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Do vício em crack ao diploma —jovem usa educação para se reerguer | G1

Aos 34 anos, Thais conquistou o diploma do ensino médio por meio do Encceja. 'Coloquei na cabeça que não queria mais voltar para aquela vida', diz ela, em referência a quando era dependente química.

· 770 words

Thais Barbosa diz que sempre foi estudiosa, até que “conheceu as ruas”, nas palavras dela. Aos 13 anos, não voltou mais para a escola pública onde estudava, na zona norte do Rio de Janeiro.

“Você não tem mais vontade de fazer nada, é só aquilo ali. É só a droga. Virei usuária de crack e fiquei 12 anos na rua”, diz ela, que foi violentada mais de uma vez nesse período.

Hoje, aos 34 anos, enquanto conversa com a reportagem em frente a uma parede de sua casa (que tem um escudo do Flamengo enorme estampado), ela conta, orgulhosa, como mudou de vida. Conheceu seu atual marido ainda na fase crítica do vício, engravidou dele e, junto, o casal traçou um plano para se reerguer.

O eixo central era a educação. Thais queria ter uma qualificação profissional para arranjar um emprego e ter onde morar com estabilidade e segurança. Mas como, se ela havia parado de estudar na pré-adolescência? A solução foi se inscrever no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), prova destinada a quem não se formou na idade correta.

Thais, quando vivia na rua e era usuária de crack (à esq.), e agora, focada nos estudos (à dir.) — Foto: Arquivo pessoal

De primeira, ela já atingiu a pontuação necessária para ter o certificado de conclusão do ensino fundamental. Conseguiu trabalhar, em seguida, como camareira e arrumadeira.

O desafio maior era o diploma do ensino médio — por dois anos, ela fez a prova, mas não obteve o número mínimo de acertos em matemática.

“Você precisa de força de vontade. Tem de ter, senão, não adianta nem mãe, nem pai, nem tio te internando em clínica boa. Você precisa colocar na sua cabeça que não quer mais voltar para aquela vida”, diz.

Thais e o marido mantiveram-se firmes, longe do vício e disciplinados nas tentativas de passar no Encceja. Neste ano, depois de estudar por vídeos do Youtube, ela foi aprovada e obteve o diploma do ensino médio. Agora, busca uma oportunidade no mercado de trabalho, apesar da falta de experiência no currículo.

“Só preciso de uma chance. Mas conquistei o principal: estudei. Você pode tirar tudo de uma pessoa, mas o que ela aprendeu, ninguém tira”, diz. “E outra: mente vazia é oficina do diabo.”

➡️No Brasil, mais de 40% dos adultos com mais de 25 anos não haviam concluído a educação básica em 2025. Segundo a Pnad Contínua (IBGE), aproximadamente 30% sequer terminaram o ensino fundamental.

O Encceja passa a ser um caminho: a pessoa busca se preparar para a prova e, com o certificado de conclusão da escola, dá um passo em direção à reestruturação da vida.

Thais conquistou o diploma do ensino médio neste ano — Foto: Arquivo pessoal

Luiz estuda para ter um bom resultado no Encceja — Foto: Arquivo pessoal

É o caso de Luiz Ferreira Filho Tarcha, que, aos 57 anos, após décadas trabalhando na manutenção de antenas de TV, decidiu voltar aos livros.

“Estou me preparando para o Encceja. Fui expulso de casa aos 14 anos e parei de estudar na sexta série”, diz.

“É engraçado, né, faz uns 35 anos isso, e vou voltar. Não é fácil, não domino o conteúdo, não tenho paciência para redes sociais, estou todo atrapalhado, mas nada vai me fazer desistir de completar os estudos.”

Morando em Piancó, no sertão da Paraíba, ele sonha em conquistar o diploma do ensino médio para poder prestar vestibular e fazer faculdade de Libras (Língua Brasileira de Sinais).

“Trabalhei também como porteiro na Praia Grande [litoral de São Paulo]. É uma cidade turística, e vinha muita gente surda e muda. Poxa, eu ficava com vergonha de não poder servir até onde aquela pessoa precisava. Aí eu decidi: vou fazer Libras”, conta.

Ao saber das dificuldades enfrentadas por Luiz, Thais aconselha manter o foco: "Se a gente não tem ninguém para estimular, bota a mão no bolso e vai. Faz por você, bota na cabeça que vai conseguir".

Ela tenta ensinar a importância dessa dedicação e dessa persistência ao educar seu filho, Lorenzo, de 8 anos. O objetivo é bem claro: que ele não tenha de percorrer um caminho tão longo quanto o dela para chegar a uma vida estável.

Lorenzo tem o apoio do pai e da mãe nas lições de casa e nos estudos — faz inglês desde os 4 anos e começou recentemente a fazer aula de natação.

“Ele não vai passar pelas coisas que eu já passei, né? Quando estiver um pouquinho maior, já vai ser mais qualificado para poder sair da favela e ter uma vida normal lá fora.”

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Friday, October 9, 2026

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