‘Panelas’: os grupos virtuais que atraíam jovens para atos de violênci | G1
Comunidades disputavam reconhecimento, ofereciam recompensas virtuais e, segundo a polícia, usavam ameaças e manipulação para envolver adolescentes
A investigação sobre a morte de Lívia, adolescente de 13 anos que morreu em julho de 2026 após uma transmissão ao vivo no Discord, revelou uma estrutura de grupos virtuais que, segundo a Polícia Civil, atraía crianças e adolescentes para situações de violência, automutilação e, em casos extremos, suicídio.
Chamados pelos próprios integrantes de “panelas”, esses grupos eram formados em plataformas digitais e tinham diferentes funções. Segundo a investigação, havia administradores, pessoas responsáveis por atrair novos integrantes e participantes que acompanhavam ou incentivavam os chamados “eventos” de violência.
Conforme a delegada responsável pela investigação, no caso da morte de Lívia, os investigadores encontraram movimentações relacionadas ao episódio no Telegram, Discord, Instagram e Zangi.
O g1 entrou em contato com a plataforma com todas as redes citadas. Telegram, Instagram e Zangi porém não teve resposta até a última atualização da reportagem. O Discord informou que as funcionalidades de comunicação por vídeo em tempo real estão suspensas. Veja mais abaixo.
A segunda fase da Operação Lívia, realizada nesta terça-feira (15), apreendeu seis adolescentes de 14 a 17 anos em cinco estados e no Distrito Federal. Eles foram identificados a partir da análise de celulares e outros materiais recolhidos na primeira etapa.
Mas como essas comunidades funcionavam e por que adolescentes eram atraídos para elas?
Operação Lívia: 2ª fase mira 6 adolescentes após morte de menina de Naviraí — Foto: Divulgação Depca
“Panela” era o nome usado pelos próprios integrantes para identificar os grupos. A polícia afirma que as comunidades funcionavam como uma espécie de rede fechada, com participantes que exerciam diferentes papéis.
Além dos administradores, havia integrantes encarregados de encontrar e atrair novas pessoas e outros que acompanhavam os chamados “eventos”.
A investigação aponta que os grupos não atuavam apenas para reunir pessoas com interesses semelhantes. Existia uma disputa interna pelo reconhecimento dos demais participantes.
🔎Hype é uma expressão usada nas redes sociais para descrever algo que ganha muita atenção, repercussão ou popularidade em pouco tempo.
Segundo a polícia, dentro das “panelas”, o termo era utilizado para representar o reconhecimento conquistado pelos integrantes.
A lógica era de competição: grupos buscavam chamar mais atenção e superar outros com conteúdos considerados cada vez mais extremos.
“Eles ficam brigando entre si para ver quem é a panela mais forte, quem consegue trazer mais pessoas para o evento, quem consegue trazer mais vítimas, mais agressividade”, afirmou a delegada Anne Karine Sanches Trevizan.
Para a polícia, a morte de Lívia teria representado o ponto máximo de violência buscado pelo grupo investigado.
Objetos apreendidos com adolescentes acusados de coagir suicídio — Foto: Reprodução/PCMS
A aproximação começava, segundo os investigadores, em redes sociais e plataformas de conversa.
Os suspeitos procuravam adolescentes e, em alguns casos, fingiam ter a mesma idade ou o mesmo sexo da vítima. A estratégia servia para criar uma relação de confiança antes de apresentar a comunidade.
Quando o adolescente recusava o convite ou tentava deixar o grupo, a situação poderia mudar.
A polícia encontrou casos em que nomes, telefones e fotografias de familiares eram usados para fazer ameaças.
Os investigadores também identificaram vítimas que não contaram aos pais que estavam sendo ameaçadas ou manipuladas.
A recompensa pela participação não era necessariamente dinheiro.
Segundo a investigação, o principal objetivo dos integrantes era conquistar reconhecimento dentro das próprias comunidades. Em algumas situações, porém, eram oferecidos benefícios para estimular adolescentes a participar dos “eventos”.
Entre eles estavam moedas virtuais de jogos, como as utilizadas no Roblox.
🔎O Roblox é uma plataforma on-line que reúne jogos criados pelos próprios usuários. Dentro dela, existem moedas e itens virtuais que podem ser utilizados nas experiências disponíveis.
Segundo a delegada, esses benefícios apareciam como uma das formas de incentivo. Em outras situações, a participação era obtida por meio de ameaças e pressão psicológica.
O Discord é uma plataforma de comunicação pela internet, muito utilizada por jogadores de videogame. O serviço permite a criação de servidores, que funcionam como espaços onde os usuários podem conversar por texto, voz e vídeo.
Esses servidores podem ser públicos ou privados.
No caso investigado em Mato Grosso do Sul, a plataforma informou ao g1 que identificou um servidor privado relacionado à investigação. O acesso dependia de convite e o espaço não podia ser encontrado por outros usuários.
Segundo o Discord, a empresa investigou o servidor porque havia suspeita de que pessoas envolvidas em atividades criminosas estivessem incentivando a automutilação. O espaço foi desativado antes da morte da adolescente.
A empresa afirmou ainda que o governo brasileiro compartilhou evidências indicando que a morte de Lívia ocorreu em outra plataforma, que não foi identificada pelo Discord.
A análise do material apreendido na primeira fase da Operação Lívia levou os investigadores a encontrar outras possíveis vítimas.
Nem todas chegaram a registrar ocorrência ou contar aos familiares o que estava acontecendo.
Segundo a delegada Anne Karine, algumas adolescentes eram ameaçadas ou manipuladas sem que os pais soubessem.
Também foram encontrados registros de violência contra outras meninas. Esses casos ainda são investigados e não necessariamente estão relacionados a mortes.
A polícia continua tentando identificar todas as pessoas que participavam dos grupos e verificar o papel de cada uma.
Violência contra meninas também envolvia misoginia
A investigação encontrou ainda conteúdos de misoginia, termo usado para descrever manifestações de ódio, desprezo ou hostilidade contra mulheres e meninas.
Segundo a Polícia Civil, esse tipo de conteúdo aparecia associado à violência praticada dentro das comunidades.
Os investigadores também encontraram referências ao nazismo, a Adolf Hitler e a massacres. De acordo com a delegada, alguns integrantes utilizavam números e nomes de usuário relacionados a essas referências.
Na primeira fase da operação, a polícia e o Ministério da Justiça apreenderam materiais de apologia ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil com adolescentes investigados.
“Todos eles são extremistas. Ainda que não tenha sido apreendido objetos neonazistas, eles são sim, eles têm adoração a Hitler, eles utilizam a numeração 1945, eles utilizam o username relacionado com o massacre”, afirmou Anne Karine.
O Discord afirmou que grupos ou pessoas que promovam ou incentivem violência não têm lugar na plataforma.
A empresa disse que utiliza tecnologia e equipes especializadas para identificar ameaças, possíveis vítimas e comunidades que violem suas regras. Segundo o Discord, quando necessário, informações são fornecidas às autoridades.
A plataforma também negou falta de cooperação com o governo brasileiro.
Segundo a empresa, houve negociações com a Advocacia-Geral da União (AGU) e foram apresentadas três versões de uma proposta. O Discord afirma que a AGU encerrou as negociações e que a falta de coordenação entre órgãos federais e de clareza sobre as medidas solicitadas dificultou as discussões.
Atualmente, o Discord continua disponível no Brasil. Segundo a empresa, as funcionalidades de comunicação por vídeo em tempo real estão suspensas, enquanto mensagens, servidores, canais de voz e chamadas apenas de áudio continuam funcionando.
Equipamentos utilizados para crimes foram apreendidos — Foto: Reprodução/PCMS
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