Marca de Juiz de Fora une reciclagem, esporte e arte urbana em desfile | G1
Coleção SÓRDIDA, da marca Rataverso, será lançada neste domingo (20), com desfile e apresentações de DJs.
Peças aproximam esportes radicais, moda e sustentabilidade — Foto: Arquivo Pessoal/Clara Downey
Neste domingo (20), entre 14h e 18h, o Café Estação Urbana, em Juiz de Fora , recebe o lançamento da SÓRDIDA. O projeto é a primeira coleção cápsula da marca juiz-forana Rataverso e conta com um desfile que ocupa a Praça da Estação enquanto espaço simbólico de encontro e memória.
A colaboração entre a estilista Ana Luiza Monteiro e a artista Clara Downey cruza moda, upcycling (transformação de itens que seriam descartados em novos produtos), esporte e arte urbana .
Influenciada pela avó costureira, Ana Luiza é formada em moda e estilista da Rataverso. Ela conta que, assim como Downey, sempre gostou de comprar em brechós e de roupas recicladas.
O projeto foi contemplado por um edital de fomento à primeira coleção e primeiro desfile de marcas mineiras , vinculado à Política Nacional Aldir Blanc em Minas Gerais (PNAB/MG). O objetivo é consolidar uma moda para atletas urbanos que una tecidos resistentes e estilo .
Clara é atleta de patinação street, artista e proprietária da marca Miss Ratazana e já lançou algumas peças de forma independente. O encontro com a Ana Luiza para construir a partir do upcycling é uma ideia antiga, que surgiu na faculdade.
“A gente entra justamente nesse nicho de criar roupas que mostrem a identidade desses atletas, mas que também sejam funcionais para eles”, propõe a skatista.
Monteiro ressalta que a marca une referências underground, upcycling e o punk: “é um jeito de você usar roupas que são fashion e que você sabe que não é só uma vibe esportiva, neutra e ergonômica, mas que ela também é possível de ser usada para prática dos esportes e em todos esses espaços urbanos e que tem essa cara do streetwear”.
“Tudo foi feito numa máquina doméstica dentro de um quarto, sabe? A gente realmente trabalhou incansavelmente para fazer isso acontecer, então seria muito legal ter a presença de uma galera lá que tem interesse nesse nicho, que quer conhecer”, convida Ana Luiza.
Além do lançamento da coleção e do desfile, a programação do evento tem apresentações dos DJs Amanda Fie, Crraudio e Júlio e a presença da própria Miss Ratazana . Outras informações podem ser acessadas pelo instagram @rataverso .
O espaço escolhido para o lançamento das peças não é por acaso, reflete a identidade do projeto. Clara conta que apesar de terem cogitado fazer o desfile em uma pista de skate, a Praça da Estação é um lugar que reúne tradição e modernidade :
“A gente escolheu a Praça da Estação justamente para esse contraponto entre arte contemporânea e o patrimônio, que é também um pouco a ideia do upcycling: ressignificar uma peça de roupa que ainda tem muita vida útil para algo novo. E eu acho que ocupar a cidade é um pouco isso, a gente ressignifica vários espaços”, defende a patinadora.
Clara acredita que o vestuário também é uma forma de expressão que contribui para a identidade de um atleta .
“O vestuário se relaciona com a performance do skateboard, da patinação, do breaking, do parkour, da corrida, da bike, tudo através da funcionalidade e da possibilidade de mostrar a identidade. São esportes que se misturam muito com a arte, então eu acho que agrega muito na prática”, compartilha Clara.
Look: Rataverso / Mascara: Laura Sindorf / Tecnologia vestivel: Vinny Bastos — Foto: Arquivo Pessoal/Clara Downey
Estilo e aventura também são privilégios de gênero
Downey afirma que a moda reflete construções históricas e sociais, e não é pensada para atender as necessidades das mulheres que praticam esportes . Monteiro compartilha que a roupa pode ser uma ferramenta de docilização do corpo feminino.
A falta de bolsos nas peças femininas, as roupas excessivamente curtas para mulheres que praticam esportes e a pouca funcionalidade de peças que deveriam melhorar a experiência das meninas são apenas alguns exemplos da desigualdade de gênero na moda.
“Não é que você precise cobrir o corpo. A gente precisa proteger esse corpo de forma estratégica e transmitir a identidade dessa pessoa que vai praticar o esporte. É realmente pensar numa roupa que seja funcional além de estética”, advoga a artista.
Clara evidencia que a sociedade contemporânea induz as mulheres à magreza extrema, o que, por vezes, significa um corpo fraco . Este padrão protege uma cultura de violência contra a mulher .
“O Rataverso e a SÓRDIDA pregam o oposto: a liberdade, a moda se tornar libertadora ao invés de um algoz. Você vestir o seu corpo, que te faz movimentar, que te dá força para você viver as experiências que você quer viver, que te permite ocupar a cidade, que te permite ter experiências, é um corpo que você ama e que você veste da forma que você quer”
Mas como propõe Ana Luiza, existem pessoas dispostas a mudar este cenário: “existem marcas que estão tentando trazer isso agora e é muito legal ver que esse mercado está se expandindo”. Para ela, o que a marca propõe não é uma ideia completamente inovadora, mas um novo olhar a partir das individualidades e referências das artistas .
E se engana quem acredita que a coleção é exclusivamente para o público feminino. As roupas da SÓRDIDA são para quem quiser: a coleção não tem gênero .
“O nosso objetivo não é só de fazer roupas femininas, as nossas roupas não têm necessariamente um público específico em relação a gênero, a gente não quer que isso seja uma questão inclusive”, destaca Ana Luiza.
*estagiária sob supervisão de Bruna Merlin.
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