Família questiona morte de brasileiro que seria deportado da Turquia após discussão religiosa | G1
Lucas Nascimento de Medeiros estava detido num centro de migração e avisou à família que seria deportado para o Brasil, com previsão de chegada nesta segunda (12). Dias depois, parentes receberam a informação de que ele havia sido encontrado morto em um hotel.
O brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, que morreu na Turquia — Foto: Arquivo pessoal
A família do brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, questiona as circunstâncias da morte dele na Turquia e cobra esclarecimentos das autoridades brasileiras.
No último contato com os parentes, Lucas disse que estava detido em um centro de migração na cidade de Esmirna e que seria deportado para o Brasil. A previsão era que ele desembarcasse no Aeroporto de Guarulhos na segunda-feira (12).
Marcos, irmão de Lucas, conta que ele morava havia sete anos na Europa. Ele estava a passeio na Turquia quando, segundo o irmão, se envolveu em uma discussão de cunho religioso e teve o rosto cortado.
Mensagens do brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, que morreu na Turquia — Foto: Reprodução
Dias depois, porém, a família recebeu a informação de que Lucas havia sido encontrado morto em um quarto de hotel na Turquia. A informação sobre a morte foi posteriormente confirmada pelo Consulado-Geral do Brasil em Istambul à Polícia Civil de São Paulo, segundo boletim de ocorrência registrado no 7º Distrito Policial da Lapa.
Os parentes dizem que as informações recebidas até agora não esclarecem como Lucas deixou o centro de detenção e foi parar no hotel onde teria sido encontrado morto.
Segundo Marcos Medeiros, irmão de Lucas, que mora em São Paulo, no último contato, o brasileiro avisou que seria deportado e enviou a localização de onde estava detido. No mapa, segundo a família, o local correspondia a um centro de detenção migratória em Esmirna, na costa ocidental da Turquia.
O Itamaraty informou que tem conhecimento do caso e que o Consulado-Geral do Brasil em Istambul está em contato com a família, “a quem tem sido prestada a assistência consular devida”.
Marcos conta que Lucas era programador, trabalhava remotamente e morava havia sete anos na Europa. Ele estava a passeio na Turquia quando, segundo o irmão, se envolveu em uma discussão de cunho religioso e teve o rosto cortado.
De acordo com Marcos, Lucas procurou as autoridades turcas para relatar o episódio, mas acabou detido e levado para um centro de detenção de migrantes em Esmirna.
A família sabia que ele seria deportado e acreditava que permanecesse sob custódia das autoridades turcas até o retorno ao Brasil.
Marcos afirma que Lucas compartilhava a localização com a mãe quando conseguia acessar o telefone. Segundo ele, uma dessas localizações apontava para o centro de detenção migratória.
Lucas também teve direito a uma ligação e avisou a família sobre a deportação.
“Na quinta-feira, ele ligou e disse assim: ‘Estou detido no centro de migração na cidade de Esmirna e está marcada a minha deportação para o Brasil entre domingo e segunda’”, contou Marcos.
Segundo a troca de mensagens apresentada pela família, o último contato ocorreu na quinta-feira (8). Depois disso, as mensagens deixaram de ser enviadas, e os parentes não conseguiram mais falar com Lucas.
A mãe foi ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na segunda-feira (12), para esperar o filho, conforme a previsão de chegada indicada na passagem apresentada à família. No local, porém, a companhia aérea informou que Lucas não havia embarcado.
“Minha mãe passou o dia inteiro no aeroporto esperando meu irmão”, diz Marcos.
Depois que a família perdeu contato com Lucas, a ex-namorada dele recebeu um e-mail informando que o brasileiro havia sido encontrado morto em um quarto de hotel na Turquia.
Para Marcos, a informação não é compatível com o que a família sabia até então sobre o paradeiro do irmão, já que acreditava que Lucas continuava sob custódia migratória enquanto aguardava a deportação.
O boletim de ocorrência também registra o relato sobre a mensagem que comunicou a morte. Segundo o documento, a Polícia Civil entrou em contato com o Consulado-Geral do Brasil em Istambul, que “confirmou a procedência das informações”.
Uma irmã de Lucas, que mora na Europa, deve ir à Turquia para fazer o reconhecimento do corpo, segundo Marcos. A família espera obter mais informações sobre as circunstâncias da morte.
Marcos também reclama do atendimento recebido pela família depois de procurar autoridades brasileiras.
Segundo ele, a Polícia Federal de São Paulo informou que não poderia atender o caso por não estar relacionado a crime cometido em território brasileiro e orientou a família a procurar a Polícia Civil.
“Não estamos recebendo apoio nenhum, nem da Polícia Federal, nem do Itamaraty, que sabe muito pouco sobre o caso. A Polícia Civil foi o único órgão que se prontificou”, afirmou.
No boletim de ocorrência, a Polícia Civil registra que, em princípio, a investigação de um suposto homicídio ocorrido integralmente fora do Brasil cabe às autoridades do país onde o fato aconteceu. O documento afirma, porém, que o caso deverá ser encaminhado à instância institucional competente para avaliar eventuais providências, inclusive a necessidade de cooperação internacional.
O g1 procurou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, que informou que o caso compete à Polícia Federal e ao Consulado-Geral do Brasil em Istambul.
Em nota, o Itamaraty informou que acompanha o caso: “O Ministério das Relações Exteriores, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Istambul, tem conhecimento do caso e está em contato com a família, a quem tem sido prestada a assistência consular devida.”
O Ministério das Relações Exteriores acrescentou que a atuação consular brasileira segue a legislação nacional e internacional e afirmou que, “em atendimento ao direito à privacidade”, não fornece informações sobre casos individuais de assistência a cidadãos brasileiros.
A Polícia Federal não havia respondido aos questionamentos até a última atualização desta reportagem.
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