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Pesquisa encontra substâncias tóxicas em 95% do lixo reciclável | G1

Estudo identificou substâncias podem causar câncer e alterações hormonais em materiais descartados; pesquisadores alertam para riscos à saúde e possibilidade de contaminantes chegarem a novos produtos por meio da reciclagem.

· 878 words

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Sorocaba (SP), identificaram substâncias tóxicas em 95% das 207 amostras de resíduos de reciclagem analisadas. Em 13 amostras, a concentração dos contaminantes ultrapassou o nível considerado mais preocupante .

O estudo investigou a presença de retardantes de chama bromados , substâncias adicionadas a produtos para dificultar a propagação do fogo. Segundo os pesquisadores, esses compostos podem provocar danos à saúde, incluindo alterações nos sistemas hormonal e reprodutivo, e alguns estão associados ao desenvolvimento de câncer.

A preocupação é que os contaminantes permaneçam nos materiais mesmo depois do descarte e possam retornar ao ciclo produtivo por meio da reciclagem, chegando a novos produtos ou ao meio ambiente.

O estudo foi conduzido durante cinco anos por pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp, em Sorocaba, em parceria com a Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

As amostras foram coletadas em um centro de desmanche de veículos, um aterro sanitário e associações de reciclagem. Entre os materiais analisados estavam pedaços de espuma, plástico, isopor e componentes eletrônicos.

Substâncias tóxicas são encontradas em 95% dos resíduos destinado a reciclagem em Sorocaba — Foto: Reprodução/TV TEM

Depois da coleta, os resíduos foram separados e triturados. Os pesquisadores utilizaram solventes para extrair os contaminantes e identificar as substâncias presentes em cada material.

André Henrique Rosa, professor e coordenador da pesquisa, explica que os retardantes de chama são incorporados a produtos para reduzir a propagação das chamas, mas podem representar riscos à saúde.

“São (substâncias) cancerígenas, podem provocar câncer de tireoide, mamas, intestino, testículos, fígado, enfim. Realmente, elas são prejudiciais”, afirmou.

André Henrique Rosa, professor da Unesp e coordenador da pesquisa — Foto: Reprodução/TV TEM

Retorno ao mercado por meio da reciclagem

Um dos pontos de atenção é a possibilidade de os materiais contaminados serem reaproveitados na fabricação de novos produtos.

De acordo com o doutorando envolvido na pesquisa, David Burgos Melo, o estudo buscou entender como os resíduos poliméricos podem voltar à cadeia produtiva brasileira mesmo depois de encerrado o ciclo de vida original.

“O foco da pesquisa era determinar como esses resíduos poliméricos, ainda depois de terminar seu ciclo de vida, podem causar alguma afetação e como esses polímeros podem reentrar no ciclo produtivo do mercado brasileiro”, afirmou.

David Burgos Melo doutorando envolvido na pesquisa na Unesp — Foto: Reprodução/TV TEM

Segundo ele, algumas características desses materiais permitem que permaneçam nos resíduos ao longo do tempo, inclusive durante processos de reaproveitamento.

“O polímero tem uma característica que ele continua com o passar do tempo. Ele consegue suportar temperaturas muito altas. Então, naquele processo de fazer um novo polímero ou reciclar, ele ainda continua”, disse.

A presença dos contaminantes não significa, necessariamente, que todo produto reciclado ofereça risco à saúde. A preocupação dos pesquisadores é compreender como essas substâncias se comportam durante a reciclagem e evitar que materiais potencialmente perigosos sejam reaproveitados sem o devido controle.

Equipamentos eletrônicos antigos exigem atenção

De acordo com André Henrique Rosa, equipamentos eletrônicos antigos podem apresentar concentrações mais elevadas desses contaminantes. “São os equipamentos mais antigos, TV de tubo catódico, celulares antigos, CPUs, computadores antigos, que têm uma concentração maior desses contaminantes”, afirmou.

O pesquisador ressalta que não é necessário entrar em pânico nem descartar objetos antigos por conta própria. Como a presença das substâncias não pode ser identificada apenas pela aparência, a orientação é evitar quebrar ou desmontar esses equipamentos e não descartá-los em locais inadequados.

Rosa também recomenda manter os ambientes limpos para reduzir o acúmulo de poeira. Segundo ele, a degradação dos materiais ao longo do tempo pode liberar contaminantes no ambiente.

“A pessoa manter realmente a casa sempre limpa, evitar poeira, porque onde esse material pode ser degradado ao longo do tempo vai para a atmosfera, e através da poeira entra em contato com as pessoas”, explicou.

Em cooperativas de reciclagem, os trabalhadores utilizam equipamentos de proteção individual (EPIs) para reduzir os riscos durante a separação dos resíduos.

Em Sorocaba, em uma das unidades, são separadas de 40 a 50 bags de materiais por dia. Cada uma pode pesar até 60 quilos, dependendo do tipo de resíduo descartado. A coordenadora da cooperativa, Márcia Regina Rodrigues, explica que os EPIs são utilizados conforme a atividade realizada.

“As botas ajudam você a não pisar em cacos de vidro, não cair um ferro no seu pé e não machucar. As luvas também, para você pegar algum produto que tenha alguma coisa de química, para você não se contaminar. Quem fica na parte do material fino, na separação do material fino, usa máscara, usa o óculos para proteger o olho”, afirmou.

O uso desses equipamentos ajuda a prevenir acidentes e a reduzir a exposição dos trabalhadores a materiais que podem oferecer riscos.

O Brasil conta com sistemas de logística reversa para produtos eletroeletrônicos, que permitem encaminhar equipamentos descartados para pontos de recebimento e destinação adequada.

A orientação é não jogar eletrônicos no lixo comum nem desmontá-los em casa. O encaminhamento a pontos de coleta apropriados contribui para que esses materiais recebam tratamento adequado.

A reciclagem continua sendo importante para reduzir o desperdício e reaproveitar recursos, mas precisa ser acompanhada de medidas que permitam identificar e controlar substâncias perigosas ao longo do processo.

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Thursday, October 22, 2026

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