Bets em Ribeirão Preto: mulheres e idosos lideram endividamento | G1
Análise do Acordo Certo ouviu 237 endividados em 21 cidades. Cassino online, como o 'tigrinho', é o preferido, e quase metade dos que jogam sente ter sido enganada.
As mulheres são maioria entre os endividados que apostam na região de Ribeirão Preto (SP), e um em cada três tem 55 anos ou mais. É o que mostra um levantamento do Acordo Certo divulgado com exclusividade ao g1 .
Segundo o estudo, as mulheres somam 50,6% desse público, participação 8 pontos percentuais maior que a média nacional. A empresa, uma plataforma online de negociação de dívidas, ouviu 237 endividados em 21 cidades, entre elas Ribeirão Preto, Franca (SP), Barretos (SP) e Sertãozinho (SP).
Para Eduardo Cavalheiro, um dos organizadores do estudo, os dois grupos chegam às apostas por caminhos diferentes. Entre as mulheres, ele aponta mães chefes de família com renda baixa. Entre os mais velhos, a renda recorrente, como a aposentadoria, e a solidão.
Jogo do Tigrinho, ou Fortune Tiger, é um jogo de caça-níquel para celulares — Foto: BBC/Reprodução/Fortune Tiger
O levantamento mostra ainda que o cassino online, como o chamado "tigrinho", é o preferido de 58,1% dos que já jogaram. Quase metade (48,1%) sente ter se sentido enganada: ficou sem o prêmio, teve a conta bloqueada ou caiu em golpe.
A dívida pesa sobre os entrevistados. Um terço (32,5%) está negativado, e 43,9% estimam que devem mais de R$ 5 mil. Cerca de 1 em cada 10 dos que já jogaram deixou de pagar uma conta ou usou empréstimo, cheque especial ou cartão para apostar nos últimos 12 meses.
Os resultados são preliminares e retratam os endividados cadastrados na plataforma que responderam ao questionário entre 31 de julho e 28 de setembro, e não toda a população da região. A metodologia completa está no fim da reportagem.
A divisão entre mulheres (50,6%) e homens (49,4%) é equilibrada, mas a presença feminina na região supera a média nacional em 8 pontos percentuais, segundo o relatório.
Para Eduardo, parte da explicação está nas "mães que estão na base da pirâmide, que estão ali ganhando entre dois e quatro salários mínimos, que muitas vezes são chefes de família, são mães solo, e elas precisam de qualquer coisa que dê uma esperança de complemento de renda".
Os dados do estudo vão na mesma direção. Entre os que apostam para aumentar a renda, pagar contas ou recuperar perdas, 56% são mulheres, e 65% têm renda familiar de até 2 salários mínimos. Nesse recorte por perfil, os percentuais somam as respostas da região e do restante do país.
Uma pesquisa nacional citada no relatório, a Mulheres & Bets, do estúdio Clarice, da Estratégia Latina e do Instituto Ideia, aponta que 72% das apostadoras têm filhos.Um em cada três tem 55 anos ou mais
Os apostadores com 55 anos ou mais somam 35,4% dos endividados ouvidos na região. Segundo Eduardo, é um público que costuma ter renda recorrente, como aposentadoria e pensão, e às vezes uma reserva construída ao longo da vida.
Ele compara o hábito ao de décadas atrás: muitos dos que jogavam bingo há 20 ou 30 anos hoje estão nas bets. E aponta um fator emocional.
"A gente está vivendo uma epidemia de solidão. Os mais velhos muitas vezes não têm tantas opções de atividade, de lazer, e acabam se entregando ao passatempo mais rápido, à dopamina que chega mais rápido", diz.
As bets costumam ser associadas ao futebol, mas a aposta em resultado esportivo quase não aparece entre os endividados da região: teve menos de 1% das respostas.
Apostas esportivas são menos frequentes na regi — Foto: Reprodução/EPTV
O que domina são jogos como "Tigrinho", "Dragão" e similares, que imitam máquinas caça-níqueis. Outros 3,2% preferem jogos específicos, como "Avião" e "Mines", e 38,7% dizem não jogar valendo dinheiro.
Para Eduardo, a aposta esportiva costuma ser só o começo.
"Quando a gente entra em qualquer site de apostas esportivas, você tem lá a opção do link para entrar nos jogos. Então, as apostas esportivas funcionam como porta de entrada para os jogos de cassino, para os tigrinhos, para os aviões", diz. "A dinâmica do cassino é a casa sempre ganha."
O apostador endividado da região, em geral, começou há pouco e aposta valores baixos. Seis em cada dez (61,3%) jogam há menos de seis meses, pouco mais da metade (54,8%) joga algumas vezes por mês, e dois em cada três (67,7%) gastam até R$ 50 por mês.
Segundo Eduardo, o valor baixo não diminui o problema.
"Sobrou um troco, sobrou 10 reais, sobrou 15 reais, a plataforma aceita qualquer valor. Então os menores valores, que muitas vezes são para complementar uma despesa de supermercado, estão indo para as apostas, e isso é muito preocupante."
Quem joga sabe do risco: para 87,1%, esporte, cassino e outros jogos são todos jogos de azar. A publicidade aparece pouco nas respostas: 12,9% disseram ter jogado motivados por propaganda ou influenciadores, e 7,4% seguem influenciadores ou grupos de palpites.
Jogo do tigrinho: a 'conta demo' usada por influenciadores para mostrar 'ganhos' — Foto: Reprodução Fantástico
O próprio relatório faz uma ressalva: os entrevistados tendem a declarar menos frequência e valores menores do que de fato apostam.
A preferência pelo cassino importa porque essa modalidade tem a maior taxa estimada de jogo problemático entre os formatos analisados por uma revisão sistemática publicada na revista científica The Lancet Public Health. Entre usuários de cassinos online e caça-níqueis virtuais, a taxa chegou a 15,8%. O índice se refere a quem usa essas plataformas, e não à população em geral.
Os 48,1% que se sentiram enganados reúnem três situações: não receber o prêmio, ter a conta bloqueada ou cair em golpe, uma ou mais vezes.
Perder dinheiro que não pode perder é a principal preocupação de 25,9%. Cair em golpe preocupa 18,5%. Um terço (33,3%), porém, diz não ter medo das consequências.
Se ganhassem dinheiro extra nas apostas, 63,6% dos endividados ouvidos usariam o valor para pagar dívidas. Outros 26,2% guardariam o dinheiro, e 10,3% quitariam contas atrasadas.
Entre os negativados, três em cada quatro colocariam o dinheiro na dívida, tanto na região (75,3%) quanto no restante do país (76,5%).
"As pessoas estão deixando muitas vezes de quitar uma dívida para poder apostar e fazer uma renda extra para cobrir o mês, para chegar no final do mês", afirma Eduardo.
Entre os que deixaram de pagar uma conta por causa do jogo, cerca de 6 em cada 10 usaram crédito para conseguir apostar. Segundo Eduardo, desde a pandemia, famílias que já viviam "na corda bamba do orçamento" se endividaram ainda mais, muitas vezes usando o único crédito que tinham, e o mais caro: o rotativo do cartão.
Dois em cada três entrevistados (67,1%) têm renda familiar de até 4 salários mínimos. A faixa mais citada é a de 2 a 4 salários (32,9%).
O levantamento compara a região de Ribeirão Preto com 430 endividados ouvidos no restante do país. Na região, 32,5% dos entrevistados estão negativados. Fora dela, são 54%.
O motivo para apostar também muda. Na região, a maioria dos que já jogaram (58%) aposta principalmente por diversão ou emoção. No restante do país, esse grupo é de 31%. Já quem aposta por necessidade representa 29% dos apostadores da região e 54% no restante do país.
Segundo a empresa, os entrevistados da região têm renda maior e estão menos negativados, o que explica boa parte das diferenças. Por isso, a comparação serve de referência, e não de ranking.
O levantamento do Acordo Certo é um estudo quantitativo, feito 100% pela internet. O questionário foi enviado por e-mail a usuários da plataforma que têm dívida cadastrada.
Na região, foram 237 entrevistas em 21 municípios, entre 31 de julho e 28 de setembro de 2026. Segundo a empresa, a margem de erro é de 6,4 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
As perguntas sobre hábitos de jogo, como frequência, gasto, preferência e motivação, foram respondidas só por quem já jogou. Por isso, esses percentuais têm uma base menor que o total de entrevistados, e a margem de erro nesses recortes é maior.
Os resultados são preliminares, já que o formulário segue aberto, e representam os endividados cadastrados que responderam à pesquisa, não a população da região. A empresa aponta ainda três limitações: a amostra vem de uma base de pessoas com dívida, os entrevistados tendem a declarar menos frequência e valor apostado, e a coleta foi feita só pela internet, em um período específico do ano.
A coleta terminou três dias depois da publicação da medida provisória que proíbe as apostas online no país, em 25 de setembro.
Cidades pesquisadas: Ribeirão Preto, Franca, Barretos, Sertãozinho, Araraquara, Bebedouro, Jaboticabal, Batatais, Taquaritinga, Pontal, São Joaquim da Barra, Monte Alto, Jardinópolis, Serrana, Guaíra, Orlândia, Ituverava, Guariba, Pitangueiras, Cravinhos e Barrinha.
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