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Em 10 anos, Sou da Paz identifica 92 casos de CACs ligados ao PCC e CV | G1

Levantamento reúne ocorrências em 21 estados entre 2016 e 2026. São Paulo lidera com 18 casos de armas e munições fornecidas por CACs a criminosos.

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Alvo usado por CACs em estande de tiro em São Paulo — Foto: Luiz Gabriel Franco/g1

Um levantamento inédito do Instituto Sou da Paz identificou 92 casos de envolvimento de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) com organizações criminosas entre 2016 e outubro de 2026. O g1 teve acesso aos dados do estudo desses últimos dez anos.

Os registros envolvem integrantes de facções que obtiveram armas por meio de registros de CAC e também pessoas habilitadas no sistema que passaram a abastecer o crime organizado com armas e munições.

Foram analisados processos, boletins de ocorrência, inquéritos e reportagens para o estudo do Sou da Paz.

Materiais apreendidos durante operação "Ludíbrio" em 2022 em Uberaba. — Foto: Polícia Federal/Divulgação

"Dois padrões se repetem. No primeiro, pessoas que já tinham registro, ou que foram recrutadas por facções para obtê-lo, compram armas e munições legalmente e as desviam para criminosos", afirma Bruno Langeani, consultor sênior do instituto. "No segundo, integrantes de grupos criminosos tiram o registro em nome próprio, às vezes com documentos falsos, e usam o arsenal comprado de forma legal em suas atividades."

Os casos envolvem o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV), milícias, grupos de extermínio, facções regionais e quadrilhas especializadas em roubos a banco. Eles estão distribuídos por 21 estados. São Paulo lidera com 18 registros, seguido por Espírito Santo (11) e Rio de Janeiro (10).

Os CACs existem há décadas no Brasil. A categoria permaneceu prevista na legislação após a aprovação do Estatuto do Desarmamento, sancionado pelo presidente Lula em 2003.

Um dos casos mais recentes do envolvimento de CAC com o crime organizado tem Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, o Léo Bode, apontado por investigadores como liderança do Comando Vermelho no interior paulista . Ele está foragido.

Documentos analisados pelo Sou da Paz indicam que ele possuía certificados de registro de armas emitidos pelo Exército. Em um processo analisado pelo g1 , policiais relataram que armas apreendidas em Rio Claro estavam registradas em seu nome.

Levi foi preso em casa, em Assunção — Foto: Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai/Divulgação

O levantamento reúne episódios em diferentes regiões.

Na fronteira com o Paraguai , Levi Adriani Felício, apontado como integrante da cúpula do PCC, possuía certificado de CAC. Ele chegou a ser preso em 2019 no país vizinho . Foi acusado de ser um dos principais fornecedores de armas e drogas para facções criminosas brasileiras.

No Espírito Santo, investigações apontaram um integrante de facção catarinense que usou documentação falsa para obter registro de colecionador e uma segunda apuração, a Operação Downfall, relacionou em 2023 um traficante à compra legal de um fuzil por meio de registro fraudulento de CAC .

Armas foram apreendidas em Campina Grande — Foto: Ewerton Correia/TV Paraíba

Na Paraíba , a Operação Fake Shooter investigou integrantes da facção Okaida. Os criminosos se passavam por CACs para comprar armas para a quadrilha . Eles foram presos em 2023.

No Rio , Luiz Paulo de Lemos Júnior, o "Chupeta", apontado como integrante do Escritório do Crime, possuía registro como CAC. Ele é um miliciano ligado a a Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco , que foi alvo de operação em 2024.

Em Santos , Raphael Batista, o "Aprontinho", foi investigado por usar suas cotas de CAC para abastecer o mercado ilegal.

Latrell Brito cumula penas que ultrapassam 50 anos de prisão — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Já na Bahia , um homem conhecido como "pagodeiro do PCC", Vagner Borges Dias, o Latrell Brito , possuía registro e armas legalizadas. Em 2025, ele estava preso e foi condenado a mais de 50 anos de prisão por fraudes em licitações e lavagem de dinheiro.

Preso em 2025 em uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro, ele é suspeito de fornecer armas, carregadores e munições ao Comando Vermelho, no estado fluminense.

O Sou da Paz afirma que a apuração também menciona integrantes da família Bazzana em procedimentos relacionados à documentação de armas usadas por investigados ligados à facção. A defesa nega as acusações.

Eduardo Bazzana foi preso suspeito de fornecer armas a facção do Rio de Janeiro — Foto: Reprodução/EPTV

O instituto afirma que o levantamento reúne apenas casos tornados públicos. "Trabalhamos apenas com casos que vieram a público e nos quais as autoridades informaram que o investigado era CAC. O número real é certamente maior, e por isso não é possível medir com precisão quanto o problema cresceu", diz Bruno Langeani.

Segundo ele, os dados mostram expansão geográfica e diversificação dos grupos envolvidos. "A primeira coisa que os dados mostram com segurança é que a abrangência geográfica aumentou: os casos públicos passaram de seis estados, entre 2016 e 2019, para 20 estados, entre 2023 e 2026."

"A segunda é que se diversificou o perfil de quem usa esse canal. Além das facções do tráfico, como PCC e Comando Vermelho, aparecem quadrilhas do novo cangaço, milícias, grupos de extermínio, pistoleiros e grupos de grilagem de terras."

* Consultor do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani. — Foto: Reprodução/TV Globo

"A terceira é que o material desviado ficou muito mais grave, após os decretos do Bolsonaro: há casos de uma única pessoa repassando várias pistolas ou dezenas de milhares de munições de uso restrito", falou Langeani. "O presidente Lula voltou com a antiga classificacao de armas de calibre permitido e restrito. E reduziu o quantitativo de armas e municoes, ao mesmo tempo que passou a exigir mais comprovacoes de CACs."

Sobre a fiscalização, Langeani afirma: "A fiscalização era do Exército até 2025. Ano passado passou para a PF [Polícia Federal]. Estes são os fiscalizadores com competência principal, mas quando entram crimes de tráfico de arma, comércio ilegal e fabricação ilegal, aí são as polícias civis estaduais."

O g1 procurou as secretarias da Segurança Pública de São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro, além da Polícia Federal e do Exército Brasileiro e aguarda posicionamento.

Reprodução de levantamento feito pelo Sou da Paz sobre envolvimento de CACs com o crime organizado nos últimos 10 anos. — Foto: Reprodução/Sou da Paz

Os 92 casos foram identificados em 21 estados. São Paulo lidera com 18 registros, seguido por Espírito Santo (11) e Rio de Janeiro (10).

A série histórica contabiliza os 92 casos:

2016: 4 2017: 1 2018: 4 2019: 2 2020: 2 2021: 6 2022: 13 2023: 19 2024: 19 2025: 17 2026: 5 (até início de outubro) Total: 92 casos

O levantamento identificou casos em todas as regiões brasileiras.

Levantamento do Sou da Paz mostra acúmulo de casos de CACs envolvidos com o crime organizado por estados e regiões de 2016 a 2026. — Foto: Reprodução/Sou da Paz

São Paulo: 18 Espírito Santo: 11 Rio de Janeiro: 10 Rio Grande do Sul: 7 Ceará: 6 Paraná: 5 Bahia: 4 Distrito Federal: 4 Goiás: 4 Minas Gerais: 3 Paraíba: 3 Pernambuco: 3 Santa Catarina: 2 Maranhão: 2 Rio Grande do Norte: 2 Mato Grosso do Sul: 2 Amazonas: 2 Sergipe: 1 Mato Grosso: 1 Roraima: 1 Tocantins: 1

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Saturday, October 24, 2026

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