As montanhas brasileiras estão encolhendo? Veja o que diz a ciência | G1
Estudos mostram que Serra do Mar e Serra da Mantiqueira perdem material por processos de denudação; em algumas áreas, quilômetros de rocha já foram removidos.
Serra do Mar — Foto: Divulgação/EPR Litoral Pioneiro.
Elas parecem imóveis, mas as montanhas também mudam . Em uma escala de milhões de anos, chuva, rios, intemperismo e erosão retiram material das serras e ajudam a redesenhar o relevo. No Sudeste brasileiro, pesquisas mostram que esse processo ocorre na Serra do Mar e na Serra da Mantiqueira.
Um estudo publicado no Journal of South American Earth Sciences analisou 30 bacias hidrográficas nessas duas serras e encontrou taxas médias de denudação (conjunto de processos naturais que desgastam, rebaixam e removem as camadas superiores da crosta terrestre) entre 9,2 e 37,1 metros por milhão de anos.
Mas isso significa que as montanhas brasileiras estão simplesmente ficando menores?
A história do relevo envolve uma combinação de erosão, denudação e movimentos tectônicos. Em diferentes períodos geológicos, áreas hoje ocupadas por serras também passaram por episódios de soerguimento.
Por isso, a paisagem atual é resultado de uma longa disputa entre processos que elevam, desgastam e reorganizam a superfície terrestre.
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No estudo de 2016, a menor taxa média registrada foi de 9,2 metros por milhão de anos, no planalto da Serra do Mar.
Na escarpa da mesma serra voltada para o oceano, a taxa chegou a 37,1 metros por milhão de anos.
Nas escarpas estudadas, a média foi de 30,2 metros por milhão de anos na Serra do Mar e 16,5 metros por milhão de anos na Serra da Mantiqueira. As vertentes voltadas para o mar apresentaram valores aproximadamente 1,5 vez maiores que aquelas voltadas para o interior.
Os pesquisadores relacionaram essas diferenças a características como relevo da bacia e inclinação das encostas. O trabalho também discute possíveis influências do tipo de rocha e da umidade.
Na escala de um ano, essas mudanças são praticamente imperceptíveis.
Uma taxa média de 37,1 metros por milhão de anos equivale matematicamente a cerca de 0,037 milímetro por ano.
Esse valor, porém, não significa que uma encosta perca exatamente essa quantidade todos os anos. Trata-se de uma média de longo prazo calculada para as bacias analisadas.
Pico dos Marins está localizado na Serra da Mantiqueira — Foto: Márcio de Campos/TG
Quando os cientistas olham ainda mais para o passado, os números aumentam.
Uma tese de doutorado da Unesp que analisou a história denudacional da Serra do Mar apresenta dados compilados de pesquisas anteriores indicando cerca de 3,25 quilômetros de superfície denudada no interior da Serra do Mar e aproximadamente 3,75 quilômetros no setor litorâneo.
Para áreas da Serra da Mantiqueira, os valores compilados ficaram próximos de 2,7 quilômetros.
Esses números não significam que as montanhas eram necessariamente 3 ou 4 quilômetros mais altas do que são hoje.
Denudação representa a quantidade de material removida durante uma história geológica complexa, que também inclui soerguimentos, falhas e reorganizações do relevo.
A própria literatura ressalta que, depois de vários quilômetros de denudação, reconstruir exatamente como era a paisagem em períodos como o Cretáceo Superior é extremamente difícil.
Parte dessa história fica registrada dentro das próprias rochas.
"Pesquisadores utilizam técnicas de termocronologia de baixa temperatura, entre elas a análise de traços de fissão e o método (U-Th)/He em minerais como a apatita", explica o geógrafo Eduardo Rodrigues.
Cicatrizes da Serra do Mar após os deslizamentos de terra na Vila Sahy, em São Sebastião, em 2023 — Foto: Reprodução/TV Vanguarda
"Essas ferramentas ajudam a reconstruir momentos de resfriamento e exumação das rochas e, consequentemente, episódios relacionados à denudação", continua o especialista.
Uma revisão publicada em 2021 reuniu 1.120 dados produzidos ao longo de quase 30 anos de estudos termocronológicos no Brasil.
Os autores encontraram evidências de grandes episódios de denudação em diferentes períodos e destacaram que a evolução do relevo depende também da estrutura geológica e dos sistemas de drenagem.
A paisagem brasileira continua sendo esculpida. Na Serra do Mar, estudos indicam uma história particularmente complexa.
A tese da Unesp identificou episódios de soerguimento tectônico no Cretáceo Superior e no Paleoceno relacionados à formação e à reorganização de partes do relevo.
Outra revisão científica encontrou três grandes episódios de resfriamento acelerado associados a processos denudacionais na margem continental brasileira: Cretáceo Inferior, Cretáceo Superior e Paleógeno-Neógeno.
"A conclusão é menos simples — e mais interessante — do que dizer apenas que as montanhas estão diminuindo. As serras brasileiras não são estruturas congeladas no tempo. Ao longo de milhões de anos, elas são desgastadas, elevadas, cortadas por rios e continuamente remodeladas", afirma Rodrigues.
Para os nossos olhos, parecem eternas.Na escala do tempo geológico, estão sempre mudando.
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