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Saturday, September 5, 2026

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Sem frutos suficientes, macacos-prego mudam o cardápio e caçam mais | G1

Pesquisa acompanhou animais por 45 meses no Piauí e registrou 446 episódios de consumo de vertebrados, entre lagartos, roedores, aves, serpentes e gambás.

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Macaco-Prego-Amarelo (Sapajus libidinosus) — Foto: naativa / iNaturalist

Frutas, folhas, flores e insetos fazem parte do cardápio dos macacos-prego, mas, quando a disponibilidade de frutos diminui, pequenos vertebrados podem ganhar espaço na alimentação . Um estudo publicado na revista científica PLOS One mostrou que esses primatas aumentam a predação de animais como lagartos, roedores, aves, serpentes e marsupiais em períodos de menor oferta de frutos.

A pesquisa acompanhou dois grupos de macacos-prego ( Sapajus libidinosus ) na Fazenda Boa Vista, no Piauí, por 45 meses. Segundo os autores, trata-se do registro mais extenso já realizado sobre a predação de vertebrados por essa espécie .

Ao todo, foram 5.093 horas de observação e 446 eventos de consumo de vertebrados. A taxa média registrada foi de 6,34 episódios de predação a cada 100 horas de acompanhamento.

Os animais consumiram principalmente pequenos vertebrados. Entre os 281 episódios utilizados em uma das análises do estudo, foram registrados 123 lagartos, 80 roedores, 34 aves — incluindo ovos e filhotes —, 15 marsupiais, 12 serpentes, dois morcegos e uma iguana. Outras 14 presas não puderam ser identificadas.

Segundo os pesquisadores, o consumo de vertebrados foi observado em machos e fêmeas e também em diferentes faixas etárias. O estudo considera esse comportamento habitual nos grupos acompanhados.

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Um dos principais resultados foi a relação entre a disponibilidade de frutos e a frequência da predação.

Os dados mostraram uma associação negativa significativa: quanto menor a disponibilidade de frutos, maior a taxa de consumo de vertebrados . Já a quantidade de insetos disponível no ambiente não apresentou associação estatisticamente significativa com a taxa geral de predação.

Conforme os autores do artigo, os resultados identificaram os pequenos vertebrados como uma importante fonte de energia para os macacos-prego quando há redução na disponibilidade de frutos.

Ao Jornal da USP, a pesquisadora Patrícia Izar, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e uma das autoras do trabalho, explicou que os macacos-prego não têm uma alimentação especializada.

“Eles comem frutos, folhas, flores, invertebrados e vertebrados”, afirmou. Segundo a pesquisadora, os pequenos animais funcionam como fonte de proteína e gordura e podem complementar a dieta quando outros recursos ficam menos acessíveis.

Na Fazenda Boa Vista, os frutos de palmeiras ajudam a explicar parte dessa dinâmica. De acordo com Patrícia, os cocos são abundantes durante a estação seca, mas diminuem entre dezembro e fevereiro, durante o período chuvoso. Nessa época, o consumo de vertebrados aumenta.

Os próprios autores fazem uma ressalva no artigo: a relação observada pode ser fortemente influenciada pelas variações na disponibilidade desses frutos de palmeiras, ricos em lipídios e proteínas.

Pesquisa revela quando macacos-prego passam a consumir mais animais — Foto: leinawander / iNaturalist

O estudo também detalhou quais partes das presas eram consumidas.

As aves geralmente eram ingeridas inteiras. Quando isso não ocorria, os macacos costumavam consumir cérebro e vísceras. Entre os mamíferos, cauda e patas estavam entre as partes frequentemente ingeridas e, em alguns episódios, também os olhos.

Lagartos e lagartixas podiam ter pés, cauda, olhos, cérebro, pele e vísceras consumidos. Já nas serpentes, os pesquisadores observaram que os animais frequentemente descartavam a cabeça e ingeriam o restante do corpo, principalmente os órgãos internos. No período acompanhado, apenas machos foram vistos consumindo cobras.

Macaco-prego. — Foto: Tiago Falótico/Creative Commons

Segundo Patrícia Izar, em divulgação da USP, uma possível explicação para a preferência inicial pelo cérebro está no conteúdo energético desse tecido.

“O cérebro é rico em lipídio, então, é uma fonte importante de energia”, explicou.

O artigo registra ainda que cérebro e vísceras, por serem partes mais macias, eram consumidos mais rapidamente do que músculos e outros tecidos.

Machos apresentaram maior taxa de predação

As diferenças também apareceram entre os próprios macacos.

Os machos apresentaram uma taxa estimada de consumo de vertebrados 1,4 vez maior que a das fêmeas. Filhotes consumiram vertebrados a aproximadamente um quinto da taxa observada em adultos, enquanto os juvenis não apresentaram diferença estatisticamente significativa em relação aos adultos.

Patrícia explicou que diferenças de tamanho corporal e necessidade energética estão entre as hipóteses para o maior índice entre machos, mas ressaltou que ainda faltam estudos capazes de determinar a causa.

“Temos essas hipóteses, mas a gente precisa de muito mais trabalhos para conseguir responder a essas perguntas”, afirmou.

Outro resultado reforçou a ligação entre disponibilidade de alimento e predação. Um dos grupos estudados recebia diariamente uma oferta suplementar de alimentos, enquanto o outro não. A taxa estimada de predação no grupo sem suplementação foi 1,88 vez maior.

Apesar da variedade de presas, a maior parte do consumo registrado esteve associada a eventos individuais.

Nos episódios classificados pelos pesquisadores, 82,14% ocorreram de forma individual, contra 17,86% envolvendo mais de um animal. Em parte desses episódios coletivos, houve transferência de carne ou de outras partes da carcaça entre os macacos.

“Quando o animal é caçado, os outros macacos tentam pegar pedacinhos”, contou Patrícia, explicando que outros indivíduos podem se aproximar depois que uma presa é capturada.

Macacos-prego trocam parte dos frutos por presas animais em períodos de escassez — Foto: leandrorezende / iNaturalist

O trabalho também usa os macacos-prego como modelo comparativo para investigar uma questão mais ampla: como o consumo de animais pode ter participado da evolução do comportamento predatório humano.

Os autores destacam que seres humanos são os únicos primatas atuais conhecidos por explorar regularmente animais de tamanho semelhante ou maior que o próprio corpo. Antes do surgimento desse padrão, pequenos vertebrados com menos de 5 quilos podem ter representado uma importante fonte nutricional para os primeiros hominínios.

Segundo os pesquisadores, presas menores são menos custosas e mais fáceis de capturar, e sua exploração pode ter funcionado como uma etapa anterior ao surgimento da caça de animais maiores . O estudo, porém, não afirma que os macacos-prego reproduzam diretamente o comportamento de nossos ancestrais.

Para os autores, o hábito observado nesses primatas oferece um modelo para investigar os fatores que favorecem a exploração de pequenos animais e refletir sobre o possível papel desse recurso na evolução humana.

Ao final do trabalho, os pesquisadores sugerem que conjuntos arqueológicos antigos contendo restos de pequenos vertebrados sejam reavaliados em busca de sinais de predação. A hipótese é que essas presas possam ajudar a compreender melhor as etapas que antecederam a exploração sistemática de grandes animais pelos humanos.

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