Neta transforma produção do avô em marca de café especial em MG | G1
Café Cumbré nasceu há quatro meses, mas carrega uma história que começou há mais de 15 anos, Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas Gerais.
Na fazenda, o avô planta e colhe. Na cidade, a neta transforma os grãos em uma marca. Entre uma ponta e outra dessa história está o Café Cumbré, uma produção que começou há apenas quatro meses, mas que carrega uma trajetória construída ao longo de anos em Itapecerica , no Centro-Oeste de Minas Gerais.
Letícia Barros e o avô Vitor Penido de Barros, na fazenda em Itapecerica onde é plantado o café Cumbré — Foto: Letícia Barros/Divulgação
Esta é a 9ª reportagem da série “Itapecerica: Sabores, sons e memórias”, publicada pelo g1 aos domingos para contar a identidade cultural da cidade a partir de personagens, histórias e tradições que ajudam a preservar a memória da cidade.
Nesta edição, a história é do café Cumbré, um grão cultivado, colhido e torrado em Itapecerica, em uma tradição que atravessa gerações e transforma uma plantação iniciada pelo avô em um produto que hoje carrega a identidade da família e da própria cidade.
Letícia durante a torra do café Cumbré em Itapecerica — Foto: Letícia Barros/Divulgação
O café é produzido na fazenda de Vitor Penido de Barros, avô de Letícia Barros. É de lá que saem os grãos usados exclusivamente pela marca. Depois da colheita, eles passam por processos de seleção e são torrados para chegar à xícara com uma proposta que vai além do produto, contar a história de uma família e valorizar a produção local.
Letícia, que trabalhava como consultora tributária, decidiu fazer uma transição de carreira para se aproximar da rotina da fazenda e encontrar uma forma de agregar valor ao trabalho do avô.
Produtor de café há cerca de 15 anos, Vitor está em Itapecerica há mais de 35 anos e mantém uma propriedade que emprega mais de 70 pessoas. “Posso dizer que pausei a carreira tributária e pousei ao lado do meu avô”, conta Letícia.
Letícia estudou sobre o café produzido pelo avô em Itapecerica e descobriu qualidade especial do grão — Foto: Letícia Barros/Divulgação
A mudança começou há cerca de um ano e meio, quando Letícia passou a estudar a qualidade do café produzido na propriedade. Com apoio da Emater e de um agrônomo, ela começou a entender melhor os processos de produção, avaliação e classificação dos grãos.
O café da fazenda já era bem avaliado pela cooperativa para comercialização e exportação. Mas Letícia queria descobrir se havia ali um potencial diferente.
Para isso, fez cursos de gestão estratégica no agronegócio, estudou cafés especiais em Belo Horizonte e fez um curso de torra na Academia do Café. Também passou a acompanhar mais de perto todas as etapas da cadeia produtiva.
“Coloquei realmente a mão na massa no assunto café”, diz.
Ela também buscou entender o que seria necessário para certificar a produção como café especial. A fazenda, porém, não tinha todo o maquinário exigido pelos protocolos internacionais. A solução foi buscar parceiros e produtores de outras cidades.
Em Bom Sucesso, no Sul de Minas, parte do café foi preparada para passar por uma avaliação mais detalhada. O processo envolveu limpeza dos grãos, retirada de pedras, folhas e outros materiais. Até que, em dezembro de 2025, veio a descoberta que mudaria os planos de Letícia.
Uma parte do café que havia sido separada recebeu a classificação de café especial. “Foi aí que eu percebi que tinha um estudo novo mostrando que tinha café especial. Aquele mesmo café da fazenda do meu avô”, lembra.
A partir dali, nasceu a ideia de criar uma marca própria.
Um café que não quer ser apenas um produto
O Café Cumbré foi pensado para não ser apenas mais uma marca comercial. A proposta de Letícia é manter a ligação entre a bebida, a fazenda e a família.
O grão utilizado pelo Cumbré vem exclusivamente da propriedade do avô. A produção, a colheita e a torra são feitas em Itapecerica, formando uma cadeia curta e ligada ao território.
A iniciativa também busca mostrar que o município pode produzir e valorizar cafés que chegam diretamente ao consumidor, sem depender exclusivamente da comercialização por cooperativas.
“Além de carregar a história do meu avô, é mostrar para os demais produtores de Itapecerica que existe essa possibilidade”, explica Letícia.
A marca também aposta em uma produção com preocupação ambiental. Na fazenda, a casca do café é reaproveitada como parte da alimentação das vacas e, depois, o adubo retorna para o cafezal.
“É uma realidade sustentável mesmo, que é a realidade da fazenda hoje. Não quero me afastar desse cuidado com a fazenda e nem com o grão”, afirma.
A história do Cumbré é, sobretudo, uma história de família. Vitor Penido de Barros chegou a Itapecerica há mais de três décadas e construiu a trajetória como produtor rural. Para Letícia, estar mais próxima dele também significa conhecer melhor uma parte da própria história.
Ela conta que o avô mantém uma relação próxima com os funcionários e que se sente útil no dia a dia da propriedade. É nesse cenário que a neta encontrou um novo caminho profissional.
A consultoria tributária deu lugar ao café. O escritório, aos poucos, abriu espaço para a fazenda. E o conhecimento adquirido nos cursos começou a se transformar em um produto que leva o nome da família para além da propriedade.
Café Cumbré é plantado, colhido e torrado em Itapecerica — Foto: Letícia Barros/Divulgação
Até o nome da marca carrega referências familiares. “Cumbré” é uma licença poética mineira criada a partir de cumbre, palavra em espanhol que significa “cume”, ou o topo de uma montanha. As avós de Letícia têm origem espanhola, e o nome também é uma forma de homenageá-las.
“Cumbré honra as minhas avós. Cume, em espanhol, é Cumbre, o topo da montanha, que cabe em uma xícara”, explica.
A expressão também resume a intenção da marca que é transformar em uma experiência pequena, concentrada e afetiva tudo o que existe por trás daquele café.
Apesar dos planos de crescimento, Letícia não pretende transformar o Cumbré em uma marca de grande volume.
A ideia é preservar o caráter artesanal e a história por trás da produção. Ela planeja criar um e-commerce próprio e ampliar a presença da marca, inclusive com a possibilidade de chegar ao Mercado Central de Belo Horizonte.
“Não é uma marca de volume. Não quero avançar nesse sentido. Quero aconchego e não volume”, afirma.
Hoje, as redes sociais são o principal caminho para quem quer conhecer e comprar o café. A marca também já começou a circular entre admiradores do produto e ganhou espaço em eventos, como o Festival de Gastronomia de Itapecerica.
O Sebrae também identificou na iniciativa uma oportunidade de valorização da produção local, e o Cumbré passou a integrar o programa Prepara Gastronomia .
Para Letícia, porém, o objetivo é maior do que vender café. “É o momento de pausar e realmente tomar um café coado.”
E talvez seja justamente aí que a história do Cumbré encontre a de Itapecerica, em uma cidade marcada por sabores, sons e memórias, uma xícara pode carregar a terra onde o café nasceu, as mãos que cuidaram dele e a história de uma família que decidiu transformar uma tradição em futuro.
A história do Cumbré, afinal, ainda está começando. Mas a raiz dela está fincada há anos na terra de Itapecerica.
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