Médica denunciada por morte de criança por escorpião em Piracicaba | G1
Patrícia Cristina Guidio se formou em 2023, mesmo ano em que atendeu Jamily Vitória Duarte, de 5 anos, em Piracicaba (SP). Profissional vai responder por homicídio culposo e falsidade ideológica.
Patrícia Cristina Guidio, médica que atendeu Jamily na UPA Vila Cristina em Piracicaba — Foto: Cremesp/Reprodução
Patrícia Cristina Guidio, médica denunciada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) pela morte da criança Jamily Vitória Duarte, vítima de uma picada de escorpião em Piracicaba (SP), era recém-formada quando realizou o atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Vila Cristina.
Patrícia concluiu o curso de medicina pela Universidade Brasil em 2023, mesmo ano em que atendeu Jamily, segundo o registro no Conselho Regional Medicina Estado São Paulo (Cremesp). A médica tem registro ativo no Cremesp.
Segundo o depoimento dela à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Piracicaba, em 2024, tratava-se do terceiro plantão dela na unidade de atendimento.
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Um dos apontamentos feito pelo MP na denúncia da médica foi a falta de preparo técnico . A denúncia, formalizada em julho de 2026 e já aceita pela Justiça, acusa a profissional de homicídio culposo (quando não há intenção de matar) fundamentado na negligência e na falta de preparo técnico (imperícia e inobservância de regra técnica da profissão).
Além do homicídio, Patrícia Cristina Guidio responderá pelo crime de falsidade ideológica .
Segundo a denúncia, que usou como base uma investigação da Polícia Civil e laudos do IML de Piracicaba, a médica inseriu informação falsa no prontuário da vítima, registrando que havia prescrito o soro antiescorpiônico para a criança. Já a família de Jamily sempre denunciou a demora para a administração do antídoto.
A advogada, Caroline Fonseca Raimundo, que representa a médica, informou que não tem interesse em comentar detalhes do caso enquanto não há julgamento. Além disso, afirmou que o processo corre em segredo de Justiça e que a "exposição nominal, associada a acusações ainda não julgadas, pode produzir danos profissionais e reputacionais graves e de difícil reparação" à cliente dela.
Jamily Vitória Duarte, de 5 anos, morreu após ser picada por escorpião em Piracicaba (SP) — Foto: Arquivo pessoal
Em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo , a mãe de Jamily, auxiliar de limpeza Patricia das Graças Adriana Duarte, relembrou os momentos da tentativa de socorro da filha e criticou a conduta da médica.
"Foi um momento de terror que passei com ela. Minha filha estava morta viva. Em nenhum momento, ela [médica] se preocupou em querer fazer algo. Com as palavras dela, ela falou para mim que não ia poder socorrer porque ali não tinha o soro, e tinha o soro", afirma a mãe de Jamily.
Patricia das Graças Adriana Duarte, mãe de Jamily, criança morta por picada de escorpião em Piracicaba — Foto: Edijan Del Santo/EPTV
A denúncia foi fundamentada em um laudo do Instituto Médico Legal (IML) de Piracicaba e nas investigações policiais, que foram finalizadas em 23 de junho de 2026, dois anos e 10 meses após a morte da criança.
O MP informou que não pediu a responsabilização criminal por parte da Organização Social de Saúde (OSS) Hospital Mahatma Gandhi, que administrava a unidade de saúde à época.
O Ministério Público ainda negou à médica um Acordo de Não Persecução Penal, mecanismo que poderia evitar a abertura de um processo criminal.
A decisão foi mantida pela Procuradoria-Geral de Justiça em 20 de agosto de 2026. Com isso, o caso seguirá na 3ª Vara Criminal de Piracicaba, ainda sem data para audiência de instrução e julgamento.
Ministério Público do Estado de São Paulo em Piracicaba — Foto: Yasmin Moscoski/g1
Jamily Vitória Duarte foi picada por um escorpião na noite de 11 de agosto de 2023 e faleceu na manhã do dia seguinte, após ser levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Vila Cristina. A família da vítima alega que houve demora para que a criança recebesse o soro antiescorpiônico no local.
Em 2024, o caso foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Piracicaba, que recomendou à Polícia Civil a realização de exames grafotécnicos para apurar uma possível falsificação de assinatura no livro de retirada de medicamentos da unidade, além da análise de imagens para verificar relatos sobre a disponibilidade do soro no momento do atendimento.
Atualmente, a UPA Vila Cristina retornou para a administração direta da prefeitura municipal.
Além do processo criminal, os familiares da vítima movem uma ação na esfera cível que busca a responsabilidade civil do caso e uma indenização.
Neste processo cível, o andamento foi marcado por um erro administrativo do Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo (Imesc).
Apesar de a Justiça ter determinado, em janeiro de 2025, que a perícia para avaliar os prontuários fosse exclusivamente documental e indireta, o Imesc realizou duas convocações para que a criança, falecida há três anos, comparecesse a exames presenciais .
O órgão admitiu uma inconsistência em seu sistema de automação de agendamentos, informou que abriu investigação interna para corrigir a falha e que o laudo documental está em fase de elaboração.
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