Entenda como apreensão de 40 kg de drogas levou à operação que mira Milton Leite e apura infiltração do PCC nos ônibus de SP | G1
Ação da Polícia Civil e do Gaeco foi deflagrada nesta quinta-feira (17) para cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. Segundo a investigação, 12 das 22 empresas de ônibus que atuam na capital são investigadas por elo com a facção criminosa.
O que começou com a apreensão de cerca de 40 kg de drogas em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo , em 2023, terminou em uma investigação que aponta para uma infiltração do PCC no sistema de transporte coletivo da capital paulista.
A investigação da Polícia Civil e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, culminou na quinta-feira (17) na Operação Vectura Corrupta. Um dos alvos é o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil).
Ao todo, foram expedidos 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.
Estão entre os presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e atual candidato a deputado estadual. Até a última atualização desta reportagem, Milton Leite estava foragido.
Ao longo de três anos, os investigadores analisaram celulares, mensagens e movimentações financeiras que revelaram um esquema de comunicação entre lideranças do PCC, lavagem de dinheiro e a infiltração da facção em empresas do transporte coletivo da capital.
Milton Leite (União Brasil), ex-presidente da Câmara de SP — Foto: Paulo Gomes/TV Globo
A investigação teve início em 9 de junho de 2023, quando policiais militares receberam uma denúncia anônima sobre um homem que armazenava drogas em uma residência na Rua Arapuã, em Itaquaquecetuba.
No local, os PMs abordaram Edivaldo Raimundo dos Santos, que admitiu a posse das drogas. Na casa foram apreendidos cerca de 28 kg de maconha e 8 kg de cocaína.
Também estava no imóvel Fabiana Lopes Manzini. Na ocasião, ela foi ouvida como testemunha e liberada.
Com o avanço das investigações, os policiais concluíram que Fabiana não era apenas uma testemunha, segundo a denúncia do MP.
Ela era casada com Anderson Manzini, apontado pelas autoridades como braço direito de Wanderson Nilton de Paula Lima, o "Andinho", integrante da alta cúpula do PCC .
A perícia realizada no telefone de Fabiana mudou o rumo da apuração. Segundo os investigadores, o aparelho mostrou que ela atuava como intermediária na troca de mensagens entre integrantes do PCC presos e membros da facção que estavam em liberdade.
As mensagens revelaram a circulação de cartas, orientações e recados entre lideranças do PCC espalhadas por diferentes unidades prisionais e pessoas ligadas à organização criminosa fora dos presídios.
Os peritos também identificaram indícios de um esquema estruturado de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico de drogas, que utilizaria empresas e fintechs para ocultar a origem dos recursos.
O material extraído do celular permitiu aos policiais identificar outros integrantes da estrutura da facção. Entre eles apareceu Marlon José Souza do Prado Rosa, conhecido pelos apelidos "MR", "Melke" e "Murilo".
De acordo com a investigação, Marlon ocupava posição de destaque dentro da chamada "Sintonia dos Gravatas", núcleo responsável por coordenar a assistência jurídica e a articulação de interesses legais da facção.
Com base nos elementos encontrados, a Justiça autorizou a prisão temporária de Marlon e expediu mandados de busca e apreensão no âmbito da Operação Decúrio.
Em 2024, Marlon foi capturado em Praia Grande, no litoral paulista, e enviado para Penitenciária II de Presidente Venceslau. Durante a ação, os policiais apreenderam quatro celulares que estavam em seu poder.
A análise desses aparelhos revelou novas frentes de investigação, incluindo a compra da refinaria FANAL, movimentações financeiras atribuídas à facção, suspeitas de financiamento eleitoral e contatos relacionados ao setor de transporte coletivo.
Os investigadores então identificaram José Daniel Satilite, conhecido como "Alemão", apontado como homem de confiança de Marlon e suposto operador de negócios ligados ao grupo.
Veículos da empresa Move Buss, que operam linhas na cidade de São Paulo e são alvo de operação do MP-SP. — Foto: Divulgação/Redes Sociais
Em junho de 2025, a Polícia Civil apreendeu o celular de José Daniel Satilite. Segundo os investigadores, a perícia realizada no aparelho revelou pela primeira vez uma ligação direta entre integrantes do PCC e empresas de ônibus que operam na capital paulista.
No telefone, os policiais encontraram mensagens e áudios trocados entre José Daniel e o advogado Cícero José dos Santos Filho, além de encaminhamentos para o advogado Milton Milreu.
Em uma das conversas, datada de janeiro de 2025, José Daniel enviou uma lista com 12 empresas que integram o sistema municipal de transporte. De acordo com a investigação, ele afirmou que aquelas companhias seriam controladas pela facção, referindo-se a elas como "nossas".
Ainda segundo a polícia, Cícero analisou a relação e confirmou as informações, fazendo apenas uma observação sobre a mudança de nome de uma das empresas, a Imperial, que teria passado a se chamar Transunião.
A partir das mensagens, os investigadores cruzaram a lista com dados oficiais da SPTrans. O levantamento apontou que as 12 empresas citadas correspondiam a mais da metade das 22 concessionárias responsáveis pela operação do sistema de ônibus da capital.
Para a Polícia Civil e o Ministério Público, os elementos indicam que essas operadoras poderiam estar sob controle direto ou indireto da organização criminosa.
Elo entre empresários, advogados, políticos e transporte público
Para a Polícia Civil e o Ministério Público, José Daniel atuava como peça central da engrenagem investigada.
Segundo a apuração, ele faria a ligação entre integrantes da cúpula do PCC, empresários do setor de transportes, advogados e agentes políticos.
Já o advogado Cícero José dos Santos Filho é apontado pelos investigadores como participante ativo da estrutura da facção. A suspeita é que seu escritório fosse utilizado como local de reuniões e articulações do grupo.
Com a reunião dos elementos obtidos ao longo de mais de três anos de investigação, a Polícia Civil e o Ministério Público deflagraram a Operação Vectura Corrupta.
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