Ele é um gato, vive no Brasil e é mais raro do que se imaginava | G1
Nova avaliação internacional aponta que pequeno felino, encontrado em diferentes regiões do país, está entre os menos abundantes das Américas e passa a ser considerado quase "ameaçado".
Apesar de viver em todos os biomas brasileiros e ocupar uma extensa área das Américas, o gato-mourisco ( Herpailurus yagouaroundi ) é mais raro do que se imaginava . Uma nova avaliação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) mudou a classificação global do pequeno felino de "pouco preocupante" para "quase ameaçado".
Segundo a avaliação , a população mundial é estimada em cerca de 13 mil indivíduos adultos. O número reforça uma preocupação dos pesquisadores: embora tenha ampla distribuição geográfica, o gato-mourisco está entre os felinos menos abundantes em grande parte das regiões onde ocorre.
O estudo foi coordenado pelo pesquisador brasileiro Tadeu de Oliveira, copresidente do Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN, e reuniu informações de especialistas de diferentes países das Américas.
Jaguarundi ou gato mourisco flagrado no Brasil (Herpailurus yagouaroundi) — Foto: enio_pessoa / iNaturalist
Com corpo alongado, patas curtas e aparência que lembra uma lontra, o gato-mourisco é encontrado desde o México até a Argentina . Diferentemente de muitos felinos silvestres, apresenta hábitos predominantemente diurnos, o que facilita os encontros com seres humanos e pode transmitir a impressão de que seja mais comum do que realmente é.
Em entrevista anterior ao Terra da Gente , o ecólogo e especialista em mamíferos Fábio Dias Mazim já alertava para a falta de informações sobre o animal.
“Não existem pesquisas aprofundadas com estimativas precisas das populações para a espécie, por exemplo. Apesar de ser encontrado em todo o País, parece ser um felino raro em diversos locais do Brasil”, afirmou na ocasião.
A preocupação também aparece em uma avaliação brasileira publicada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em 2023. O documento reúne estudos que apontam baixas densidades populacionais do gato-mourisco em regiões da Mata Atlântica, Caatinga e Amazônia.
No estado de São Paulo, por exemplo, um levantamento científico encontrou densidades inferiores a um indivíduo por quilômetro quadrado nas áreas estudadas.
Embora seja difícil monitorar a espécie, registros especiais de gatos-mouriscos já foram destaque no Terra da Gente.
Na época, o biólogo Edelcio Muscat, responsável técnico e de pesquisa do projeto, destacou a raridade da cena.
“Normalmente os registros na natureza são de poucos filhotes. Sabíamos que o animal era capaz de desenvolver de um a quatro, mas casos de quatro filhotes são citados apenas em zoológico”, explicou ao Terra da Gente.
Um mês depois, outra reportagem mostrou uma família de gatos-mouriscos observada pelo biólogo Jefferson Bob em um sítio de Potengi, no Ceará. O pesquisador acompanhava os animais desde 2017 e chegou a registrar o crescimento de filhotes.
“Cada encontro é emocionante, principalmente por ser uma espécie discreta e tímida. Fico muito feliz por saber que estamos fazendo a coisa certa, cuidando da natureza e disponibilizando espaço para os animais”, contou Bob ao Terra da Gente em 2020.
Jaguarundi flagrado em Poconé (MT) — Foto: avocat / iNaturalist
A perda e a fragmentação dos habitats estão entre as principais ameaças ao gato-mourisco. Atropelamentos, caça em retaliação a ataques contra criações domésticas e doenças transmitidas por animais domésticos também preocupam os pesquisadores.
Segundo o ICMBio, um estudo estimou que entre 5 e 553 gatos-mouriscos poderiam morrer atropelados anualmente nas rodovias pavimentadas do estado de São Paulo.
No Brasil, o felino já havia sido classificado como vulnerável à extinção em uma avaliação nacional, categoria de risco superior à de quase ameaçado adotada agora internacionalmente.
Para os pesquisadores responsáveis pela nova avaliação global, a mudança reforça a necessidade de ampliar os estudos, monitorar as populações e desenvolver medidas para garantir a sobrevivência da espécie.
Nome científico: Herpailurus yagouaroundi;
Outros nomes: jaguarundi, gato-azul, gato-vermelho e gato-irará;
Distribuição: do México à Argentina, incluindo todos os biomas brasileiros;
Alimentação: principalmente pequenos mamíferos, aves e répteis;
Hábitos: predominantemente diurnos e solitários;
Reprodução: gestação de 63 a 75 dias, com ninhadas de um a quatro filhotes;
Pelagem: varia entre tons acinzentados, escuros e avermelhados;
Curiosidade: produz diferentes vocalizações, incluindo sons semelhantes aos de aves;
Conservação: quase ameaçado globalmente, segundo a IUCN, e avaliado como vulnerável no Brasil pelo ICMBio.
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