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Quem inventou o nome 'inteligência artificial' e por que Trump quer mudá-lo | G1

Expressão foi criada em 1955 por pesquisadores que buscavam desenvolver máquinas capazes de raciocinar. Agora, presidente dos EUA quer substituí-la por 'superinteligência', mas especialistas questionam a proposta.

· 1,242 words

Você já parou para pensar por que a inteligência artificial (IA) tem esse nome? E quem foi que decidiu chamar essa tecnologia assim?

A expressão surgiu em 1955, nos Estados Unidos, a partir do trabalho de pesquisadores que buscavam entender como criar máquinas capazes de demonstrar alguma forma de raciocínio e inteligência semelhante à dos seres humanos .

Entre os nomes envolvidos nessa história estão John McCarthy (matemático), Marvin Minsky (matemático e cientista da computação), Claude Shannon (matemático e engenheiro eletrônico) e Nathaniel Rochester (cientista da computação).

Eles trabalhavam em diferentes áreas, como engenharia, matemática e estatística, explicou ao g1 Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em IA.

"Eles precisavam de uma nomenclatura para pesquisas que misturavam matemática, engenharia e estatística para criar máquinas capazes de exibir raciocínio, algo que não se enquadrava no software tradicional da época", disse Zanchettin.

No entanto, sete décadas depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quer mudar esse nome . A sugestão dele é que a tecnologia passe a ser chamada de "superinteligência" (SI) . Segundo Trump, o termo atual faz parecer que a tecnologia "seja falsa". (Entenda mais abaixo).

De onde veio o nome inteligência artificial?

Da esquerda para a direita, Oliver Selfridge, Nathaniel Rochester, Ray Solomonoff, Marvin Minsky, Peter Milner, John McCarthy, Claude Shannon — Foto: Nathanial Rochester/Cortesia da Família Minsky via Computer History Museum

Embora a expressão tenha surgido em 1955, as pesquisas sobre máquinas capazes de pensar começaram antes disso. Entre as décadas de 1940 e 1950, o matemático e cientista da computação Alan Turing já estudava essa possibilidade , explicou o professor e pesquisador de IA Allan Pscheidt.

"Seria possível programar uma máquina para responder perguntas de forma que seja extremamente difícil adivinhar se as respostas estão sendo dadas por um homem ou pela máquina", disse Turing na época.

Em 1948, o matemático Norbert Wiener criou o termo "cibernética" para estudar sistemas capazes de usar informações sobre suas próprias ações para ajustar seu funcionamento.

Um caderno manuscrito de 56 páginas que pertenceu ao pioneiro da computação Alan Turing é leiloado em Nova York — Foto: REUTERS/Bobby Yip

Segundo Pscheidt, foi nesse contexto que John McCarthy criou a expressão "inteligência artificial", em 1955 . A escolha também buscava diferenciar esse campo de pesquisa da cibernética, com foco no raciocínio e na autonomia das máquinas.

"Pesquisadores se reuniram no Dartmouth College, nos EUA, para discutir como criar máquinas capazes de pensar. O objetivo era fazer com que os computadores realizassem tarefas que exigem inteligência humana", explicou o Museu da História do Computador, localizado na Califórnia (EUA).

"Eles concordaram em chamar essa área de 'inteligência artificial', mas não chegaram a um consenso sobre como desenvolver a tecnologia na prática", completou.

Segundo o Museu da História do Computador, os pesquisadores tinham ideias diferentes sobre como desenvolver a IA. Alguns defendiam sistemas capazes de reagir ao ambiente, como um termostato que ajusta a temperatura automaticamente. Outros apostavam no uso de estatísticas e probabilidades para fazer as máquinas aprenderem.

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala com membros da imprensa ao sair da Casa Branca rumo ao Kansas, em Washington, DC, EUA, em 19 de outubro de 2026 — Foto: REUTERS/Kevin Lamarque

Inteligência artificial é o atual hiperfoco de Donald Trump. O presidente norte-americano tem insistido que quer substituir o nome da tecnologia por "superinteligência".

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU , em setembro, Trump afirmou que "o nome inteligência artificial faz soar como se ela fosse falsa". Disse ainda que "de agora em diante, todos os documentos dos EUA e, espero, de todo o mundo, vão utilizar o nome Superinteligência".

Antes de decidir por esse nome, Trump chegou a abrir uma enquete em sua rede social , a Truth Social, com as opções "Inteligência Superior (IS)" , "Inteligência Extrema (IE)" e "Inteligência Suprema (IS)" , traduzidas para o português.

Dois dias depois, fez uma nova enquete , desta vez com "Superinteligência" e "Inteligência Superior". Em nenhuma das postagens, explicou como a alteração seria feita ou se o mercado de tecnologia concordava com a mudança.

E tem mais: Trump também causou polêmica ao afirmar que passaria a tratar como "inimigo" quem usasse o termo "inteligência artificial" em vez de "superinteligência".

Para os especialistas ouvidos pelo g1 , mudar o nome da inteligência artificial não é tão simples quanto parece.

Segundo Anderson Soares, considerado o brasileiro mais influente em IA , o próprio conceito de inteligência ainda não tem uma definição precisa, tanto nas ciências biológicas e naturais quanto no campo da tecnologia.

"O que chamamos hoje de inteligência artificial está relacionado à capacidade das máquinas de realizar tarefas que associamos à inteligência humana", afirma Soares, que também é fundador e professor do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Para ele, a tentativa de Trump parece ter mais relação com interesses políticos do que com o desenvolvimento da tecnologia.

Donald Trump e Mark Zuckerberg sorriem durante um jantar privado para líderes de tecnologia — Foto: REUTERS/Brian Snyder

"O objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe na questão de paralisar o desenvolvimento da IA . Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo e que contribua para o que está acontecendo em termos de desenvolvimento", disse.

Cleber Zanchettin, da UFPE, também questiona a proposta e chama a atenção para um trecho do discurso de Trump na ONU.

"Primeiro, ele disse 'bem-vindos ao novo mundo da superinteligência' e completou com 'vamos ver se isso vai dar certo'. Isso revela uma jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático", afirmou.

Já para Allan Pscheidt, a proposta não parece ser uma mudança na definição científica ou técnica da tecnologia, mas uma demonstração de poder e soberania dos Estados Unidos no cenário internacional de IA.

"A gente está vivendo algo parecido com o que aconteceu na corrida para a Lua e na corrida espacial. Estamos passando agora para a corrida pela AGI (Inteligência Artificial Geral)", disse.

"Quando Trump vem com a ideia de cunhar o termo 'superinteligência', ele está avisando ao mundo que os EUA vão atingir a AGI muito em breve e que, com isso, vão mostrar sua soberania tecnológica", completou.

🔎 AGI (sigla em inglês para "Inteligência Artificial Geral") é o termo usado para descrever uma IA capaz de realizar uma ampla variedade de tarefas intelectuais em nível semelhante ou superior ao dos humanos. Allan ressalta que, até o momento, não há comprovação científica de que já exista uma superinteligência.

'Superinteligência' pode aumentar o medo da tecnologia

Além das dificuldades para mudar um nome já consolidado, especialistas alertam que a proposta de Trump pode ter outro efeito: aumentar a rejeição das pessoas à inteligência artificial.

Cleber Zanchettin explica que grande parte da população ainda tem pouco conhecimento sobre a tecnologia e que produtos identificados como IA já enfrentam certa resistência no mercado.

"Introduzir um termo como 'superinteligência' ou 'inteligência suprema' pode soar como uma ameaça aos humanos e aumentar a rejeição do público", disse. "Poucos países e populações abraçaram a tecnologia de fato, e a maioria das pessoas ainda está tentando entender o que é a IA básica e como ela funciona", completou.

Nos Estados Unidos, a percepção é semelhante: cerca de nove em cada dez americanos dizem estar mais preocupados do que animados com a possibilidade de a IA um dia superar a inteligência humana, segundo uma pesquisa da CNN norte-americana divulgada em setembro.

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Thursday, October 22, 2026

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