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Sunday, August 30, 2026

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Mudanças bruscas de temperatura podem danificar instrumentos musicais | G1

Cavalete descolado, braço empenado, verniz trincado, e desafinação durante apresentações. Profissionais explicam como o clima afeta tanto guitarras, violões, pianos e até instrumentos de sopro.

· 1,300 words

Calor excessivo, frio intenso, veranicos e mudanças bruscas de temperatura são inimigos da saúde, mas não apenas dela. Quem está começando a estudar música pode não saber, mas instrumentos musicais feitos de madeira também são sensíveis às condições do clima.

Ao g1 , Carlos Arruda, de 44 anos, coordenador dos setores de Luteria e do Núcleo de Apoio Pedagógico do Conservatório de Tatuí , explicou que a madeira é formada, basicamente, por quatro elementos, sendo a celulose e a água os que mais preenchem sua estrutura.

Especialistas apontam que variação climaática pode danificar instrumentos musicais — Foto: Peterson Paes/Arquivo do Conservatório de Tatuí

"A celulose são as fibras da madeira que podem se expandir ou recolher de acordo com a umidade que está influenciando externamente. Então, essas mudanças de temperatura alteram a umidade relativa do ar e podem fazer a madeira se expandir ou recolher.

Como os instrumentos musicais são feitos de materiais sensíveis a esse tipo de variação, as mudanças no clima podem afetar tanto a afinação quanto a própria resistência dos instrumentos: rachando, inchando ressecando e até quebrando.

Suelen Campos, de 40 anos, é luthier e, ao lado do marido, Anderson Campos, de 37, músico, mantém uma loja de instrumentos musicais em Itapetininga (SP).

Segundo o casal, assim como a pele pode ressecar quando não recebe hidratação adequada, a madeira dos instrumentos também pode sofrer com a falta de umidade.

"Eu gosto de comparar muito o instrumento com o nosso corpo. E até com o carro. A gente passa um hidratante e a pele fica mais macia. No carro também é assim. Gosto de fazer esse comparativo porque a maioria das pessoas que compram instrumentos entendem melhor comparando com o carro", aponta Suelen.

Suelen Campos é luthier e, ao lado do marido, Anderson Campos, músico, mantém uma loja de instrumentos musicais em Itapetininga (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

As cordas do violão ou da guitarra ficam “esticadas” o tempo todo e fazem força sobre o instrumento, principalmente no cavalete - estrutura de madeira que prende as cordas - e na ponta do braço.

"São os dois principais pontos de pressão", resume Suelen.

A profissional explica que para ajudar a suportar essa pressão, alguns instrumentos têm uma barra de metal chamada tensor, que fica escondida dentro do braço do equipamento musical de corda. Essa barra permite corrigir o instrumento quando o braço entorta por causa da tensão das cordas ou da mudança de temperatura. Essa ação de entortar é chamada de empenamento.

Mas não são todos os instrumentos que possuem o tensor e, sem ele, quando o violão empena e precisa passar por um processo chamado “regulagem”, fica mais difícil corrigir o dano, fazendo com que, muitas vezes, o reparo saia mais caro que comprar um novo.

"Verificar se ele possui tensor é um fator muito importante na hora de escolher um instrumento", afirma Suelen.

Como os instrumentos musicais são feitos com materiais muito sensíveis a esse tipo de variação, o clima afeta tanto a afinação quanto a sua própria resistência — Foto: Peterson Paes/Arquivo do Conservatório de Tatuí

O calor intenso também pode amolecer a cola que é usada para juntar as peças. Suelen diz que o cavalete é o que mais sofre: "Existe uma grande chance de ele descolar. Às vezes descola por inteiro, em outras, parcialmente."

Outros instrumentos de corda, como violino, viola, violoncelo e contrabaixo, instrumentos de sopro ou, até mesmo, instrumentos de tecla mais antigos, como o cravo e o fortepiano, também podem ser afetados pelo clima, pois são feitos de madeiras finas e sensíveis para melhor qualidade do som e podem sofrer pelo mesmo motivo.

Além do descolamento, o calor dilata a madeira, isso, quando combinado com a tensão das cordas, pode fazer o braço entortar para fora, o chamado abaulamento, dificultando, ou até impedindo, tocar.

A situação mais arriscada, segundo o músico Anderson, é deixar o instrumento por muito tempo dentro de um veículo em um dia de sol forte.

"O que não pode acontecer é a pessoa deixar o instrumento num carro num calor alto. O que acontece? Superaquece o instrumento, o cavalete descola, você perde o instrumento", alerta.

Viola caipira, violão e cavaquinho são os instrumentos fabricados pelo luthier de Alambari (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

Carlos Arruda explica que o piano moderno é uma exceção e pode ficar meses sem precisar de afinação, enquanto os outros instrumentos podem precisar de ajuste toda semana.

"A parte de madeira que é utilizada no piano é mais na caixa acústica dele, não necessariamente na parte interna. Já é uma estrutura mais feita de ferro e metal".

Piano moderno é uma exceção e pode ficar meses sem precisar de afinação, aponta especialista — Foto: Peterson Paes/Arquivo do Conservatório de Tatuí

Nos dias frios, o processo é quase o oposto: a madeira resseca e se contrai, o que pode aproximar as cordas dos trastes - barras de metal que dividem o braço do instrumento em espaços correspondentes às notas - e provocar o chamado trastejamento. Nesse caso, em vez de produzir um som limpo, o instrumento passa a emitir um ruído “arranhado”.

É um problema que Anderson conhece bem, depois de vivenciá-lo diversas vezes no palco durante o inverno na cidade onde mora.

"Aqui em Itapetininga é muito frio. Normalmente começa a trastejar muito, porque o braço cola na corda", conta o músico.

Segundo Anderson, o instrumento pode até desafinar durante a apresentação, algo mais comum do que o público imagina. O simples fato de tocar em um ambiente com ar-condicionado, especialmente após a passagem de som, já pode ser suficiente para alterar a afinação.

"Você está tocando em uma sala onde tem ar-condicionado, pronto, desafinou o instrumento", brinca.

Apesar disso, ele garante que a situação não costuma atrapalhar o show.

"Vou colocar um exemplo de uma música do Guns N' Roses. Você está tocando a base ali, de um jeito que, se você está desafinando muito, você para de tocar, literalmente. Mas é coisa mínima. Você abaixa a guitarra, afina rapidinho, e o baixo está segurando a música, junto com a bateria, a pessoa está cantando. Você já volta tocando já", descreve.

Anderson Campos, de 37, músico, mantém uma loja de instrumentos musicais em Itapetininga (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

Em uma orquestra, porém, o processo pode ser um pouco mais complicado. Segundo Carlos, quando há um piano ou um cravo no palco, são eles que determinam o tom dos demais instrumentos, já que a afinação desses instrumentos é mais trabalhosa.

"Os outros instrumentos afinam de acordo com a harmonia que está no instrumento que é mais difícil de afinar. Um violino ou uma guitarra são instrumentos que podem ser ajustados em segundos, já nos instrumentos de teclas, com dezenas de cordas internas, o processo é bem mais demorado, podendo levar horas."

Carlos diz que, se o ar-condicionado e os holofotes forem ligados entre a passagem de som e o início do espetáculo, isso já pode ser suficiente para desafinar os instrumentos.

Carlos Arruda, coordenador dos setores de Luteria e do Núcleo de Apoio Pedagógico do Conservatório de Tatuí — Foto: Peterson Paes/Arquivo do Conservatório de Tatuí

Na loja de Suelen Anderson, uma das principais ações preventivas é passar óleo no instrumento para hidratá-lo.

“O óleo ajuda a hidratar, porque ele penetra a madeira e deixa ela mais suave para tocar. A madeira fica mais escura, e ela fica até um pouco mais difícil de empenar quando está hidratada", explica.

Carlos reforça a orientação. Em períodos mais secos, ele recomenda o uso de toalhas molhadas para ajudar a umedecer o ambiente, caso não seja possível utilizar um umidificador. Já para reduzir a umidade, orienta o uso de produtos antimofo e sachês antiumidade.

*Colaborou sob supervisão de Larissa Pandori

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