Menino autista homenageia Ayres Rocha e se veste de apresentador | G1
Mãe de Davi Luiz Lopes Ribeiro, de 12 anos, disse que o filho acompanha os telejornais desde bebê e que chegou a conhecer o apresentador. Missa de sétimo dia da morte do jornalista ocorre nesta terça (20).
😍📺 Microfone na mão, crachá no peito e o olhar de quem está pronto para entrar no ar. Aos 12 anos, Davi Luiz Lopes Ribeiro já sabe bem o que quer ser quando pega seu microfone e começa a imitar um apresentador de telejornal.
Fã de jornalismo desde pequeno, ele escolheu uma figura especial para representar no Dia da Fantasia: o jornalista Ayres Rocha, que morreu aos 62 anos na última quarta-feira (14) , em Rio Branco , após complicações de um câncer. A missa de sétimo dia do jornalista ocorre nesta terça-feira (20), na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, no Centro da capital, às 1
A homenagem aconteceu durante uma atividade da semana da criança, na quinta (15), dia em que o corpo do apresentador foi enterrado . A fantasia já estava preparada antes de a família saber da notícia , e Davi foi vestido como apresentador do Jornal do Acre 2ª edição (JAC2) para representar o jornalista que ele acompanhava desde pequeno.
Ao g1 , a mãe de Davi, Izabelli Barboza, de 40 anos, contou que o filho tem transtorno do espectro autista (TEA) nível 3 de suporte , e demonstra interesse pelo jornalismo desde o primeiro ano de vida.
Davi Luiz Lopes Ribeiro, de 12 anos, se vestiu de Ayres Rocha para participar de uma atividade da semana da criança — Foto: Arquivo pessoal
Quando soube da morte de Ayres, Izabelli conversou com Davi sobre o que havia acontecido. Ela explicou que o filho ainda não compreende completamente o conceito de morte e costuma usar a palavra 'acabou' quando entende que não verá mais alguém ou que alguma coisa chegou ao fim.
“Quando falei que o Ayres tinha virado uma estrela no céu, ele olhou para mim e disse: ‘ Acabou Ayres’” , relatou.
A família não foi ao velório. Izabelli conta que teve vontade de se despedir pessoalmente, mas ficou receosa de que o ambiente e a movimentação provocassem uma desregulação em Davi, em um momento que já era delicado para os familiares do apresentador.
A intenção, agora, é levar o menino ao túmulo de Ayres no Dia de Finados, no próximo dia 2 de novembro, já que o jornalista está sepultado no mesmo cemitério e próximo ao local onde está enterrado o irmão dela.
Segundo Izabelli, a atenção do filho pelos telejornais foi o que despertou as primeiras suspeitas de que ele pudesse ter um desenvolvimento diferente do esperado para a idade. “Com 1 aninho, ele ficava na frente da TV na hora do Jornal Nacional e do Jornal do Acre. Ele não ligava para mais nada, a gente chamava e nada”, contou.
Contudo, o interesse de Davi pelo jornalismo não ficou restrito aos horários dos telejornais. Com a aposentadoria de Ayres , em novembro de 2024, ele também começou a assistir às edições pelo YouTube, repetindo os vídeos e imitando as falas.
“Ele adora o JAC2 e o Ayres. Assistiu por anos e fica revendo no YouTube. A repetição das falas dele, a atenção aos programas e a vontade de brincar de apresentar são uma das formas que ele demonstra esse interesse”, pontuou.
O jornalismo também foi o tema da festa de 12 anos de Davi — Foto: Arquivo pessoal
A paixão é tão presente no cotidiano que o microfone virou um dos presentes de Natal do menino . Como Davi não costuma se interessar muito por brinquedos, a mãe decidiu encomendar um modelo para ele brincar de jornalista.
O aniversário de 12 anos dele, comemorado em setembro deste ano, também teve o jornalismo como tema. A comemoração foi preparada com referências à profissão que tanto admira , em uma demonstração de como esse universo faz parte de sua infância.
Para Izabelli, acompanhar o filho encontrando no jornalismo uma fonte de interesse e conforto sempre foi motivo de carinho. Ela acredita que os telejornais, especialmente o apresentado por Ayres, se tornaram um lugar de segurança para Davi.
“Encontrar alguém, um profissional como o Ayres, e ver nele alguém que trouxe para ele [Davi] conforto e acolhimento, não tem palavras”, afirmou.
O sonho de Davi ganhou um capítulo especial em 27 de setembro de 2024 , quando ele visitou a Rede Amazônica e conheceu Ayres pessoalmente. A oportunidade surgiu por meio de uma terapeuta da clínica onde o menino fazia acompanhamento, que ajudou a organizar a visita.
No encontro, ele conheceu os estúdios, brincou de apresentar e teve a oportunidade de se ver no teleprompter, equipamento usado pelos jornalistas para acompanhar o texto durante a apresentação.
Izabelli lembrou que Davi começou a brincar de apresentar no estúdio da CBN, quando Ayres chegou por trás dele, e ele ficou tímido. A vergonha, porém, logo deu lugar ao carinho.
Davi conheceu o jornalista Ayres Rocha durante uma visita à Rede Amazônica, em 27 de setembro de 2024 — Foto: Arquivo pessoal
“No começo ele ficou meio tímido mas logo depois ele virou para um abraço e não largou mais o Ayres”, recordou.
O jornalista acompanhou o menino pelos estúdios dos telejornais e, na saída, foi até o carro com a família. Para Izabelli, foi um daqueles momentos que ficam guardados na memória. “Eu não tenho dúvidas de que foi o dia em que vi ele mais feliz”, contou.
A recepção de Ayres também deixou uma marca na mãe. Ela destacou que já admirava o profissional, mas que o cuidado demonstrado com o filho tornou essa admiração ainda maior.
“Ele foi de uma generosidade, carinho e gentileza com meu filho que nunca conseguirei retribuir”, afirmou.
José Ayres de Souza Rocha nasceu e cresceu em Rio Branco e começou a trabalhar na televisão em 1989. Inicialmente, conciliava a atividade com o trabalho como bancário, até que a oportunidade na então TV Acre abriu caminho para uma carreira de mais de três décadas na comunicação acreana.
Ao longo dos anos, passou por diferentes telejornais da emissora e assumiu a bancada do Jornal do Acre 2ª edição em 1995. Conhecido entre os colegas como “professor”, também representou o Acre na edição comemorativa dos 50 anos do Jornal Nacional, em 2019.
A morte do apresentador provocou manifestações de carinho de familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores.
Álvaro relembrou os momentos de alegria junto a Ayres — Foto: Arquivo/Instagram
Em uma homenagem publicada nas redes sociais, o filho dele, o advogado Álvaro Neto, falou sobre a dificuldade de se despedir do pai e a importância dos ensinamentos deixados por ele.
“Se hoje sou quem sou, existe muito de você em mim. Sua integridade, seu caráter e a pessoa maravilhosa que você foi e se tornou continuarão vivos naquilo que deixou em nós”, escreveu.
Ayres Rocha morreu aos 62 anos em Rio Branco — Foto: Arquivo pessoal
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