Mãe relata decisão de doar órgãos do filho após morte por AVC | G1
Neste domingo (27), é celebrado o Dia Nacional da Doação de Órgãos. Atualmente, quem deseja ser doador pode registrar essa vontade por meio de um formulário eletrônico.
“Tem coisa que a gente doa em vida. Ele doou a vida dele, porque ele foi tudo. Ele foi muito mais do que a gente imagina.”
O relato é de Eliana Aparecida Ferreira de Oliveira, de 55 anos, moradora de Capão Bonito (SP), e mãe de João Victor Ferreira de Oliveira, de 20 anos, que morreu em outubro de 2023.
Neste domingo (27), Dia Nacional da Doação de Órgãos , o g1 traz o relato de Eliana, que autorizou a doação dos órgãos do filho caçula e compartilha o momento em que precisou tomar essa decisão.
Eliana relembra que a data em que o filho passou mal, três dias antes de morrer, começou como um dia comum.
"Ele foi trabalhar, nós almoçamos, e depois ele voltou a trabalhar. Quando foi às 15h, foram me avisar que ele tinha passado mal. A princípio eles falaram que ele tinha sentido uma dor de cabeça e tinha convulsionado. Deu um AVC hemorrágico nele”, conta.
Eliana era mãe de João, que morreu aos 20 anos em outubro de 2023. Ela autorizou a doção dos órgãos do jovem. — Foto: Eliana Aparecida Ferreira de Oliveira/Arquivo pessoal
João foi levado inicialmente à Santa Casa de Capão Bonito, mas, devido à gravidade do estado de saúde, precisou ser transferido para a Santa Casa de Itapeva . Ele permaneceu internado por três dias, até que os médicos constataram a morte.
“Ele não respondia a estímulo nenhum. Deus colocou ele 'para dormir' e cuidou de nós. Era 21h30 que foi dado o óbito. Na hora, é automático, nós recebemos a notícia e uma outra equipe aborda para a gente doar”, disse.
João morreu depois de sofrer um AVC hemorrágico, aos 20 anos — Foto: Eliana Aparecida Ferreira de Oliveira/Arquivo pessoal
Durante a abordagem da equipe médica responsável pela captação dos órgãos, Eliana contou que o marido ficou irritado com a movimentação. Antes de autorizar a doação, ela conversou com ele e com outros familiares, pois já tinha consciência da importância do gesto.
“Eu falei para o meu marido: ‘nós não vamos poder levar ele para a casa. Se fosse ele que estivesse precisando de um órgão, o outro poderia morrer para salvar ele?’. Eu precisei ter força para fazer com que os outros também aceitassem. Ali, não é sobre nós, porque estamos tomados pela dor da perda. Então, temos que dar o sim para fazer a missão daquela pessoa acontecer."
Ao tomar a decisão, Eliana também se apegou à ideia de que a vida do filho poderia continuar de alguma forma. Segundo ela, mesmo diante do desespero provocado pela morte de João, foi preciso encontrar forças para autorizar a captação dos órgãos.
Antes de tomar a decisão de doar os órgãos do filho, Eliana buscou conversar com a família sobre a ação — Foto: Eliana Aparecida Ferreira de Oliveira/Arquivo pessoal
Eliana conta que o filho era preocupado com a saúde, praticava esportes e mantinha uma rotina de cuidados físicos. Segundo ela, essas condições contribuíram para que os órgãos e tecidos dele pudessem ser captados para doação.
“Enquanto temos as pessoas aqui, pensamos que amamos. Mas, depois que eles se vão, a gente passa a amar ainda mais. A gente não tem nem medo mais”, desabafa a mulher.
João nunca havia conversado com a família sobre a possibilidade de ser doador. No entanto, durante a internação, enquanto ele estava inconsciente, a doação de órgãos passou a ser um dos assuntos discutidos entre os familiares.
“Hoje, eu vejo a morte com outros olhos. Ela é difícil de ser enfrentada. Eu sinto o João próximo o tempo inteiro. Deus colocou a mão ali para dar o sim naquele momento, mas não foi fácil”, comentou.
No momento da captação, Eliana recebeu a informação de que um dos órgãos do filho seria destinado a um paciente de Marília (SP). Ela, no entanto, nunca teve contato com as pessoas que receberam os transplantes e afirma que não tem o desejo de saber.
“Você dá e não é para ficar buscando aquele que vai receber. É só mesmo para que as pessoas tenham a sua vida de volta através disso. Eu não vou atrás de procurar saber quem foi que recebeu”, diz Eliana.
João foi atendido em Capão Bonito e morreu três dias depois na Santa Casa de Itapeva — Foto: Eliana Aparecida Ferreira de Oliveira/Arquivo pessoal
Desde a perda do filho e do processo de doação, Eliana passou a compartilhar a experiência com outras pessoas e a reforçar a importância da doação de órgãos.
“É um misto de felicidade com tristeza e dor junto, que não tem como explicar. Que elas saibam o quanto é bom doar. Ele foi capaz de ajudar tantas pessoas. A missão era dele”.
Para ela, falar sobre o tema também é uma forma de fazer com que outras famílias conheçam a importância da decisão.
“Eu torço muito para que toque as pessoas. Porque doar é muito difícil, mas também é muito bom. Quanto mais pessoas forem doadoras, muitas outras pessoas serão salvas. Ali, no momento da morte, não é só sobre a gente, é sobre o outro”, reforçou.
A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (SES) reforça que quem deseja ser doador de órgãos deve comunicar essa vontade aos familiares, pois, após a morte, cabe a eles autorizar a doação.
Atualmente, há também a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO), que realiza o cadastro positivo para a doação de órgãos. Veja como funciona:
Cadastro: o interessado preenche um formulário gratuito na internet, no site oficial da plataforma;
Confirmação: o cartório agenda uma videoconferência rápida para validar a identidade do usuário;
Assinatura digital: o documento é assinado eletronicamente e fica disponível em uma central que os hospitais credenciados consultam em caso de morte.
Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). — Foto: Reprodução
Em vida, uma pessoa pode doar um dos rins, um dos pulmões, parte do fígado ou a medula óssea. A doação só pode ser realizada quando o procedimento não oferece riscos à saúde do doador e após avaliação médica.
A doação pode ser feita para familiares de até quarto grau e cônjuges. Para pessoas sem parentesco, é necessária autorização judicial.
Ainda segundo a SES, entre janeiro e agosto deste ano, foram realizados mais de 6 mil transplantes de órgãos e tecidos no estado de São Paulo. Em agosto, os procedimentos mais realizados foram os transplantes de córnea, rim e fígado.
Em Itapetininga , segundo a prefeitura, os hospitais não realizam cirurgias de transplante. Na cidade, a captação de órgãos é feita por unidades como o Hospital Doutor Léo Orsi Bernardes (HLOB) e o Hospital da Unimed Sul Paulista.
Quem deseja ser doador de órgãos deve comunicar essa vontade aos familiares, pois, após a morte, cabe a eles autorizar a doação — Foto: Divulgação/TV TEM
Já em Tatuí , a Santa Casa realizou uma captação de órgãos nos últimos seis meses, em 7 de agosto. Segundo a prefeitura, foram doados fígado, rins e córneas.
Na cidade, a Santa Casa de Misericórdia também é responsável pela identificação de potenciais doadores, pelo diagnóstico e acompanhamento do protocolo de morte encefálica e pela captação de órgãos e tecidos.
Hospital Santa Casa de Tatuí (SP) — Foto: Reprodução/Prefeitura
*Colaborou sob a supervisão de Larissa Pandori
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