Geovanni Gonzaga: família homenageia corredor PCD morto em Roraima | G1
Aos 43 anos, Geovanni Gonzaga era o mais velho de quatro irmãos e os incentivava a correr. Familiares cobram trânsito mais seguro para que atleta "não seja apenas uma estatística".
"Era uma referência no esporte, mas era uma referência para a gente também" , diz Zenaide Gameiro, de 70 anos, sobre a trajetória do filho, o corredor de rua Geovanni Gameiro Gonzaga da Silva , de 43. Ele morreu após ser atropelado por um motorista com sinais de embriaguez na avenida Ville Roy, em Boa Vista .
O atleta, que competia como Pessoa com Deficiência (PCD) , aquecia para um treino quando foi atingido pelo carro dirigido por Mayron da Silva Soares , de 28 anos. O motorista fugiu sem prestar socorro e foi encontrado pela polícia pouco depois, dormindo ao volante em um loteamento próximo.
Geovanni chegou a ser socorrido, mas teve a morte encefálica constatada no sábado (3), um dia após o atropelamento. Diante da perda repentina, Zenaide e o pai dele, João Gonzaga , de 79 anos, buscam forças no legado de alegria e incentivo que o filho deixou para amigos e familiares.
"Apesar da perda, tão grande e inesperada, o que me dá força é saber que meu filho foi um líder, além de campeão, porque ele levou muitas pessoas a refletir. [...] O Geovanni se foi, mas deixou a marca dele. Quando virem a foto dele, vão sentir incentivo", diz a mãe.
Família de Geovanni Gonzaga, corredor de rua PCD, que morreu aos 43 anos, vítima de atropelamento. — Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica
Na casa da família, os troféus e as medalhas conquistados nas corridas de rua foram as lembranças deixadas por um homem definido como 'comunicativo e sorridente' . Geovanni perdeu a audição aos 5 anos de idade, após contrair uma gripe, mas se tornou um surdo oralizado (conseguia se comunicar pela fala).
Ele era o mais velho entre quatro irmãos : Diego , de 38 anos, Cleiton , de 33, Caroline , de 30 e o caçula, Pedro Luiz , de 28, que o acompanhava nos treinos. Para a família, a deficiência auditiva nunca o impediu de conquistar o que planejava.
O corredor trabalhava como secretário em uma escola municipal , passou por cirurgia para melhorar a fala e realizou o sonho de se formar em Ciências Contábeis . Na ocasião, foi ele quem discursou para a turma, segundo a mãe.
No início, os irmãos iam com ele para a rua por receio de deixá-lo sozinho, já que muitas pessoas não sabiam se comunicar na Língua Brasileira de Sinais (Libras). Com o tempo, a relação se inverteu: Geovanni passou a puxar toda a família para a atividade física , incentivando os irmãos a correr e planejando levar a própria mãe para a academia no fim do ano.
"Para o esporte, para tudo o que era para a saúde, o Geovanni fazia a frente. [...] Essas medalhas, esses troféus, era porque fazia de coração, sem exigir esforço. Não importava se ele fosse o último a chegar, ele queria cumprir essa missão", lembra a mãe.
'Não queremos que seja apenas uma estatística'
Geovanni Gonzaga, corredor de rua PCD morreu aos 43 anos de idade, vítima de atropelamento em Boa Vista. — Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica
Para os familiares, contar quem foi Geovanni é uma forma de evitar que a morte dele caia no esquecimento. O irmão do atleta, Cleiton Gonzaga , conta que o corredor treinava para cuidar da saúde física e mental, e que toda conquista nas provas era motivo de festa em casa.
"Não queremos que ele seja apenas uma estatística; queremos que as pessoas lembrem da pessoa boa que ele era. [...] Muitos falam que não foi acidente, mas para a gente ele foi tirado. Alguém, de forma irresponsável, tirou a vida do nosso irmão", diz o irmão.
Enquanto tentam assimilar a ausência do irmão mais velho, a família faz um apelo por mais consciência no trânsito e rigor no cumprimento das leis para proteger outros pedestres, ciclistas e corredores da capital.
"Meu irmão saiu de manhã e não voltou para casa. O Geovanni não foi o primeiro e, se continuar dessa forma, não vai ser o último. Hoje fomos nós que perdemos um irmão; quem vai ser a próxima vítima? Que essa fatalidade não ocorra com outras famílias", conclui.
Geovanni Gonzaga foi atropelado por carro em Boa Vista (RR). — Foto: Reprodução/Instagram
O atropelamento ocorreu por volta das 5h40 de sexta-feira (2), na avenida Ville Roy, bairro Caçari. Com o impacto da batida, Geovanni foi arremessado contra uma caminhonete estacionada e levado em estado grave ao Hospital Geral de Roraima (HGR), onde morreu na noite do dia seguinte.
Preso em flagrante após recusar o teste do bafômetro, o motorista Mayron da Silva Soares teve a prisão convertida em preventiva ainda no sábado (3). Com a morte do atleta, a Justiça entendeu que há indícios de que o condutor assumiu o risco de matar ao dirigir sob efeito de álcool.
O caso deixou a Vara de Trânsito e passou a tramitar na Vara do Tribunal do Júri , onde ele deve responder por homicídio doloso . O g1 apurou que o Ministério Público prepara denúncia contra Mayron.
Veja fotos das lembranças de Geovanni Gonzaga:
Família de Geovanni Gonzaga guarda fotos e troféus do corredor de rua, vítima de atropelamento aos 43 anos. — Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica
Medalhas e troféus conquistados pelo corredor de rua Geovanni Gonzaga, vítima de atropelamento aos 43 anos. — Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica
Pais de Geovanni Gonzaga lamentam a perda do filho, vítima de atropelamento aos 43 anos. — Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica
Família de Geovanni Gonzaga guarda fotos do corredor vítima de atropelamento. — Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica
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