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Saturday, August 29, 2026

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Gastos com fumo sobem 12,2% em Campinas mesmo com avanço no número de pessoas que deixaram de fumar | G1

Levantamento do IPC Maps estima R$ 348,4 milhões em despesas com produtos ligados ao tabagismo em 2026; economista cita aumento de preços e possível ampliação do consumo entre quem mantém o hábito.

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As famílias de Campinas devem gastar R$ 348,4 milhões com cigarros, charutos, fumo para cachimbo, isqueiros, fósforos e outros produtos relacionados ao tabagismo em 2026. O valor representa uma alta de 12,2% em relação aos R$ 310,5 milhões estimados para 2025, segundo levantamento do IPC Maps.

Para o economista e professor da PUC-Campinas, Eli Borochovicius, o crescimento ocorre em um contexto que não necessariamente indica aumento do número de fumantes e pode estar relacionado ao encarecimento dos produtos ou à intensificação do consumo entre quem ainda mantém o hábito.

"O programa de controle do tabagismo nas Unidades Básicas de Saúde de Campinas tem ampliado o atendimento e os números indicam uma considerável queda no número de fumantes", afirma.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, o número de pessoas inscritas no programa que deixaram de fumar dobrou em dois anos. Saltou de 784, em 2023, para 1.568, em 2025.

Neste sábado (29) é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Fumo.

Na avaliação de Borochovicius, se há uma redução de fumantes e os gastos aumentaram, "é possível inferir que os preços subiram acima da média da inflação ou ainda, o que pode ser mais grave, o consumo daqueles que se mantêm fumando foi ampliado", afirma.

Segundo o especialista, os números sugerem que as políticas públicas voltadas à redução do tabagismo têm apresentado resultados, mas o comportamento do mercado e dos consumidores pode estar produzindo efeitos que aumentam o volume financeiro movimentado pelo setor.

"Então, o programa de controle mostra eficiência na redução do hábito de fumar pela população, mas o mercado reage com reajustes de preço ou ainda, aqueles que mantêm o hábito de fumar passaram a consumir mais, elevando o gasto individual", explica.

A atendente Yasmin Jennifer, de 25 anos, conta que fuma desde a adolescência e consome, em média, um maço de cigarros por dia. "De quanto acordo até a hora de dormir", avisa.

Questionada se costuma contabilizar o gasto mensal com cigarros, adota uma resposta direta: "Prefiro não fazer".

Considerando um maço por dia, o consumo chega a 30 maços por mês, tornando o cigarro uma despesa permanente no orçamento.

O empresário Willian de Oliveira, de 30 anos, é um ex-fumante, mas trabalha diretamente com o produto. Abriu há cinco meses uma adega com tabacaria na região do bairro Carlos Lourenço.

Ele conta que parou de fumar pensando na saúde. "Melhora, né? É bom", afirma. No entanto, reconhece que há um público que consome o tabaco.

"É um produto que não sai de linha, não de moda, o pessoal procura e sempre funciona bem como venda casada", afirma, citando também a venda de bebidas.

Já a atendente Giovanna Machado, de 24 anos, que trabalha em uma tabacaria, conta que a busca pelo tabaco em vez do cigarro tradicional é mais forte pelo público mais jovem.

"O pessoal estava consumindo mais pod [cigarro eletrônico], tinha dado uma caída em relação ao fumo. Mas com a proibição, voltou a aumentar [o interesse]. Até mesmo o público que fuma um cigarro, viu que aumentou o valor, e começou a fumar o tabaco", destaca.

Giovanna Machado, de 24 anos, atendente de uma tabacaria em Campinas, diz que jovens tem procurado mais o tabaco depois da proibição do cigarro eletrônico — Foto: Fernando Evans/g1

Além do crescimento acima da média, Campinas também ampliou sua relevância no mercado regional de produtos ligados ao tabagismo.

Em 2025, o município concentrava 36,1% do potencial de consumo da Região Metropolitana de Campinas (RMC). Em 2026, essa participação saltou para 37,3%, equivalente a mais de um terço dos R$ 933,3 milhões projetados para os 20 municípios da região.

O desempenho local superou o avanço regional. Enquanto Campinas registrou crescimento de 12,2%, a RMC apresentou aumento de 8,6% no mesmo período.

Os dados reforçam o peso econômico da metrópole dentro do mercado regional. Apesar de reunir 36,5% dos domicílios da RMC, Campinas concentra 45,2% de todas as residências enquadradas na classe A da região, fator que contribui para elevar o potencial de consumo em diversos segmentos.

O estudo do IPC Maps mostra que as classes B e C continuam sendo o principal motor do mercado de produtos para fumantes. Juntas, elas respondem por quase 81% de todo o potencial de consumo de Campinas.

A classe C lidera em valores absolutos, com potencial estimado de R$ 163,6 milhões em 2026, o equivalente a 47% do mercado local. A classe B aparece logo atrás, com R$ 118,2 milhões e participação de quase 34%.

Segundo o levantamento, a força da classe C está diretamente relacionada ao seu tamanho. Das 436.772 residências urbanas existentes em Campinas, quase metade pertence a essa faixa de renda. São 216.944 domicílios, ou 49,7% do total.

Já a classe B representa 26,9% das residências da cidade, mas responde por uma parcela maior do mercado, de 33,9%, indicando um gasto médio superior por família.

O levantamento aponta aumentos significativos no potencial de gastos com produtos ligados ao tabagismo nos extremos de renda.

Entre as famílias das classes D e E, o potencial de consumo avançou 45,2% em apenas um ano, saltando de R$ 19,5 milhões para R$ 28,3 milhões.

Marcos Pazzini, responsável pelo IPC Maps, pondera que há impactos claros do aumento de impostos nos valores aferidos, mas que essa expansão nas famílias das classes D e E pode ter relação com melhora da situação econômica.

"A diminuição do desemprego e o ganho de poder aquisitivo podem indicar aumento do mercado consumidor", avalia Pazzini.

Nas classes mais altas também houve crescimento expressivo. O potencial de consumo da classe B aumentou 24,9%, enquanto a classe A registrou alta de 21,1%.

Por outro lado, a classe C apresentou estabilidade, com leve retração de 0,7%, passando de R$ 164,8 milhões para R$ 163,6 milhões.

Para Borochovicius, o aumento observado nas faixas de menor renda é preocupante.

"Ainda que o maior número absoluto de gastos com o fumo em Campinas esteja na classe B, chama a atenção que o percentual de gastos aumentou em 45,2% para a população das classes D e E. Isso pode indicar que, proporcionalmente, o orçamento das famílias de menor renda está sendo mais impactado, tornando-se um gasto mais significativo para quem já possui menos recursos, reduzindo a capacidade de consumo em áreas essenciais como alimentação e saúde", avalia.

Na avaliação do economista, a disparidade sugere que os impactos financeiros do tabagismo não são sentidos da mesma forma entre os diferentes grupos sociais.

O cigarro causa 8 milhões de mortes por ano. Em compensação, os benefícios de deixar o tabaco são quase imediatos — Foto: Geralt para Pixabay

O cruzamento dos dados de consumo com o número de domicílios permite estimar o gasto anual médio por residência.

Em Campinas, os lares da classe A apresentam a maior média anual, com R$ 1.262,81 destinados a produtos para fumantes. Na classe B, o valor é de R$ 1.007,82 por residência.

Entre as famílias da classe C, a média é de R$ 754,35 ao ano. Já na classe D/E, o gasto estimado cai para R$ 391,80.

Na prática, uma residência da classe A movimenta, em média, mais de três vezes o valor registrado por um domicílio das classes D e E.

Apesar do avanço dos gastos, Borochovicius ressalta que as despesas com produtos ligados ao tabagismo ainda representam uma parcela relativamente pequena dos orçamentos familiares quando comparadas a outras categorias.

Segundo sua análise dos dados do IPC Maps, o valor destinado ao fumo equivale a 1,72% dos gastos com habitação, 3,62% das despesas com alimentação e bebidas e 4,11% dos gastos relacionados a veículos próprios.

"Isso demonstra um peso relativamente pequeno em comparação a despesas essenciais. Isso revela um lado positivo: o impacto financeiro direto do fumo sobre o orçamento das famílias é limitado", afirma.

Ainda assim, o economista ressalta que os efeitos podem ser mais significativos entre os grupos de menor renda, justamente onde o crescimento dos gastos foi mais intenso entre 2025 e 2026.

Para ele, as diferenças observadas entre Campinas e o restante da região metropolitana mostram que o comportamento de consumo varia conforme as características socioeconômicas de cada localidade.

"Os dados sugerem que o padrão de consumo e de gastos com o fumo varia conforme o recorte geográfico e socioeconômico, reforçando a necessidade de políticas públicas diferenciadas", conclui.

Imagem aérea de Campinas na região do centro — Foto: Reprodução/EPTV

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