MP solicita que médica condenada por tortura em clínica de dependentes químicos entre na lista de procurados da Interpol | G1
Promotoria enviou ofício para que Polícia Federal apure se Maria Teresa Cabrera Bellini deixou ou não o país. Outras três pessoas foram condenadas e presas por atuar na clínica, fechada em 2014.
A médica Maria Tereza Cabrera Bellini, condenada por tortura em clínica de reabilitação para dependentes químicos em Ribeirão Preto (SP). — Foto: Reprodução/EPTV
O Ministério Público enviou esta semana um ofício à Justiça para que a médica Maria Teresa Cabrera Bellini, condenada por tortura em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos de Ribeirão Preto (SP), seja incluída na lista de procurados da Interpol.
Segundo o promotor de Justiça Aroldo Costa Filho, no pedido ao judiciário, ele requereu que a Polícia Federal apure se a psiquiatra deixou o território nacional e, em caso positivo, seja emitido um alerta às autoridades internacionais.
Até sexta-feira (28), a solicitação ainda não havia sido respondida, de acordo com o representante do MP.
Antes de ser alvo de um mandado de prisão e de ser considerada foragida, Maria Teresa atendia normalmente por meio de convênios médicos na região.
Responsável técnica e sócia da unidade, a médica foi acusada de intimidar internos, ordenando que eles não relatassem as agressões ocorridas na clínica, fechada em 2014. Ela é a única pessoa entre as quatro condenadas no caso que não foi presa pelas autoridades.
Além de Maria Teresa foram condenados Marluci Cabrera Bellini Henares e Djalma Antônio Henares Júnior, presos em Portugal depois de entrarem na lista de procurados da Interpol , e Agelo Bellini Neto, monitor da clínica preso em Cravinhos (SP).
Todos foram alvos de mandados de prisão depois que o processo transitou em julgado, ou seja, teve todos os recursos esgotados no Superior Tribunal de Justiça (STJ) com uma condenação de 17 anos e seis meses de prisão em regime fechado.
Procurada pela reportagem, a defesa da médica informou que não tinha nada a declarar. Ao longo das investigações, ela e os demais réus negaram a autoria dos abusos.
A psiquiatra alegou em seus depoimentos que sua conduta na clínica limitava-se à prescrição de medicamentos e avaliação de pacientes, e afirmou desconhecer qualquer ocorrência de violência física ou psicológica.
A violência praticada no Centro de Tratamento e Recuperação de Álcool e Drogas passou a ser investigada em agosto de 2014, quando a Polícia Civil e o Ministério Público resgataram dez pacientes após relatos de agressões levados à Promotoria.
Segundo as denúncias, os pacientes eram submetidos a espancamentos com pedaços de madeira e tacos de bilhar, eram amarrados ao chão e a macas com cordas e faixas hospitalares, além de serem expostos a castigos e humilhações públicas.
A investigação também constatou o uso forçado de um coquetel de sedativos apelidado pelas vítimas de "danoninho", e que os monitores a administravam sem critérios médicos para dopar e anular a resistência física dos internados.
No processo, ex-pacientes também relataram episódios de violência sexual. O advogado Luís Henrique de Souza Fallone, ex-paciente da clínica, comparou o local a uma "mistura de campo de concentração com prisão de Guantánamo."
Fallone relatou que, em sua primeira consulta em 2014, tentou discutir de forma amistosa os métodos terapêuticos sugeridos.
Em resposta, a médica teria afirmado que "quem usou droga, perdeu" e ordenado uma contenção física imediata aos monitores. O advogado disse que foi agredido com socos, pontapés e enforcamento enquanto Maria Teresa gargalhava na sala diante dele.
O processo judicial arrastou-se por 12 anos devido à complexidade do caso e à sequência de recursos apresentados pelas defesas nas instâncias superiores.
A denúncia do Ministério Público foi oferecida em junho de 2017. A fase de instrução contou com o depoimento de investigadores, delegados e dezenas de testemunhas, incluindo 24 ex-internos que expuseram a rotina de espancamentos e dopamento na unidade.
Após a sentença em primeira instância, em 2020, recursos das defesas tramitaram pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília.
A condenação com o trânsito em julgado da pena ocorreu em junho de 2026, permitindo que a juíza Carolina Moreira Gama, da 2ª Vara Criminal de Ribeirão Preto, emitisse os mandados de prisão definitiva.
Com a vida estabelecida em Portugal no início do processo, quando ainda não eram foragidos, a advogada Marluci Cabrera Bellini Henares e o psicólogo Djalma Antônio Henares Júnior acabaram entrando para a lista da Interpol e foram presos em julho deste ano.
Marluci Cabrera Bellini Henares e Djalma Antônio Henares Júnior, condenados por tortura em clínica de reabilitação de Ribeirão Preto (SP). — Foto: Reprodução/EPTV
Atualmente, os dois permanecem presos sob custódia preventiva em Portugal, e a Justiça brasileira aguarda o trâmite dos pedidos de extradição.
A defesa dos réus pediu para que eles cumpram pena em território português, mas o Ministério Público de São Paulo sustenta que a soberania do julgamento e a competência penal dos crimes pertencem ao Brasil.
A assessoria de imprensa do Ministério da Justiça de Portugal confirmou ao g1 que o processo de extradição está em análise pelos serviços competentes do governo português.
Clínica de reabilitação de Ribeirão Preto denunciada em 2014 por tortura contra pacientes. — Foto: AcervoEP
VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região
Topics in this story
Gathered from external sources. Rights to this text belong to whoever originally published it.