Matuto S.A. no Grammy Latino: rapper de Franca une rap e cururu | G1
Matuto S.A conheceu o cururu, tradição de versos improvisados ao som da viola, por meio do poeta Carlos de Assumpção. Álbum "Terra Vermelha" disputa o prêmio em 12 de novembro, em Las Vegas.
De um lado, o cururu, manifestação da cultura caipira marcada por desafios cantados e versos acompanhados pela viola. Do outro, as batalhas de rap, nas quais MCs improvisam rimas sobre bases do hip hop.
Para o rapper Matuto S.A., de Franca (SP), os dois universos compartilham a palavra, a improvisação e a capacidade de contar histórias. A descoberta dessa relação ajudou a construir a identidade de “Terra Vermelha: Do interior pro interior”, álbum indicado ao Grammy Latino 2026.
O trabalho concorre na categoria Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa . Matuto disputa o prêmio com AJULLIACOSTA, Budah, Don L e Emicida. A cerimônia está marcada para 12 de novembro, em Las Vegas, nos Estados Unidos.
Vinicius Comparini, nome de batismo do artista, chama a mistura de rap com referências do interior de “regional beat” . A sonoridade reúne bases urbanas, viola caipira, trompete e influências de gêneros como reggae, jazz, samba e samba-rock.
Projeto Matuto S.A. une viola caipira e ritmos urbanos em apresentação gratuita nesta sexta-feira (17) no Sesc Franca — Foto: Gustavo Francisco
A aproximação entre a cultura caipira e o hip hop começou a ganhar forma a partir das pesquisas feitas pelo rapper para a criação das músicas.
Matuto conta que conheceu o cururu por meio do poeta Carlos de Assumpção, de Franca. A manifestação tradicional está presente em cidades do interior paulista e reúne cantadores que improvisam versos acompanhados pela viola.
Para o rapper, a dinâmica se relaciona diretamente com as batalhas de rima que fazem parte da cultura hip hop.
“A música caipira como um todo, não só a moda de viola, influenciou demais. Quando a gente descobriu, por meio do seu Carlos de Assumpção, que existia o cururu, com batalhas de rimas feitas por pessoas de Tietê, Capivari e Piracicaba usando a viola caipira, a gente falou: ‘Pô, que interessante. Tudo a ver com a batalha de rap’.”
A descoberta mostrou ao artista que a rua e a roça, apesar das diferenças sonoras, também tinham pontos de encontro.
Segundo Matuto, a pesquisa é uma prática presente na formação dos MCs, especialmente na busca por referências e por trechos de outras músicas usados na criação de bases, os chamados samples.
“A música rap, desde sempre, é algo que incita a pesquisa, a busca dos samples, ouvir o jazz, o reggae, a black music brasileira, o samba-rock, o samba. Tudo isso faz parte da nossa formação enquanto MC e vai desaguando no nosso trabalho de alguma forma.”
Matuto S.A, de Franca (SP), no palco principal do João Rock 2024 em Ribeirão Preto, SP — Foto: Igor do Vale/g1
Além da viola caipira e das bases do hip hop, outro instrumento acompanha Matuto na construção dessa sonoridade: o trompete.
O interesse surgiu quando ele percebeu a presença do instrumento em samples usados no rap. Uma das referências foi “Vida Loka, Parte 2”, dos Racionais MC’s.
“Eu encanei com o trompete porque ouvia muito nos samples de rap o som do trompete. ‘Vida Loka, Parte 2’ é um clássico. Aí pensei: ‘Se eu conseguir introduzir isso na minha rima, no palco, vai ficar bem interessante’.”
A influência do reggae, gênero marcado pela presença dos metais, também contribuiu para que o instrumento entrasse nas apresentações.
“A música reggae também traz muito os metais, o trompete. Fui colocando aos pouquinhos e está comigo até hoje.”
O instrumento passou a dividir espaço com as rimas e com as referências caipiras tanto nas gravações quanto no palco.
Matuto S/A, de Franca (SP), no palco principal do João Rock 2024 em Ribeirão Preto, SP — Foto: Igor do Vale/g1
As referências de Matuto ajudam a explicar a mistura presente no álbum. No rap, uma das principais influências é Black Alien. Na cultura caipira, aparecem nomes como Tião Carreiro e Rolando Boldrin.
Embora atue no hip hop há cerca de dez anos, o artista começou a desenvolver o projeto voltado ao encontro com a cultura regional em 2023.
Em 2025, “Terra Vermelha: Do interior pro interior” foi aprovado pelo Programa de Ação Cultural de São Paulo, o ProAC. A produção começou naquele ano e o álbum foi lançado em 17 de março de 2026, data do aniversário do rapper.
Antes da indicação ao Grammy Latino, o disco já havia aparecido em uma seleção da Billboard Brasil com os 50 melhores álbuns do primeiro semestre deste ano.
A pesquisa também levou Matuto a espaços como o festival João Rock, realizado em Ribeirão Preto (SP) . Agora, o trabalho coloca o rapper de Franca em uma categoria com artistas reconhecidos nacionalmente.
Tião Carreiro e Rolando Boldrin estão entre as referências caipiras do rapper na criação de “Terra Vermelha: Do interior pro interior” — Foto: Reprodução EPTV
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