Violência doméstica acontece em ciclos, dizem especialistas; entenda como funciona | G1
Na última semana, ganhou notoriedade o caso da dentista Giullia Falcão, de 27 anos, que relatou agressões físicas, sexuais e psicológicas do ex-marido. Ele nega as acusações e responde na Justiça por lesão corporal e ameaça.
A violência doméstica costuma acontecer em um ciclo que alterna momentos de tensão, agressão e aparente arrependimento, segundo especialistas. A repetição dessas etapas pode dificultar o rompimento do relacionamento e fazer com que a vítima permaneça por meses ou até anos em uma relação violenta.
O chamado ciclo da violência é geralmente dividido em três fases: aumento da tensão , explosão e “lua de mel” . O modelo foi desenvolvido pela psicóloga americana Lenore Walker, a partir de estudos com mulheres vítimas de violência doméstica.
A dinâmica também ajuda a entender por que uma mulher pode denunciar uma agressão e, depois, permanecer ou voltar para o relacionamento. Após o episódio violento, o agressor pode demonstrar arrependimento, pedir desculpas e prometer que vai mudar. A fase de aparente tranquilidade, porém, pode dar início a um novo ciclo.
Dentista relata anos de agressões do marido, empresário da Faria Lima, e diz ter vivido ciclo de violência — Foto: Reprodução/TV Globo
Na primeira fase, a violência ainda pode não aparecer na forma de uma agressão física. O agressor começa a controlar a mulher, fazer insultos, ameaças, humilhações e cobranças.
"A primeira dessas fases, ela é voltada para uma fase de tensionamento. Ele começa a dar indícios de que ele quer controlar essa mulher, ele começa a insultar ela", explica Ana El Kadri, co-diretora do Mapa do Acolhimento, ONG que acolhe mulheres vítimas de violência.
O comportamento pode fazer com que a vítima passe a tentar evitar conflitos e a controlar as próprias atitudes para não provocar uma nova reação. É uma fase em que a tensão aumenta progressivamente até chegar ao momento de explosão, a segunda fase do ciclo .
É o momento em que a tensão acumulada se transforma em um ato de violência. A agressão pode ser física, mas também pode envolver violência psicológica, sexual, moral ou patrimonial. É nessa etapa que podem ocorrer episódios como socos, tapas, ameaças, estupro, destruição de objetos ou outras formas de agressão.
Na reportagem, a dentista Giullia Falcão, de 27 anos, relatou ter sofrido diferentes tipos de violência durante o relacionamento .
Segundo ela, o ex-marido, o empresário do setor financeiro Ivo Vel Kos, de 48 anos , começou a agredi-la fisicamente ainda dentro do carro em que estavam voltando de um jantar. Depois, já na casa onde os dois estavam, ele teria usado um taco de beisebol para ameaçá-la e a atingido na mão quando ela tentou se proteger.
Giullia também contou que havia denunciado uma agressão anterior. Na ocasião, segundo seu relato, ele havia dado um tapa em seu rosto.
A dentista Giullia Costa relatou agressões provocadas pelo ex-marido. — Foto: Reprodução/TV Globo
Depois da explosão, pode começar a terceira fase: a chamada “lua de mel”. É quando o agressor demonstra arrependimento, pede desculpas, promete mudar e passa a agir de maneira carinhosa.
“Quando esse agressor percebe que pode perder essa mulher, ele começa a pedir desculpas, mostrar um comportamento de remorso”, explica a especialista ouvida na reportagem.
Flores, presentes, declarações de amor e promessas de que a violência não vai se repetir podem fazer parte dessa etapa. Essa fase é um dos elementos que ajudam a explicar por que romper uma relação violenta pode ser tão difícil.
Giullia também contou que tentou pedir o divórcio várias vezes. Segundo ela, o ex-marido a perseguia, ligava repetidamente, ia até sua casa, mandava flores e presentes e chorava.
“Eu ficava longe dele e ele ia ao meu encontro. Ele me perseguia. Ele ligava 60 vezes, ele ia na minha casa, ele mandava flores, ele mandava presente, ele chorava”, relatou.
A aparente mudança de comportamento pode fazer a vítima acreditar que o agressor realmente vai mudar . Mas, quando a tensão volta, o ciclo recomeça.
O problema é que o ciclo tende a se repetir. Com o tempo, os intervalos entre os episódios de violência podem ficar menores.
“O ciclo da violência vai se tornando cada vez mais recorrente e menos espaçado. E o que os dados apontam é que, quando essa recorrência diminui, essa mulher está em risco de vida”, afirma Ana.
O ciclo pode ficar mais frequente e violento
A repetição das três fases não significa que elas permaneçam iguais. Com o tempo, os períodos de tranquilidade podem diminuir e os episódios de violência podem se tornar mais frequentes e intensos.
Por isso, a violência não deve ser entendida como uma sequência de episódios isolados . Um tapa, uma ameaça ou uma humilhação podem fazer parte de uma dinâmica maior de controle e agressão.
A violência doméstica também pode aparecer de outras formas. No caso relatado por Giullia, ela afirmou ter sofrido violência psicológica e sexual e disse que o ex-marido a fez parar de trabalhar.
Ela contou ainda que era obrigada a manter relações sexuais e que acordava com o marido sobre ela.
“Não importa se eu estiver casada com uma pessoa há 60 anos. A gente tem que concordar que ambas as partes querem ter aquela relação sexual”, afirmou Ana.
A violência patrimonial também pode ser usada para controlar a vítima. Isso pode ocorrer quando o agressor impede o acesso a dinheiro, bens ou outros recursos.
A Lei Maria da Penha reconhece diferentes formas de violência contra a mulher. Segundo a reportagem, uma nova modalidade, a violência vicária, também passou a ser considerada: ocorre quando o agressor usa filhos, parentes ou animais para atingir a mulher.
O empresário Ivo Vel Kos, de 48 anos, e a cirurgiã-dentista Giullia Falcão Kos, de 27 anos. — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Reconhecer o ciclo ajuda a entender que a violência não começa necessariamente com uma agressão física. Ela pode começar com controle, humilhações, ameaças e isolamento e, depois, evoluir para agressões mais graves.
Também ajuda a combater a ideia de que a vítima permanece no relacionamento porque “gosta de apanhar”.
"Muitas vezes essa mulher depende financeiramente desse homem. Ninguém gosta de apanhar. A gente precisa quebrar esse mito. Ninguém gosta de sofrer violência", relatou Amanda Sadalla, cofundadora da ONG Serenas, dedicada a prevenir as violências baseadas no gênero por meio da educação.
A responsabilidade pela violência é do agressor. Por isso, familiares, amigos, vizinhos e a sociedade também têm papel importante na identificação dos sinais e no apoio às vítimas.
GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico
O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.
O podcast 'Prazer, Renata' está disponível no g1 , no Globoplay, no Deezer, no Spotify, no Google Podcasts, no Apple Podcasts, na Amazon Music ou no seu aplicativo favorito. Siga, assine e curta o 'Prazer, Renata' na sua plataforma preferida .
Gathered from external sources. Rights to this text belong to whoever originally published it.