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Peru já perdeu 56% de sua área glacial; degelo traz riscos para cidade | G1

Localizada logo abaixo da Laguna Palcacocha, Huaraz concentra o maior risco urbano do país; Peru ocupa o 3º lugar mundial em vulnerabilidade a transbordamentos de lagos glaciares.

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Derretimento de geleiras faz lago crescer e aumenta ameaça a cidade nos Andes — Foto: Llilbert/Wikimedia Commons

Aos pés da Cordilheira Branca, nos Andes peruanos, a cidade de Huaraz convive com uma ameaça que vem das montanhas . Formada pelo derretimento de geleiras, a Laguna Palcacocha pode provocar uma grande enxurrada caso suas águas sejam liberadas de forma repentina, em um fenômeno semelhante ao ocorrido recentemente no Nepal.

O fenômeno é conhecido como GLOF ( Glacial Lake Outburst Flood ), traduzido como inundação por ruptura de lago glacial. Ele ocorre quando a água acumulada em um lago glacial transborda ou é liberada de maneira catastrófica e súbita, atingindo as áreas localizadas abaixo — como é o caso de Huaraz.

Segundo relatório de 2023 do Instituto Nacional de Investigación en Glaciares y Ecosistemas de Montaña (INAIGEM), principal órgão do governo do Peru vinculado ao Ministério do Ambiente, a Bacia do Rio Santa, onde estão localizadas Huaraz e a Laguna Palcacocha, é classificada mundialmente como a segunda bacia hidrográfica com maior risco de GLOF do planeta.

O volume da lagoa aumentou 34 vezes entre 1972 e 2016, criando um risco latente de deslizamentos que poderiam afetar mais de 27 mil pessoas, além de moradias, atividades econômicas, infraestrutura, serviços básicos e biodiversidade.

O risco não é apenas uma possibilidade teórica. Em 1941, a queda de blocos de gelo na Laguna Palcacocha provocou o rompimento da barreira natural que retinha a água e causou uma enxurrada de lama e gelo que destruiu metade da cidade de Huaraz e matou aproximadamente 4 mil pessoas.

A enxurrada, chamada no Peru de aluvión , ficou conhecida como o evento mais destrutivo da história do país envolvendo geleiras.

Atualmente, o local conta com um Sistema de Alerta Precoce (SAT), que monitora a lagoa em tempo real. Em um cenário de transbordamento violento, a estimativa é de que a enxurrada leve cerca de 20 minutos para chegar a Huaraz. Esse intervalo é considerado no planejamento das rotas de evacuação para áreas seguras.

Mais de oito décadas depois do desastre, portanto, a lagoa continua sendo considerada uma área de risco para as populações que vivem à sua volta.

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Cidade de Huaraz, no Peru — Foto: Diego Baravelli/Wikimedia Commons

Um lago glacial é formado pela água resultante do derretimento de geleiras. Em determinadas condições, essa água pode ficar represada por barreiras naturais formadas por rochas, sedimentos e gelo.

Segundo o glaciologista — cientista que investiga as geleiras — Jefferson Cardia Simões, pioneiro no estudo da área no Brasil e diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diferentes fatores podem desencadear a liberação repentina dessa água .

"Derretimento de água (por aquecimento atmosférico), terremotos e erupção vulcânica", explica.

No caso da Laguna Palcacocha, um dos fatores de preocupação é a presença de 22 blocos de gelo potencialmente instáveis. A queda deles sobre a lagoa pode provocar ondas fortes e contribuir para o transbordamento.

A barreira natural que retém a água também é considerada frágil por ser formada por materiais instáveis e pouco resistentes.

Além dessa barreira natural, a lagoa conta com um dique artificial — estrutura construída para ajudar a controlar a água — instalado há mais de 50 anos. Segundo o INAIGEM, a falta de manutenção dessa estrutura também está entre os fatores de risco.

Por que a Cordilheira Branca é tão vulnerável?

Cordillera Blanca — Foto: Candy Lopez/Wikimedia Commons

A Cordilheira Branca concentra uma grande quantidade de gelo nos Andes peruanos e reúne características que favorecem a ocorrência de fenômenos associados ao derretimento e à movimentação da água.

O pesquisador explica que a própria configuração do relevo contribui para a vulnerabilidade da região, já que grande parte dessas montanhas é íngreme e os vales dos rios que deságuam no Rio Santa são muito fechados.

Essa característica se combina às condições em que o gelo se encontra na região.

"Porque o gelo em grande parte está mais perto do ponto de fusão, assim, um pouco de aquecimento já derrete mais neve e gelo", explica.

O levantamento do INAIGEM também coloca o Peru como o terceiro país do mundo com maior risco e exposição da população a inundações por transbordamento de lagos glaciares, ou seja, por GLOFs.

O país fica atrás apenas de Índia e Paquistão, primeiro e segundo colocados, respectivamente. O cálculo considera a quantidade e o tamanho dos lagos, a população que vive abaixo deles e a vulnerabilidade social dessas áreas.

Geleiras peruanas perderam mais da metade da área

O risco associado à Palcacocha está ligado a uma transformação que ocorre em escala muito maior no território peruano.

O país perdeu 56,2% de sua superfície glacial entre 1962 e 2020. Dos 3.487 glaciares mapeados em 1962, 1.514 desapareceram completamente até 2020, de acordo com o INAIGEM.

O Peru concentra 68% dos glaciares tropicais do planeta e é a principal reserva desse tipo de gelo no mundo.

Laguna 69, uma lagoa glacial — Foto: Christian Cruzado/Wikimedia Commons

Para o pesquisador, a redução observada nas últimas décadas é "claramente atribuída ao aquecimento atmosférico na região".

Ele explica que a mudança ocorre porque a neve que antes se acumulava nas áreas mais baixas já não permanece nesses locais.

Com isso, o chamado balanço de massa da geleira — relação entre o que ela ganha com o acúmulo de neve e o que perde principalmente pelo derretimento — fica negativo.

Além do risco contínuo de inundação glacial, Huaraz enfrenta extrema vulnerabilidade hídrica. Os glaciares fornecem até 67% da água potável da cidade em anos normais e até 91% em períodos de seca, conforme o INAIGEM.

A diminuição dessas geleiras, portanto, também representa um problema para o abastecimento da região.

O gelo da Cordilheira Branca funciona como uma espécie de reserva natural, liberando água de forma contínua, algo especialmente importante durante os períodos de seca.

De acordo com o cientista, essa relação passa por diferentes fases.

"No estágio inicial tem superávit de água, mas chega um ponto que começa a ter menos água".

Isso acontece porque as geleiras armazenam água na forma de gelo e a liberam gradualmente.

"Geleiras são armazenadoras de água, e o mais importante é que elas fornecerem água constantemente, menos no período de seca!", afirma.

A mudança, portanto, não significa simplesmente que haverá mais água disponível à medida que as geleiras derretem. O aumento inicial do derretimento pode elevar a oferta de água, mas, à medida que o volume de gelo diminui, a capacidade de armazenamento também cai.

Em Huaraz, a transformação da Cordilheira Branca impõe um desafio que envolve tanto o risco de desastres quanto o abastecimento de água da população.

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Tuesday, October 13, 2026

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