Fumaça em Manaus: por que a poluição persiste mesmo com menos fogo | G1
Segundo especialista consultada pelo g1, a intensidade da fumaça não depende apenas do número de incêndios, mas também da falta de chuva, da localização das queimadas e das condições atmosféricas que interferem na dispersão dos poluentes.
Manaus coberta de fumaça. — Foto: Alexandre Pereira
A fumaça que encobre Manaus em 2026 faz parte de um problema recorrente no Amazonas desde, pelo menos, 2015. Ao longo da última década, a capital registrou episódios de poluição associados às queimadas, com períodos de céu encoberto e piora na qualidade do ar.
Segundo especialista consultada pelo g1 , a intensidade da fumaça não depende apenas do número de incêndios, mas também da falta de chuva, da localização das queimadas e das condições atmosféricas que interferem na dispersão dos poluentes.
Em 2015, Manaus e municípios da Região Metropolitana enfrentaram dias consecutivos de fumaça, cheiro de queimado e redução da visibilidade. Naquele ano, o Amazonas registrou 13.419 focos de queimadas, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Nos anos seguintes, os incêndios continuaram a atingir o estado, com aumento expressivo em algumas temporadas. Em 2020, foram registrados 16.729 focos. Em 2022, o número chegou a 21.217 e, em 2023, ficou em 19.601.
No mesmo ano, a seca extrema afetou os rios, a navegação e o abastecimento de comunidades do interior. Em Manaus, a fumaça das queimadas comprometeu a qualidade do ar. O Rio Negro também atingiu o menor nível em mais de 120 anos de medições, recorde superado na seca de 2024 .
Em 2024, o Amazonas registrou 25.499 focos de queimadas, o maior número entre os anos apresentados nesta série. Em 2025, os registros caíram para 4.545, em um período de chuvas acima da média. Neste ano, até outubro, foram contabilizados 7.865 focos. Desde junho, as chuvas estão bem abaixo da média, segundo a análise apresentada pela meteorologista Andrea Ramos.
Veja o número de focos de queimadas registrados no Amazonas:
Infográfico: ranking de registros de focos de incêndio no Amazonas. — Foto: Rede Amazônica
Veja o registros de focos de incêndio no Amazonas entre 2015 e outubro de 2026:
Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
Por que a fumaça pode ser intensa mesmo com menos queimadas?
A quantidade de focos de incêndio não determina, sozinha, a concentração de fumaça em Manaus. A localização das queimadas, a duração da estiagem, a direção e a velocidade dos ventos, além da estabilidade da atmosfera, influenciam a quantidade de poluentes que chega à capital e o tempo que permanece próxima ao solo.
Em entrevista ao g1 , a meteorologista Andrea Ramos explicou que a fumaça produzida por incêndios no interior do Amazonas pode ser transportada até Manaus. Assim, mesmo quando as queimadas ocorrem longe da área urbana, seus efeitos podem ser sentidos pela população da capital.
Ponte Jornalista Phelippe Daou encoberta por fumaça em Manaus — Foto: Jucélio Paiva/Rede Amazônica
"Partículas finas podem permanecer suspensas por horas ou dias. A Defesa Civil já analisou fumaça chegando a Manaus a partir do sul do Amazonas, Rondônia e norte de Mato Grosso, enquanto em outros episódios a origem predominante esteve na Região Metropolitana ou no leste amazonense", declarou.
A falta de chuva agrava esse processo. Após semanas ou meses de estiagem, a vegetação e o solo perdem umidade, facilitando a propagação do fogo. Sem precipitação, as partículas suspensas no ar também permanecem por mais tempo na atmosfera.
"Quando há semanas ou meses com pouca chuva, a vegetação e o solo perdem umidade. O fogo se propaga com maior facilidade e a fumaça permanece mais tempo na atmosfera", disse a especialista.
Os ventos também interferem na dispersão dos poluentes. Quando estão fracos e a atmosfera permanece estável, a fumaça tende a se acumular perto da superfície. Nessas condições, a poluição pode atingir concentrações elevadas mesmo quando o número de focos é inferior ao registrado em temporadas anteriores.
A localização dos incêndios também faz diferença. Queimadas em áreas de onde os ventos transportam a fumaça em direção a Manaus podem afetar a qualidade do ar na capital. Por isso, o total de focos registrados em todo o estado não permite, isoladamente, estimar a intensidade da poluição na cidade.
El Niño e estiagem aumentam as condições favoráveis ao fogo
O El Niño pode agravar as condições de seca e calor na Amazônia ao alterar a circulação atmosférica e reduzir as chuvas. O fenômeno, entretanto, não provoca diretamente os incêndios.
Segundo Andrea Ramos, é necessário distinguir as condições climáticas que favorecem a propagação do fogo das causas que dão início às queimadas. A vegetação mais seca facilita a expansão das chamas, mas o início do incêndio depende de uma fonte de ignição.
"Para evitar simplificação, vale dizer: o El Niño aumenta a predisposição à seca e ao calor; o incêndio depende da existência de uma fonte de ignição e do uso do fogo", declarou.
Em 2023, além da influência do El Niño, o aquecimento anormal do Atlântico Tropical Norte contribuiu para as condições climáticas extremas na região. A combinação de temperaturas elevadas e estiagem afetou os níveis dos rios e agravou os problemas relacionados à fumaça.
O cenário ajuda a explicar por que a poluição pode variar de um ano para outro, mesmo quando o número de focos de queimadas não apresenta a mesma proporção de aumento ou redução. A chuva interfere tanto na umidade da vegetação quanto na remoção de partículas da atmosfera, enquanto os ventos determinam para onde a fumaça é transportada.
Bombeiros combateram mais de 19 mil focos de incêndio em 2026
Entre 1º de junho e 7 de outubro de 2026, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas informou ter combatido 19.224 focos de incêndios urbanos e florestais. Desse total, 3.996 foram registrados em Manaus e 15.228 no interior do estado.
As ações envolveram 3.346 ocorrências e contaram com a participação de cerca de mil servidores, entre bombeiros militares e brigadistas.
Em maio, a corporação iniciou a operação Amazonas+Verde, voltada ao combate aos incêndios florestais, ao enfrentamento de ilícitos ambientais, à educação ambiental e à ampliação da capacidade operacional.
Segundo os bombeiros, entre maio de 2025 e maio de 2026, o número de municípios com bases permanentes da corporação passou de 11 para 25. O efetivo também aumentou, de 692 militares em 2019 para 1.651 em 2026, após a realização de concurso público.
A estrutura recebeu ainda 20 novas viaturas, das quais 17 são picapes equipadas com kits de combate a incêndio, além de 453 equipamentos multimissão.
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