Congado em Uberlândia: a hierarquia dos ternos nos 150 anos da festa | G1
Entenda como funciona a estrutura por trás da festa do Congado e saiba quantos e quais são os ternos de Uberlândia.
Quem acompanha os cortejos do Congado pelas ruas de Uberlândia se encanta com as cores, os cantos, os sons e a dança da festa que chega aos 150 anos neste final de semana. Mas, por trás dessa manifestação religiosa e cultural de matriz africana, que em Uberlândia antecede até a história cultural da cidade , existe uma estrutura própria de organização, composta por hierarquias, funções e conhecimentos transmitidos entre gerações.
Essa tradição, que se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2025 , é cheia de curiosidades. Por exemplo, é congado ou congada? O que faz um capitão? O que é um terno?
O g1 entrevistou o historiador e pesquisador das culturas tradicionais afro-brasileiras Jeremias Brasileiro e a relações públicas da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (INSRSB), Tayrine Rodrigues para mostrar mais sobre a preparação para a festa que envolve meses de trabalho.
Cada grupo tem suas tradições. Cargos como capitão, madrinha e general representam reconhecimento dentro da trajetória religiosa e cultural dos congadeiros. Saiba mais sobre a festa e entenda as funções de cada um e quais são as principais características do Congado em Uberlândia.
Os dois termos estão corretos. Congada é usada para se referir aos festejos, enquanto Congado designa o conjunto das expressões religiosas e culturais ligadas a essa tradição de matriz africana.
Segundo a Irmandade, a celebração era realizada originalmente em novembro porque os negros e os grupos de Congado não podiam participar da Festa de Nossa Senhora do Rosário promovida pela antiga irmandade formada por pessoas brancas, realizada em 7 de outubro.
Com o fim da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos e, consequentemente, da Festa da padroeira em outubro, o padre Marcelo Augelo, então pároco da Catedral de Santa Teresinha, propôs que a Festa da Congada fosse transferida para outubro. Segundo Jeremias Brasileiro, a mudança foi aprovada pela assembleia da INSRSB em data não informada e, desde então, a celebração ocorre na primeira quinzena do mês.
Terno Sainha é o mais antigo de Uberlândia, foi fundado em 1888 — Foto: Larissa Lali/Divulgação
Os ternos são os grupos que participam da celebração. A origem de cada um está ligada a contextos e necessidades específicas da comunidade congadeira, o que faz com que cada grupo tenha sua própria história. Neste ano, em Uberlândia, participam os 24 ternos da cidade e dois convidados.
Segundo a Irmandade, o terno mais antigo da cidade é o Sainha, formado em 1888, e os mais novo o Moçambique Quilombo dos Palmares, de 2007 sendo incorporado à irmandade em 2017.
Uma pessoa pode fundar um terno desde que tenha reconhecimento por sua trajetória religiosa e cultural no Congado. No caso da filiação à INSRSB, é necessário cumprir exigências previstas no estatuto e no regimento da entidade, além da aprovação da assembleia geral.
Diferentemente das escolas de samba, os ternos não são divididos em alas. A organização segue uma hierarquia militar tradicional formada por bandeireiras, madrinhas, soldados, capitães, generais e guardinhas.
Representam o reinado e ocupam posições de destaque nas celebrações. Participam dos cortejos e de cerimônias religiosas que valorizam a ancestralidade e a tradição afro-brasileira. Em Uberlândia tem-se uma característica fundamental que diferencia o festejo: tanto casal do Reinado Perpétuo, quanto dos Reinados Festeiros escolhidos anualmente, são pertencentes à comunidade do Congado.
Responsáveis por liderar o terno. Orientam os integrantes, conduzem os cantos e coordenam os movimentos e os ritmos durante os cortejos. Também exercem um papel importante na transmissão dos conhecimentos e das tradições do grupo.
3. General ou comandante-geral (leia mais abaixo)
Em algumas festas, é a pessoa responsável por representar e orientar o conjunto dos ternos. Pode atuar na organização dos cortejos, na recepção das guardas e na condução de momentos coletivos da celebração. As atribuições variam conforme a organização de cada festa.
São as pessoas responsáveis pela música que acompanha os cortejos. Tocam instrumentos de percussão como caixas ou harmonia, conforme o estilo do terno. Os ritmos orientam os movimentos e acompanham os cantos.
Formam as fileiras do terno e executam os movimentos coreográficos. Também acompanham os cantos e os ritmos conduzidos pela liderança. Em algumas guardas, as danças incluem movimentos com bastões ou outros elementos característicos daquele estilo.
Em alguns ternos, é uma pessoa experiente que auxilia na condução dos movimentos e dos ritmos. Pode ajudar a orientar os demais integrantes durante as apresentações e os cortejos. A função e o nome variam entre os grupos.
Carregam a bandeira que identifica o terno ou traz a imagem do santo de devoção. O objeto tem importância simbólica e religiosa e participa de momentos específicos do cortejo.
Na festa do Congado em Uberlândia, a guia é a bandeira que vai na frente dos ternos guiando o caminho.
Atualmente, a INSRSB reúne 24 ternos distribuídos entre Congos, Marujos, Marinheiros, Catupés e Moçambiques. O mais antigo é o Terno Sainha. Os mais recentes são o Catupé do Mansour e o Moçambique Quilombo dos Palmares.
Desde 2021, a filiação de novos ternos à irmandade está suspensa e permanecerá assim até 2042, conforme o estatuto da instituição.
Jeremias Brasileiro em 2006, quando chegou assumiu o papel de general na Congada Uberlândia — Foto: Fabíola Benfica/Divulgação
O historiador e pesquisador Jeremias Brasileiro ocupa a função de general da festa da Congada em Uberlândia há duas décadas. Segundo ele, o general atua como comandante-geral e orador da festa, sendo responsável por receber, na Igreja do Rosário, as bandeiras dos diversos grupos participantes, mantendo uma tradição ligada às antigas representações dos reinos do Congo e de Angola.
De acordo com Jeremias, a transmissão do conhecimento ocorre por meio do convívio e dos ensinamentos dos mais velhos. Ele afirma que já pensa na preparação das futuras gerações para garantir a continuidade da tradição e preservar a ancestralidade ligada à festa.
Jeremias conta que chegou em Uberlândia em 1974 e se aproximou da festa em 1985. Nos anos 2000 começou a conversar com o Tio Cândido e o senhor Adenir Nascimento, que lhe passaram conhecimentos valiosos.
"Eu não sabia, mas eles estavam me preparando para essa função. Para a transição, temos o Aliester, tataraneto de Teófilo Nascimento, comandante em 1930. Pode ser que o próximo general venha com essa ancestralidade familiar", disse Jeremias Brasileiro.
Terno Estrela Guia — Foto: Prefeitura de Uberlândia/Divulgação
Terno Marinheiro de Nossa Senhora do Rosário - Cores: Azul, branco e amarelo
Terno Marinheiro de São Benedito - Cores: Azul e branco
Terno Congo Camisa Verde - Cores: Verde e amarelo
Terno Congo Santa Efigênia - Cores: Branco, amarelo e verde
Terno Congo Amarelo Ouro - Cores: Amarelo e branco
Terno Congo Verde e Branco - Cores: Branco e verde
Terno Congo Sainha - Cores: branco, azul e rosa
Terno Catupé Azul e Rosa - Cores: Azul e rosa
Terno Catupé de Nossa Senhora Do Rosário - Cores: Azul e branco
Terno Marujo Azul de Maio - Cores: Azul e branco
Terno Moçambique Estrela Guia - Cores: Laranja e branco
Terno Moçambique Pena Branca - Cor: Branco
Terno Moçambique Princesa Isabel - Cores: Branco e azul
Terno Moçambique do Oriente - Cores: Branco, rosa e verde
Terno Moçambique de Belém - Cores: Verde e branco
Terno Catupé Martins - Cores: Branco, rosa e azul
Terno Congo Prata - Cores: Prata e amarelo
Terno São Domingos - Cores: Verde limão e branco
Terno Moçambique Guardiões de São Benedito - Cores: Rosa e branco
Terno Moçambique de Angola - Cores: Branco e azul
Terno Moçambique Raízes - Cores: branco e verde
Terno Catupé do Mansour - Cores: Azul e branco
Terno Congo Rosário Santo - Cores: Azul e branco
Terno Moçambique Quilombo dos Palmares - Cores: Marrom, branco e amarelo
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Uberlândia é a instituição que reúne e representa os diferentes ternos do Congado na cidade. Ela organiza e apoia as celebrações religiosas em homenagem aos santos, preserva as tradições afro-brasileiras e cuida da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Os ternos mantêm sua própria organização, enquanto a Irmandade atua como representante do conjunto dos grupos.
A história da instituição está ligada à organização de pessoas negras que, ainda no século XIX, promoviam as festas do Congado e a devoção a Nossa Senhora do Rosário. Oficializada em 1916 , a Irmandade também tem um papel importante na preservação da memória e da identidade cultural dessas comunidades. Atualmente, reúne ternos de Congo, Moçambique, Catupé, Marujos e Marinheiros, contribuindo para a continuidade da tradição entre as gerações.
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