Como polícia descobriu esquema que usou empresas para lavar dinheiro | G1
Investigação da PF e do Gaeco aponta uso de empresas de fachada, maquininhas e contas em nome de laranjas para movimentar dinheiro de jogos de azar; construtor Nathan Malavasi e pai, Alessandro, foram presos, e outros investigados estão foragidos.
Alessandro (na ponta à esquerda), Filipe (à esquerda), Nathan e a esposa Thaís (à direita) e Jonathan (na ponta à direita) são investigados — Foto: Arquivo pessoal
A Polícia Federal concluiu o inquérito contra oito integrantes do grupo suspeito de operar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro para ocultar os recursos do jogo do bicho e máquinas de azar, criado em São José do Rio Preto (SP). Agora, cabe ao Ministério Público analisar o relatório e decidir se envia ou não a denúncia à Justiça.
Os investigados foram indiciados pela polícia por organização criminosa e lavagem de dinheiro. As penas para estes crimes variam de três a dez anos. As informações foram obtidas com exclusividade pela produtora de reportagens Janaína de Paula e a repórter Gridância Brait, ambas da TV TEM .
Um dos principais alvos é o construtor Nathan Malavasi, que mantinha uma empresa em Rio Preto e, nas redes sociais, mostrava obras de alto padrão, projetos arquitetônicos e a entrega de imóveis aos clientes.
Nathan e o pai dele, o empresário Alessandro Marcos Malavasi, são apontados como chefes do grupo, que movimentou mais de R$ 100 milhões em saques em espécie para atender às operações . Eles foram presos em julho, em Rio Preto, junto com dois funcionários da empresa.
Nas redes sociais, Nathan construía a imagem de um empresário do interior paulista que vendia o sonho de clientes de morar em casas de alto padrão. Vídeos publicados por ele mostravam obras luxuosas, detalhes arquitetônicos e entregas marcadas por discursos emocionados.
As investigações da Polícia Federal e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) mostram que a organização criou empresas de fachada em nome de laranjas e usou máquinas de cartão e sistemas de pagamento por PIX para receber dinheiro em pontos de jogo do bicho e vídeo-bingo.
De acordo com a polícia, os clientes e negociadores dos imóveis construídos pela empresa de Nathan não têm relação com a organização criminosa e não são alvos da investigação.
Alessandro Malavasi (à esquerda) e o filho dele, Natan Malavasi (à direita), foram presos em Rio Preto (SP) — Foto: Arquivo pessoal
A estrutura foi criada em Rio Preto e depois passou a operar no Rio de Janeiro e outros estados, a partir de 2014. A investigação começou em 2015 focada em Alessandro Malavasi, suspeito de movimentar milhões de reais sem garantia.
Após o indiciamento de Alessandro, o filho Nathan assumiu o protagonismo das operações. Ele expandiu a rede criminosa com novas empresas de fachada e operadores para lavar dinheiro dos jogos de azar: ele escoava os lucros obtidos para organizações criminosas do RJ.
A estratégia, de acordo com o promotor Thiago Dutra Fonseca, surgiu diante da redução do uso de dinheiro em espécie. “Pontos de vídeo-bingo ou jogo do bicho que recebiam pagamentos em espécie necessitavam de pagamento digital, como cartão de crédito, débito e PIX”, explica o promotor.
Para driblar mecanismos de segurança de bancos e empresas de cartão, os criminosos criaram empresas formalmente ligadas a setores como eventos, entretenimento e venda de ingressos.
Essas empresas contratavam credenciadoras de cartões e recebiam maquininhas e sistemas de pagamento. Os equipamentos eram então levados para pontos de jogo do bicho e vídeo-bingo, que funcionavam principalmente à noite e durante a madrugada.
Como as empresas tinham atividades que naturalmente poderiam apresentar variações de faturamento, milhares de transações não necessariamente chamavam a atenção dos sistemas antifraude, segundo os investigadores.
Máquinas de cartão : o pilar do esquema consiste no fornecimento de máquinas de cartão vinculadas a empresas de fachada para pontos de exploração ilegal de jogo do bicho e vídeobingo no Rio de Janeiro. Os apostadores faziam transações que alimentam as contas do grupo.
Antecipação e saques: os valores recebidos passam por contas de passagem, sofrem antecipação de crédito e grande parte é sacada em espécie (estimado em mais de R$ 100 milhões no período monitorado) para, depois, retornar aos pontos de jogos ou pagar milícias, interrompendo a rastreabilidade bancária.
Confusão patrimonial: empresas como a Construtora Nathan Malavasi foram criadas em Rio Preto para misturar recursos lícitos e ilícitos, simulando legalidade no ramo imobiliário de alto padrão na remuneração de Nathan.
Empresários criaram esquema bilionário para lavar dinheiro do jogo do bicho em Rio Preto (SP) — Foto: Reprodução/TV TEM
Com a quebra de sigilo bancário autorizada judicialmente para o período de janeiro de 2019 a março de 2026, a Polícia Federal constatou que o grupo movimentou uma cifra aproximada de R$ 2 bilhões.
Um dos indícios que levaram os investigadores a relacionar o esquema ao jogo do bicho foram os saques recorrentes de grandes quantias em dinheiro. Segundo a Polícia Federal, foram identificados saques que ultrapassaram R$ 100 milhões.
A suspeita é de que parte do dinheiro retornava ao circuito do jogo do bicho para pagamento de prêmios e aos responsáveis pelas bancas, além de permitir a retirada dos lucros pelos operadores do esquema.
Em uma das ações, a polícia conseguiu acompanhar um saque e apreendeu mais de R$ 480 mil em dinheiro, além de um veículo de luxo blindado.
“A ideia era que ele voltasse ou para pagar os prêmios dos bicheiros, daí a frequência dos saques em espécie ou dos apostadores, ou para que o contraventor tivesse seu lucro”, reforça o delegado-chefe da Polícia Federal, Alexandre Manoel Gonçalves.
Filipe foi flagrado fazendo saques em dinheiro no Rio de Janeiro — Foto: Arquivo pessoal
Um dos investigados apontados pela polícia como integrante do esquema é Filipe de Oliveira Santos. Segundo as investigações, ele era dono da empresa Distribuidora Camarote Carioca, que registrou movimentação financeira de R$ 52 milhões entre 2019 e2025.
Filipe também foi flagrado fazendo saques de dinheiro em espécie. Em duas ocasiões, nos dias 17 de setembro e 10 de novembro de 2025, foram apreendidos aproximadamente R$ 600 mil, além de máquinas de cartão.
Os equipamentos estavam vinculados à empresa Prorio Soluções e Entretenimento, que tem como único proprietário Jonathan da Silva Martiniano, gerente da construtora de Nathan em São José do Rio Preto.
Segundo a investigação, comprovantes de pagamentos feitos com cartão em pontos de jogo do bicho e planilhas com o balanço das operações foram encontrados e passaram a integrar as provas reunidas pela polícia.
Filipe foi ouvido nas duas ocasiões e liberado. Agora, ele é considerado foragido. Segundo a Polícia Federal, ele estava na Colômbia quando a operação foi deflagrada. Imagens publicadas nas redes sociais mostram momentos da viagem.
Ele chegou a fazer check-in no aeroporto de Bogotá para retornar ao Brasil, mas não embarcou no voo e passou a ser procurado.
Investigados de Rio Preto (SP) ostentam vida de luxo — Foto: Arquivo pessoal
Segundo a Polícia Federal, depois que os saques de grandes quantias passaram a ser identificados, Nathan também começou a preparar uma possível fuga do país. A investigação aponta que ele deixou de construir imóveis para venda e devolveu a casa que alugava em um condomínio.
Em setembro do ano passado, a mulher dele, Thais Zanolla, se mudou para Miami, nos Estados Unidos. Segundo a polícia, Nathan fez duas viagens ao país e pretendia deixar o Brasil definitivamente. Ele voltou para resolver pendências relacionadas à construtora, mas foi preso antes de conseguir retornar aos Estados Unidos.
A mulher é considerada foragida e, segundo a investigação, teria participado da ocultação de patrimônio do grupo e da preparação da fuga do empresário.
A apuração da polícia e do Ministério Público agora tenta identificar quem estaria no topo da estrutura criminosa e seria o principal beneficiário dos valores movimentados pelo esquema.
Segundo o Gaeco, a organização era formada por várias camadas de empresas, terceiros e pessoas usadas como laranjas, que dificultavam a identificação dos verdadeiros responsáveis pelo dinheiro.
A defesa de Jonathan da Silva Martiniano , apontado nas investigações como gerente da construtora de Nathan, informou que apresentou um pedido de revogação da prisão preventiva e aguarda a análise da Justiça. O advogado afirmou ainda que a defesa está analisando as provas reunidas no processo para definir a estratégia a ser adotada.
Em nota, os advogados Eugênio Carlo Balliano Malavasi e Patrick Raasch Cardoso, que recentemente assumiram a defesa de Nathan Malavasi e Thais Zanolla , afirmaram que confiam na Justiça e no devido processo legal.
Segundo os advogados, a defesa acompanha todos os atos processuais para garantir os direitos dos investigados. A defesa também afirmou que as informações divulgadas até o momento representam uma versão preliminar e unilateral dos fatos.
A TV TEM não localizou a defesa de Alessandro e Filipe.
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