Cortes de Trump em auxílio alimentar podem afetar eleições nos EUA | G1
Mudanças no programa SNAP deixaram cerca de 5 milhões de pessoas sem benefícios; no Arizona, eleitores relatam dificuldades e dizem que podem punir republicanos nas urnas em 3 de novembro.
Pessoas fazem fila para receber alimentos durante uma distribuição do Banco Comunitário de Alimentos do sul do Arizona, na cidade de Tucson. — Foto: Olivier Touron / France Presse
Christine, uma viúva aposentada, coloca alimentos no carrinho durante uma ação de caridade no Arizona, nos Estados Unidos . Ela participa do evento todos os meses desde que o presidente Donald Trump promoveu cortes nos programas de assistência alimentar.
"Está tudo tão difícil", lamentou a mulher de 67 anos. Ela não revela o sobrenome para evitar que as crianças de 9 e 13 anos sob seus cuidados descubram como consegue colocar comida em casa.
Até o ano passado, Christine recebia benefícios do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP, na sigla em inglês). O auxílio, de centenas de dólares por mês, complementava sua modesta aposentadoria e ajudava a sustentar a família.
Mas, em janeiro, cortes previstos na lei orçamentária sancionada por Trump retiraram cerca de cinco milhões de pessoas do programa.
"Eles não se importam com a gente", disse Christine, com lágrimas nos olhos. "O governo Trump não se preocupa com o povo".
Metade de sua aposentadoria é destinada ao pagamento do aluguel. A alta dos preços, agravada pelos efeitos da guerra contra o Irã, tornou ainda mais difícil sua situação financeira.
Descontentamento pode se refletir nas urnas
No banco de alimentos, Christine enche o carrinho com carne, tomates e abobrinhas. Sem a ajuda, diz, sua família não conseguiria comprar carne e teria de reduzir o consumo de verduras.
O Arizona, no sudoeste dos Estados Unidos, está entre os estados mais afetados pelos cortes no SNAP. Mais de 465 mil beneficiários, incluindo 200 mil crianças, perderam o acesso ao programa.
A redução da assistência alimenta o descontentamento da população e pode influenciar as eleições legislativas de 3 de novembro, conhecidas como eleições de meio de mandato. No Arizona, duas disputas pela Câmara dos Representantes são consideradas acirradas, em um cenário no qual os republicanos correm o risco de perder a maioria.
"Muita gente está chateada", afirmou Natalie Jayroe, responsável pelo Banco Comunitário de Alimentos do sul do Arizona. "Inclusive pessoas que votaram no governo Trump".
A rede de distribuição de alimentos atende neste ano 50 mil pessoas a mais do que o habitual, em parte devido aos cortes na assistência federal.
"Se essas pessoas forem votar, podem fazer a diferença aqui no Arizona", disse Jayroe. "Mas a questão é: elas vão votar?".
Entre caixas de verduras, Óscar Ochoa, de 65 anos, demonstra indignação. Ele também perdeu o acesso ao programa de auxílio alimentar e reclama de ter precisado voltar a trabalhar como motorista de ônibus depois de se aposentar.
Veterano das Forças Armadas, Ochoa já votou pelo correio. Sua escolha foi "completamente azul", afirmou, em referência à cor associada ao Partido Democrata.
Eleições de meio de mandato nos EUA: como funciona o sistema eleitoral americano?
Pessoas deixam o Banco Comunitário de Alimentos do sul do Arizona após receberem alimentos, em Tucson, no Arizona, em 17 de outubro de 2026. — Foto: Olivier Touron / France Presse
Ochoa afirma que a lei orçamentária beneficiou principalmente os mais ricos, ao prever reduções de impostos para bilionários.
"Não beneficiou os pobres nem o americano médio", disse.
Em um distrito eleitoral que abrange parte de Tucson, a democrata Joanna Mendoza concentra sua campanha no custo de vida. Ela destaca que cresceu em uma família que dependia de cupons de alimentação para comprar comida.
Seu adversário, o republicano Juan Ciscomani, tenta se distanciar de Trump enquanto busca a reeleição. Ele promete que não será "marionete de ninguém".
"Ele é um mentiroso", afirmou Angélica Garcia, de 45 anos, que trabalha como recepcionista. Durante um período em que ficou desempregada, ela tentou obter os benefícios do SNAP, mas o pedido demorou mais de dois meses para ser analisado em razão das mudanças nas regras do programa.
Nesse intervalo, suas filhas, de 14 e 22 anos, tiveram de se alimentar basicamente de arroz, feijão e macarrão.
"Sinto que o governo Trump tornou as coisas mais difíceis para as pessoas", disse.
Antes das mudanças na política de assistência social, Garcia já tinha inclinação política à esquerda, mas não costumava se envolver em política . Ela sequer sabia quem era seu representante no Congresso.
Agora, pede aos vizinhos que participem das eleições de 3 de novembro.
"Temos que fazer valer a nossa voz", afirmou.
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