Condomínio quis expulsar suspeito de matar advogada e enteado em SP | G1
Nove meses antes do crime, Eric Almeida brigou com morador em Cotia, Grande SP. Testemunhas citam intimidação com pistola e tentativa de 'enforcar' namorada. Para polícia, Anna e Raphael Lima foram asfixiados. Empresário está preso por feminicídio e vicaricídio.
Anna Lima, o filho dela, Raphael, e Eric de Almeida — Foto: Reprodução
Nove meses antes do crime, o empresário Eric Conrado Alves de Almeida, de 41 anos, preso suspeito de matar a namorada, a advogada Anna Gabriela Faria Lima, de 29 anos, e o enteado de 6 anos, Raphael Faria Lima Ferrari , no apartamento onde moravam em Cotia, na Grande São Paulo, foi alvo de um pedido de expulsão do mesmo condomínio.
Em 3 de fevereiro de 2026, ele foi acusado pela administradora do prédio de arremessar objeto contra outro morador, se envolver em briga e fazer ameaça com arma de fogo. A conduta de Eric foi considerada "antissocial". Apesar da determinação para deixar o imóvel em até dez dias, ele não foi expulso (saiba mais abaixo) .
A Polícia Civil acredita que mãe e filho tenham sido mortos pelo empresário entre os dias 1º e 2 de novembro deste ano. A investigação trabalha com a hipótese de que Anna e Raphael foram asfixiados _havia marcas de mãos nos pecoços das vítimas compatíveis com esganadura. Os corpos foram encontrados pela polícia no dia 3 . Estavam deitados em cima da cama e não tinham perfurações.
A Polícia Técnico-Científica faz exames para confirmar essa possibilidade. A perícia ainda realiza testes para saber se a advogada e a criança foram dopadas antes de ser mortas.
O empresário foi detido temporariamente pela polícia na última quarta-feira (4) por decisão da Justiça . Ele se entregou, mas ainda não foi interrogado formalmente na delegacia que investiga o caso como feminicídio contra a advogada e vicaricídio contra o filho dela.
Feminicídio ocorre quando uma mulher é morta em contexto de violência de gênero. Vicaricídio é o termo usado para definir a morte de filhos com o objetivo de atingir emocionalmente quem é responsável por eles.
Quando chegou ao distrito policial, Eric havia dito aos jornalistas que não cometeu o crime. O g1 entrou em contato com a defesa dele e aguarda um posicionamento.
A equipe de reportagem apurou que a Polícia Militar (PM) foi acionada quando Eric se envolveu na confusão com outro condômino. Um boletim de ocorrência foi registrado, mas os agentes não teriam localizado a arma que o empresário foi acusado de usar para ameaçar o morador.
O condomínio ainda aplicou multa de R$ 2.034,85 para Eric em razão da ocorrência. O empresário alugava o imóvel juntamente com Anna.
Até o momento, quatro pessoas prestaram depoimentos na delegacia: o pai de Eric, a mãe de Anna, a síndica do condomínio e uma psicóloga amiga da vítima.
Tirando o pai, as outras testemunhas relataram à polícia um histórico de perseguições, ameaças, agressões, controle excessivo e intimidações atribuídas ao investigado antes das mortes . Elas descreveram um relacionamento marcado por sucessivos términos e reconciliações, além de episódios de violência doméstica e comportamentos intimidatórios.
Namorado intimidou advogada com arma, diz testemunha
Eric Conrado (ao centro) é suspeito de matar Anna Gabriela e o filho dela, Raphael, em Cotia, Grande São Paulo. — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
A psicóloga afirmou que a advogada costumava procurá-la para relatar problemas no relacionamento e que demonstrava medo constante do investigado.
Segundo a testemunha, Anna relatava perseguições após os rompimentos e dizia que Eric insistia em retomar o namoro diante das negativas. A amiga contou que ele aparecia em locais frequentados pela advogada, como academia, e que ela se sentia pressionada e intimidada por essas abordagens.
Em um dos episódios narrados no depoimento, a psicóloga afirmou que Anna contou que Eric levantou a camisa para exibir uma arma que carregava na cintura . Segundo a testemunha, a vítima interpretou o gesto como uma forma de intimidação e ficou com ainda mais medo dele.
A amiga relatou ainda que a advogada dizia ter sido alvo de perseguições e que, em outras ocasiões, Eric teria tentado interceptá-la utilizando um veículo e causado danos ao carro dela. A testemunha afirmou que orientava a vítima a procurar ajuda policial e buscar medidas protetivas, mas que ela acreditava que a situação acabaria cessando com o tempo.
Neto tinha medo do padrasto mãe, diz avó
Em outro depoimento, a mãe da advogada afirmou que a filha manteve um relacionamento de dois a três anos com Eric e classificou a relação como abusiva. Segundo ela, familiares precisaram intervir pelo menos duas ou três vezes para socorrer a vítima em situações envolvendo agressões e ameaças.
A mãe relatou à polícia um episódio em que Eric teria tentado esganar a filha. A testemunha contou ainda que o neto demonstrava preocupação com a situação e chegou a dizer que o padrasto dele poderia matar a sua mãe. O relato foi feito pela própria avó da criança aos investigadores.
A mesma testemunha afirmou que a filha estava separada do investigado havia cerca de três semanas, mas que ele voltou a procurá-la depois de encontrá-la casualmente no dia das eleições presidênciais. A partir daquele momento, passou a insistir na retomada do relacionamento, apesar de ela dizer que não desejava mais manter vínculo amoroso com ele.
Mulher e filho de 6 anos são encontrados mortos dentro da casa do ex-namorado em Cotia, Grande SP — Foto: Reprodução
Outro depoimento considerado relevante pela investigação é o da síndica do condomínio onde a vítima morava. Ela afirmou que a advogada a procurava diversas vezes para pedir ajuda e relatava ter medo de Eric.
Segundo a síndica, em 27 de março deste ano, Anna enviou mensagens e vídeos pedindo socorro. Na ocasião, relatou que havia sido deixada trancada dentro do apartamento pelo investigado e pediu que a testemunha permanecesse atenta porque temia que ele pudesse danificar seu carro ou praticar alguma 'maldade' contra ela. A síndica afirmou que a vítima demonstrava intenso medo do namorado.
Segundo a síndica, era comum perceber que a vítima evitava contrariá-lo. Ela afirmou ainda que Eric a acompanhava constantemente e que era incomum vê-la desacompanhada nas áreas comuns do condomínio.
De acordo com as investigações, imagens de monitoramento mostram que Anna e Eric entraram juntos no condomínio em 1º de novembro de 2026, por volta das 21h35.
Os registros também indicam que Eric deixou sozinho o condomínio às 2h14 da madrugada do dia seguinte. Segundo os controles de acesso analisados pela administração do condomínio, não houve entrada ou saída de terceiros do apartamento durante o período.
As vítimas foram encontradas mortas na terça-feira (3). A investigação começou após uma advogada procurar a Delegacia de Cotia e informar que Eric havia telefonado para ela relatando que existiam dois corpos no apartamento e fornecendo o endereço do imóvel.
Naquele momento, familiares já procuravam as vítimas e a mãe da advogada havia registrado boletim de ocorrência de desaparecimento após perder contato com a filha.
O empresário foi preso no dia 4 em uma casa no Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo. Segundo a Polícia Civil, ao ser detido, não confessou o crime nem demonstrou arrependimento.
A Polícia Civil e o Ministério Público sustentam que os elementos reunidos até o momento apontam para um contexto de violência doméstica e inconformismo do investigado com o fim do relacionamento.
A polícia chegou a pedir a prisão da mãe de Eric, com concordância do MP, mas a Justiça negou. Para a investigação, a mulher teria participado do crime ao dar apoio moral e material ao filho, o mantendo escondido. O g1 não conseguiu localizar a defesa dela para comentar o assunto.
Eric Conrado Alves de Almeida, de 41 anos, teve prisão temporária decretada — Foto: Arquivo Pessoal
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