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Jovem criou site pra localizar desaparecidos em terremoto na Venezuela | G1

Diante da ausência de dados do governo venezuelano, Jorge Bastidas criou site com ajuda de IA para que parentes pudessem buscar informações sobre entes desaparecidos.

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Jorge Bastidas mostra em seu celular a plataforma Desaparecidos Terremoto Venezuela — Foto: Daniella Fernández Realin

Um amigo ligou para Jorge Bastidas para avisá-lo dos terremotos na Venezuela . Embora parecesse assustado, Jorge duvidou que fosse algo grave. O país já havia passado por tantas crises que ele descartou a possibilidade de voltar a se surpreender.

O programador venezuelano de 32 anos, que mora na Argentina , estava em Bogotá a trabalho. Ele cancelou todas as reuniões e passou a tentar entrar em contato com sua família, mas as ligações não completavam. Os colegas venezuelanos que estavam ao seu redor também não conseguiam se comunicar com seus familiares.

Meia hora depois dos dois terremotos ocorridos no dia 24 de junho , Bastidas constatou, no chat de um canal de notícias no YouTube, que a maioria dos usuários pedia informações sobre entes queridos que não seguiam incomunicáveis.

"Eu gostaria de ter podido estar lá e ajudar de uma forma mais direta, mas não tinha como fazer isso", relata, quase quatro meses após os tremores. "Senti tanta impotência por estar fora do país que procurei outra forma de ajudar."

Bastidas decidiu criar um portal chamado "Desaparecidos Terremoto Venezuela ".

"A ideia principal era que houvesse pelo menos um lugar onde as pessoas pudessem registrar esses relatos (sobre seus familiares) e começar a entrar em contato umas com as outras."

Durante quase quatro meses, a página recebeu 82.610 registros de pessoas desaparecidas.

Após depurar os dados e eliminar duplicidades com a ajuda de voluntários que verificam as informações, o portal contabiliza pelo menos 29.486 pessoas que ainda não puderam ser contatadas.

Não há como saber com certeza o que aconteceu com essas pessoas, já que, até o momento, o governo venezuelano não divulgou uma lista de desaparecidos nem criou um canal oficial para registrar esses casos.

Outra plataforma independente chamada Venezuela Reporta estima, com base nos registros recebidos dos cidadãos, que há 41.357 pessoas não contatadas.

"Sinto indignação porque o governo tem os recursos para estimar o número de desaparecidos, procurá-los e fornecer informações verificadas à população, e não o faz", diz Bastidas.

Questionado sobre a falta de números em 11 de julho, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela , Jorge Rodríguez, afirmou: "Nós não podemos nos basear em especulações, mas sim na realidade".

Em 4 de agosto, o governador do Estado de La Guaira, José Alejandro Terán, disse que havia 1.579 desaparecidos.

Site registra pessoas que ainda não foram contatadas após o terremoto de junho — Foto: Reprodução

Com a ajuda do Claude, a ferramenta de inteligência artificial da empresa Anthropic, Bastidas projetou e publicou o site quatro horas e meia após os terremotos.

"No início eu não tinha ideia da dimensão dos danos. Só soube disso algumas horas depois, quando já estava trabalhando na ferramenta", conta, de Buenos Aires.

Inicialmente, o portal oferecia um formulário de cadastro que incluía a foto da pessoa desaparecida, seu nome e sobrenome, os dados da pessoa que fazia o registro e seu número de telefone, além da data e do local do último contato.

Todos os registros eram adicionados a uma base de dados construída com IA. Bastidas atribuiu diferentes funções de engenharia à ferramenta para que trabalhassem em paralelo.

"A inteligência artificial atuou como a equipe de programação da plataforma", explica.

Na madrugada de 25 de junho, Jorge enviou o link de sua iniciativa a parentes, amigos e conhecidos. Uma amiga compartilhou o projeto em suas redes sociais, e o programador percebeu que a plataforma estava funcionando.

"Chegou um momento em que o tráfego era tão alto que a página saiu do ar e tive que mudar toda a infraestrutura para torná-la mais robusta."

Naquele dia foi registrado "o pico mais alto" de tráfego: cerca de 800 mil usuários, um volume que Bastidas não esperava.

No dia seguinte, começaram a chegar informações que pouco tinham a ver com as pessoas desaparecidas.

"Começamos a receber registros de brincadeira, memes, por assim dizer: pessoas cadastrando Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez ou Diosdado Cabello na plataforma."

Em resposta a esse conteúdo, ele reforçou as restrições sobre os dados que poderiam ser inseridos no portal, bloqueou determinados "padrões de nomes" e adicionou um painel de moderação, além da opção de denunciar conteúdo.

"Muita gente acompanhava a página e, quando via informações que não correspondiam à realidade, fazia uma denúncia. Chegaram até a enviar fotos de nudez, então implementamos filtros para impedir que esse tipo de conteúdo continuasse chegando."

Na quinta-feira, 25 de junho, Bastidas foi contatado pela LAB-CO, um laboratório de inovação que atua no México, que lhe ofereceu um modelo de reconhecimento facial capaz de comparar os retratos das pessoas registradas como desaparecidas.

O economista venezuelano Santiago Rosas, cofundador da LAB-CO, explicou à BBC Mundo (serviço de notícias da BBC em espanhol) que a ferramenta de reconhecimento facial teve como base o identIA, um modelo de IA que facilita a identificação de pessoas falecidas por meio de suas tatuagens.

"Antes dos terremotos, ela já estava sendo utilizada pelos serviços forenses de vários Estados do México e da Guatemala", afirma Rosas. "O que fizemos foi adaptá-la especificamente para o caso venezuelano."

Durante as duas primeiras semanas após os terremotos, a seção de reconhecimento facial foi visitada por 19 mil usuários, segundo o Google Analytics.

"Foi a segunda ferramenta com maior tráfego nos primeiros dias", destaca Bastidas. "Pudemos ver que as pessoas a utilizavam para verificar se seu familiar estava ali e procurar mais rapidamente, ou para ver se conseguiam reconhecer pessoas", inclusive em hospitais.

As imagens também ajudaram a eliminar registros duplicados.

As pessoas procuraram seus familiares em listas escritas à mão e afixadas do lado de fora dos hospitais — Foto: Getty Images via BBC

Enquanto Jorge lidava com a operação da página a partir de seu computador, Daneli Hernández mobilizava seus contatos na Venezuela para obter informações diretas sobre as vítimas.

A advogada venezuelana, que vive na Argentina e colabora com Bastidas há anos, viu nas redes sociais que circulavam listas manuscritas de pessoas que haviam chegado aos hospitais.

Ela entrou em contato com familiares e amigos que trabalhavam em unidades de saúde e pediu que conseguissem esses registros, para compará-los com as fichas de pessoas desaparecidas registradas na página.

"Os médicos fizeram tudo o que puderam para tentar obter essas listas e divulgar as informações", conta Hernández. "Evidentemente, nenhum hospital está preparado para lidar com a quantidade de informações que estava recebendo."

Uma equipe de 15 a 20 pessoas dedicou-se a transcrever essas listas para computadores. Em seguida, elas cruzaram os dados entre si para depurá-los e identificar se havia nomes repetidos em diferentes listagens.

Depois que as listas foram unificadas, eles carregaram essas informações no site para identificar quem poderia ser marcado como encontrado.

Hernández afirma que obtiveram mais de 3 mil registros, provenientes de quase todos os hospitais de Caracas e La Guaira.

"Sentíamos uma grande responsabilidade de tentar ajudar as pessoas a se reencontrarem", afirma. "Quando começamos a receber relatos de pessoas que haviam morrido, foi um golpe muito duro porque sabíamos que elas não voltariam para suas famílias."

Alceo Angelini foi um dos milhares de usuários que registraram um parente na plataforma criada por Jorge Bastidas.

Durante os dois dias em que ninguém teve informações sobre o paradeiro de seu primo em La Guaira, ele lembra que sua única esperança foi cadastrá-lo nos portais independentes de busca.

"A única forma que tínhamos de registrar o desaparecimento eram essas ferramentas que surgiram por iniciativa da sociedade civil, porque por parte do governo não recebemos nenhuma comunicação", diz Alceo.

Embora seu primo tenha reaparecido por conta própria, ele afirma que registrá-lo "foi útil, pelo menos para nós, para ter a tranquilidade de colocá-lo em algum lugar, de que alguém estava nos ajudando".

"Ele me contou que chegou a um lugar, alguém o reconheceu e se assustou porque o tinha visto como desaparecido em alguma das plataformas", recorda Alceo.

Ao falar com a BBC Mundo, ele visitou o portal de Jorge e constatou que seu primo ainda aparecia como "ainda sem contato".

Jorge Bastidas atribui a falha ao fato de que cada alteração nos registros precisa ser revisada e a equipe de voluntários responsável por essa tarefa é reduzida.

A página sofreu dois ataques durante os primeiros dias em que esteve no ar. Em um deles, 15 mil registros foram alterados, explica Bastidas, proprietário da Software Empire, uma empresa que desenvolve programas de computador para outras empresas.

"Restabelecemos os registros originais porque temos um backup diário da base de dados. Mas houve informações que realmente perdemos, cerca de 1,2 mil registros."

Além disso, ele denuncia que a plataforma recebeu ataques de bots . Esses episódios obrigaram a equipe a "limitar ainda mais a edição das informações e implementar mais controles de segurança".

Para avançar nas tarefas de verificação, Bastidas planeja abrir uma central de atendimento para entrar em contato com todos os números disponíveis na base de dados de sua plataforma e confirmar cada um dos registros exibidos pela página.

"Não deveríamos esperar pelo Estado para agir", afirma. "Ainda não sabemos a real dimensão dos danos. Vou me sentir satisfeito quando puder dizer às pessoas: 'É isso que temos'."

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Friday, October 23, 2026

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