Veneno que paralisa e “derrete”: veja como caça a aranha-de-alçapão | G1
Escondida sob uma “tampa” camuflada no chão da mata, essa arquiteta da natureza transforma a própria toca em uma armadilha de emboscada.
Escondida em um túnel no solo, atrás de uma tampa praticamente indistinguível do chão da mata, a aranha-de-alçapão espera silenciosamente pela aproximação da presa . Em vez de persegui-la ou construir grandes teias, o aracnídeo aposta na camuflagem e em um bote rápido para caçar.
Difícil de observar na natureza , o comportamento foi registrado em detalhes pela bióloga Priscilla Diniz, em Alta Floresta (MT). Com a ajuda do também biólogo Rafael Ferraz, ela passou várias noites de prontidão até conseguir filmar a estratégia de caça.
Além de ter hábitos noturnos, a aranha-de-alçapão passa a maior parte da vida escondida no próprio refúgio , o que torna encontros como esse pouco comuns.
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Veneno que paralisa e “derrete”: veja como a aranha-de-alçapão caça em esconderijo perfeito — Foto: Rafael Prezzi Indicatti
Tudo começa com a construção da toca. A aranha escava um túnel no solo e faz um trabalho minucioso de acabamento.
A pesquisadora de pós-doutorado pela USP e Peking University, Dra. Nancy Lo-Man-Hung, explica que a profundidade varia bastante conforme a idade do animal, a espécie e o tipo de solo, podendo chegar de 10 a 40 centímetros nas adultas.
“A aranha reveste as paredes internas com seda produzida por ela mesma, misturada com partículas de solo e detritos vegetais, formando um tipo de ‘papel de parede’ que impermeabiliza e estabiliza a toca”, detalha Nancy.
Aranha-de-alçapão tem filhotes que medem de 2 a 3 centímetros — Foto: Rafael Prezzi Indicatti
O verdadeiro segredo, porém, está na entrada. A aranha fabrica uma tampa articulada — o famoso “alçapão” — tecida com seda, folhas e galhos, que se confunde com o chão da mata.
Para completar a armadilha, ela costuma esticar pequenos fios de seda do lado de fora.
“Eles funcionam como ‘linhas de alarme’. Qualquer toque ou vibração é transmitido diretamente a ela”, completa a pesquisadora.
O radar nas patas e os bastidores do registro
Esconderijo perfeito e veneno que paralisa e “derrete”: veja como caça a aranha-de-alçapão — Foto: Rafael Prezzi Indicatti
Como a aranha-de-alçapão tem visão bastante limitada, a caça depende de estímulos táteis e vibratórios .
Segundo Nancy, o próprio formato da toca ajuda a amplificar as vibrações do solo, captadas por pelos sensoriais especializados nas pernas da aranha, chamados tricobótrios.
Registrar esse comportamento exigiu paciência. A sensibilidade do animal aos movimentos tornou até mesmo a iluminação um desafio durante as gravações.
“A aranha é muito sensível ao movimento e um dos desafios foi a iluminação. Às vezes vinha uma mariposa grande, a aranha se assustava e fechava o alçapão. Foi um processo bem lento”, conta a bióloga Priscilla Diniz.
Quando o bote finalmente acontece, a estratégia revela a eficiência da emboscada.
“A aranha fica escondida no interior, aguardando a presa. Quando o animal se aproxima, ela abre a porta rapidamente, agarra com os pedipalpos, pernas e quelíceras, e arrasta para dentro”, descreve Nancy.
O vídeo gravado por Priscilla também revelou outros detalhes do ecossistema.
“Ficou um soldado cupim em cima do alçapão por muito tempo, mostrando o comportamento defensivo do cupim, batendo a cabeça contra a tampa”, lembra Priscilla.
Esconderijo criado pela aranha-de-alçapão — Foto: Rafael Prezzi Indicatti
No cardápio da aranha-de-alçapão entram insetos, como grilos, besouros e cupins, outros aracnídeos e até pequenos vertebrados, como lagartixas e sapinhos.
Mas será que ela oferece perigo para os seres humanos?
Especialista em aracnídeos, Nancy explica que as espécies encontradas na região não representam risco significativo e só picam para se defender, caso sejam manipuladas.
Se isso acontecer, a picada pode causar dor local ou inchaço, mas sem gravidade para pessoas saudáveis .
Para a presa, porém, o veneno desempenha um papel duplo .
“A ação neurotóxica imobiliza a presa rapidamente. Em seguida, inicia-se a digestão externa por meio de enzimas proteolíticas. A aranha injeta sucos digestivos para liquefazer os órgãos da presa antes de se alimentar”, conclui a pesquisadora.
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