele para a transfusão e encontrou um anticorpo que reagia contra as células vermelhas, as hemácias, usadas nos exames.

Novos testes mostraram a causa: o organismo do paciente produz anticorpos contra o Jsb , um marcador presente na superfície dessas células. Quase todo mundo tem o Jsb, e quem não tem não pode receber sangue que o carregue.

Um tipo sanguíneo que vai além de A, B, AB e O

A maioria das pessoas conhece o tipo sanguíneo pela carteirinha: A, B, AB ou O, positivo ou negativo. Mas esse é só o começo. A superfície das células vermelhas do sangue, as hemácias, tem centenas de outras “etiquetas” que o laboratório não costuma checar. É o que explica a hematologista Fernanda de Oliveira Santos, integrante da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular e da Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia.

Uma dessas etiquetas se chama Jsb, e quase todo mundo a tem. O paciente de Juiz de Fora não tem, e seu organismo produz anticorpos que reagem contra ela. Por isso, as defesas dele atacam o sangue de quase todos os doadores, e ele só pode receber o de quem também não tem a etiqueta, o que é muito raro . Além disso, o sangue precisa ser do tipo O, o mesmo dele.

A incompatibilidade só aparece porque os hospitais fazem um teste de segurança em todas as transfusões. Antes de liberar qualquer bolsa, o laboratório mistura uma gota do sangue do paciente com uma amostra do sangue do doador. Se as células se juntam em grumos, o que os médicos chamam de aglutinação , a bolsa não serve. Foi o que aconteceu com ele.

O teste existe para impedir que o organismo destrua o sangue recebido , um processo que provoca inflamação e que, segundo a hematologista, pode ser grave mesmo quando demora a aparecer.

Quando um hospital não encontra sangue compatível, a busca começa em bancos de sangue parceiros e, se nenhum tiver a bolsa, chega ao cadastro nacional de doadores raros , que reúne 2.032 pessoas.

Como poucos laboratórios conseguem identificar esse tipo de anticorpo, as amostras costumam seguir para serviços mais complexos, que confirmam a raridade.

Os nomes entram na lista a partir de doações comuns: quando o laboratório percebe que o sangue de alguém é incomum –o chamado ‘sangue raro’--, convida a pessoa a se cadastrar.

No caso do paciente de Juiz de Fora, o pedido chegou ao Ministério da Saúde entre 16h e 17h de quarta-feira (7), e o cadastro indicou seis doadores no país inteiro.

O doador do Ceará foi avisado às 22h e confirmou que poderia ir . Não foi a distância que decidiu, e sim estar apto naquele dia: quem doou há pouco tempo precisa esperar, 60 dias no caso dos homens e 90 no das mulheres. Quem entra no cadastro sabe que o telefone pode tocar e é orientado a não doar com frequência, para continuar disponível quando alguém precisar.

O Hemocentro do Ceará, que tem mais doadores raros cadastrados do que qualquer outro serviço do país, repetiu os testes para confirmar que o sangue era mesmo igual ao que o paciente precisava e acelerou os exames que descartam doenças como HIV e hepatites B e C, que normalmente levam cerca de dois dias. A identidade do doador é mantida em sigilo.

Acordo pode oficializar inclusão de sangue raro

A bolsa de 450 mililitros seguiu em uma caixa térmica preparada para manter a temperatura de geladeira por até 24 horas , com material de resfriamento calculado para a duração da viagem. Ela viajou na cabine do piloto . A companhia aérea escolheu o voo mais rápido e autorizou o transporte, com documentação encaminhada pelo Sistema Nacional de Transplantes.

A mudança vem de um novo arranjo, negociado neste ano, entre o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as companhias aéreas. O acordo de cooperação técnica que já previa o transporte de rim, fígado, coração e pulmão na cabine está sendo reformulado para incluir também as bolsas de sangue raro.

Segundo a coordenadora-geral de sangue e hemoderivados do ministério, Luciana Maria de Barros Carlos, a política do sangue passa a seguir o modelo que já funciona nos transplantes , e o caso de Juiz de Fora está entre os primeiros em que ela é aplicada.

Em entrevista ao g1 , ela afirma que as empresas já fazem o transporte, mesmo antes da assinatura do novo termo, sem cobrar do hospital nem do hemocentro.

Uma bolsa pode não bastar. Outros dois doadores do cadastro foram acionados para o caso de novas transfusões nesse paciente, e a equipe do ministério o acompanha junto com o hemocentro e o hospital até que ele saia da situação crítica, para não convocar ninguém à toa nem tarde demais.

Segundo Luciana, sem esse preparo prévio, encontrar o doador certo a tempo seria como procurar uma agulha em um palheiro.

O ministério trabalha agora em duas frentes para encurtar esse caminho . Uma é o congelamento de bolsas de sangue raro . Hoje, cada pedido exige localizar um doador, esperar que ele possa ir ao hemocentro e colher a bolsa. Com as bolsas congeladas, será possível guardá-las para quando surgir um paciente.

A Pasta já negocia com a vigilância sanitária as soluções necessárias para o procedimento, e a expectativa é que as primeiras bolsas possam ser congeladas a partir de janeiro, o que, segundo Luciana, deve dar mais agilidade à resposta.

A outra frente é a entrada do Brasil na rede mundial de sangue raro , prevista para este mês. Com a adesão, o Brasil poderá pedir ajuda a outros países e também ser acionado por eles.

A mudança vale sobretudo para pacientes com um tipo de sangue comum em outra região do mundo, mas muito raro aqui, para os quais não existe doador no país e a bolsa teria de vir de fora.

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Friday, October 9, 2026

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