O que ajuda o mico-leão-dourado também pode representar um risco | G1
Estudo revela que a conexão entre fragmentos florestais, essencial para a conservação da espécie, pode ampliar a mortalidade durante surtos de febre amarela.
Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia) — Foto: henrique_bitencourt
A conexão entre fragmentos de Mata Atlântica, normalmente benéfica para a sobrevivência do mico-leão-dourado, pode ter um efeito diferente durante uma epidemia de febre amarela .
Um estudo recente publicado no Journal of Applied Ecology identificou que áreas mais conectadas apresentaram menor sobrevivência dos animais durante o surto registrado entre 2017 e 2019.
A pesquisa analisou o mico-leão-dourado ( Leontopithecus rosalia ), espécie ameaçada de extinção encontrada na Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Segundo o estudo, aproximadamente 30% da população foi perdida durante o período da epidemia .
Os pesquisadores utilizaram dados de três décadas de monitoramento, coletados entre 1989 e 2022. Para avaliar os efeitos da febre amarela, compararam a sobrevivência dos animais entre 2014 e 2016, antes do surto, e entre 2017 e 2019, durante a circulação da doença.
A análise reuniu informações de 300 animais: 145 acompanhados no período anterior à epidemia e 155 durante o surto. Os cientistas avaliaram fatores como cobertura florestal, conectividade entre fragmentos, densidade populacional humana, distância de estradas e tamanho dos grupos.
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Conexão que protege também pode representar risco
Antes do surto, a maior conectividade entre os fragmentos estava relacionada ao aumento da sobrevivência dos micos. Durante a epidemia, porém, essa associação se inverteu.
Segundo os pesquisadores, no estudo, “a conectividade do habitat aumentou a sobrevivência antes do surto, mas ampliou a mortalidade durante a epidemia”.
Uma das explicações discutidas no artigo é que fragmentos conectados facilitam a movimentação dos micos e trazem benefícios para a conservação da espécie. Durante uma epidemia, entretanto, essa mesma configuração também pode favorecer o deslocamento de mosquitos e ampliar as oportunidades de contato entre os animais e os vetores infectados.
Animal quase foi extinto na década de 1970. — Foto: Carlos Henrique Ferreira
O resultado não significa que os pesquisadores recomendem interromper corredores ecológicos ou isolar áreas de floresta. O estudo mostra que os efeitos da conectividade podem mudar conforme o contexto e que o risco de doenças precisa ser considerado no planejamento das ações de conservação.
Durante o surto, a menor cobertura florestal e a maior densidade populacional humana também estiveram associadas à redução da sobrevivência dos micos.
Segundo os pesquisadores, o “impacto humano, mais do que o clima, teve papel central” na distribuição do risco de mortalidade.
As variáveis climáticas analisadas não apareceram como preditores significativos.
Os autores, no entanto, reconhecem que os dados climáticos utilizados representavam médias de longo prazo e poderiam não captar variações sazonais importantes para a presença dos mosquitos.
O estudo também ressalta que nem todas as mortes puderam ser confirmadas como provocadas pela febre amarela . Como encontrar carcaças na floresta é difícil, os pesquisadores consideraram como mortos os animais que desapareceram de grupos que continuaram monitorados e não foram encontrados posteriormente em outros grupos.
Mico-leão-dourado é primata exclusivo do Brasil — Foto: Luciano Lima
A partir dos resultados, os cientistas produziram mapas das áreas com maior probabilidade de mortalidade durante o surto . O risco mais elevado apareceu principalmente em locais com baixa cobertura florestal, maior densidade humana e maior conectividade entre os fragmentos.
De acordo com o artigo, essas projeções podem ajudar a definir áreas prioritárias para a vacinação dos micos-leões-dourados . Fragmentos que funcionam como pontes entre populações podem receber atenção especial, já que a imunização nesses pontos teria potencial para reduzir a propagação do vírus pela paisagem.
Os autores alertam, porém, que o mapa deve ser combinado com outras informações, como o número de animais em cada área, a facilidade de acesso aos grupos, a disponibilidade de vacinas e o avanço de um eventual surto.
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