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Monday, August 31, 2026

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Aprovação de governo vira voto na eleição? Leia análise de Felipe Nune | G1

Bateria de pesquisas estaduais da Quaest mostra que Lula transforma, em média, 76% da sua aprovação em intenção de voto.

· 1,518 words

Toda campanha presidencial produz a sensação de que a eleição pode ser reinventada a cada semana. Uma entrevista ruim, uma denúncia, um debate ou uma peça de propaganda parecem capazes de mudar tudo. Esses eventos importam. Mas eles atuam sobre um terreno que já existe. E, para um presidente que tenta a reeleição, o dado mais importante desse terreno é a avaliação de seu governo.

A aprovação não determina o resultado, mas define o tamanho do reservatório eleitoral disponível. A campanha decide quanto desse reservatório será convertido em voto. É justamente essa passagem — da avaliação do governo para a escolha na urna — que a nova bateria de pesquisas estaduais permite observar .

Nos 25 estados reunidos no gráfico, a intenção de voto em Lula equivale, em média simples, a 76% da aprovação de seu governo. A relação é muito forte: a correlação entre as duas medidas chega a 0,99. Onde Lula é mais aprovado, tende também a receber mais votos; onde a aprovação cai, sua intenção de voto recua quase na mesma direção. Isso não é uma relação causal medida em laboratório, mas é uma associação descritiva poderosa — e politicamente intuitiva.

Aprovação de governo vira voto na eleição? Leia análise de Felipe Nunes — Foto: Reprodução

A média, porém, esconde diferenças importantes. No Rio Grande do Norte, Lula converte 90% da aprovação em voto. Maranhão e Sergipe chegam a 88%, e Piauí e Pernambuco, a 87%. Nesses lugares, a avaliação do governo é não apenas alta, mas eleitoralmente densa: o eleitor que aprova já está muito próximo de votar.

No outro extremo, Goiás e Roraima registram conversão de 61%, e o Paraná, de 64%. No Amazonas, apesar de uma aprovação de 54%, a intenção de voto fica em 38%, uma conversão de 70%. São estados em que há mais aprovação frágil: gente que reconhece aspectos positivos do governo, mas ainda não transformou esse juízo numa escolha presidencial. Essa distância é o espaço potencial da campanha — e também o espaço no qual a oposição pode impedir que simpatia administrativa vire voto.

O movimento inverso também ensina. Em São Paulo, Lula tem aprovação menor, de 37%, mas converte 78% em voto. A aprovação é estreita, porém relativamente consolidada. É um efeito compatível com a calcificação política: em ambientes muito polarizados, a identidade partidária protege um piso eleitoral mesmo quando a avaliação geral do governo é desfavorável.

Para comparar o presente com eleições anteriores, é preciso evitar uma armadilha metodológica. Pesquisas podem medir a popularidade de duas maneiras. A primeira pergunta se o eleitor aprova ou desaprova o trabalho do presidente. É uma régua ampla. A segunda pede que ele classifique o governo como ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo. Aqui, "avaliação positiva" corresponde apenas à soma de ótimo e bom — uma régua mais exigente.

Essa diferença altera completamente o denominador. No Datafolha de agosto de 2026, Lula tem 33% de ótimo ou bom, 48% de aprovação binária e 39% de intenção de voto no primeiro turno. Portanto, ele converte 118% do núcleo positivo em voto, mas 81% da aprovação ampla. Não existe contradição: parte dos eleitores que classificam o governo como regular, ou que simplesmente aprovam o trabalho do presidente sem entusiasmo, também declara voto nele.

A mesma dinâmica aparece na história. Nos quatro últimos ciclos em que um presidente eleito tentou a reeleição — FHC em 1998, Lula em 2006, Dilma em 2014 e Bolsonaro em 2022 — a intenção de voto da reta final equivaleu, em média, a cerca de 110% da avaliação ótima ou boa medida pelo Datafolha. Em todos os casos, o candidato governista foi além do núcleo que avaliava sua administração positivamente.

Voto costuma superar o núcleo do 'ótimo/bom' — Foto: Reprodução

FHC oferece o exemplo mais forte: no levantamento de setembro de 1998 disponível no CESOP, tinha 38% de ótimo ou bom e 46% de intenção de voto, conversão de aproximadamente 120%. Lula, em setembro de 2006, marcava 46% de avaliação positiva e 50% de voto, uma taxa de 109%. Dilma, em 2014, registrava 39% e 40%, respectivamente, ou 103%. Bolsonaro, em 2022, tinha 31% de ótimo ou bom e 34% de intenção de voto, chegando a 110%.

O padrão ajuda a interpretar Lula em 2026. Seus 118% sobre o ótimo/bom estão acima da média histórica, mas dentro de uma faixa já observada. O dado sugere que sua candidatura já mobiliza não apenas os entusiastas do governo, como também uma parcela dos eleitores de avaliação regular. Ao mesmo tempo, a taxa de 81% sobre a aprovação ampla mostra que ainda existe uma franja de aprovadores que não está com ele — pelo menos por enquanto.

A literatura de fundamentos políticos parte de uma ideia simples: antes de escolher entre campanhas, o eleitor faz um julgamento retrospectivo sobre quem governou. Crescimento, inflação, renda, emprego, segurança e percepção de competência entram nesse balanço. A aprovação funciona como uma síntese política dessas experiências. Por isso, modelos eleitorais conseguem extrair informação da popularidade presidencial mesmo quando já existem pesquisas de voto. A lógica é simples: governos bem avaliados são premiados com a reeleição, governos mal avaliados são punidos com rejeição.

O time de inteligência da Quaest reuniu dados de 143 eleições que aconteceram em 18 países da América Latina nos últimos 30 anos e construiu um modelo estatístico capaz de comparar as chances de reeleição de um presidente em função do seu nível de aprovação.

O modelo estima que um presidente com 43% de aprovação tem apenas 38% de probabilidade estimada de reeleição. Com 46%, a probabilidade passa a 52%. Três pontos na aprovação produzem uma mudança de 14 pontos na chance estimada. Não porque exista um número mágico, mas porque a eleição deixa de ocorrer contra a maioria e passa a acontecer numa zona efetivamente competitiva.

Poucos pontos de aprovação mudam o patamar da disputa — Foto: Reprodução

Mas, vale sempre lembrar que estimativa não é destino, é referência comparativa: ela apenas mostra que pequenas mudanças num fundamento central podem alterar muito o equilíbrio de uma disputa apertada. As pesquisas são instrumentos de mensuração do momento, nunca podem ser usadas como prognósticos. Os modelos que comparam resultados do passado, com pesquisas do passado servem como referência histórica, mas não projetam o future. Ainda mais com tanta complexidade, mudanças estruturais e variações de opinião e avaliação, como tem acontecido no Brasil.

O desafio de Lula é diferente em cada estado

Os dados estaduais sugerem, portanto, três campanhas simultâneas. Nos estados de alta aprovação e alta conversão, como Rio Grande do Norte, Maranhão, Sergipe e Piauí, a prioridade é preservar entusiasmo e garantir mobilização. Onde a aprovação é alta, mas a conversão é menor, como no Amazonas, o desafio é dar sentido eleitoral à aprovação: explicar por que uma avaliação favorável deve terminar no voto em Lula.

Nos estados de baixa aprovação, a tarefa é outra. Antes de converter, é necessário ampliar o reservatório — ou, no mínimo, impedir que a desaprovação produza uma derrota maior. Minas Gerais merece atenção especial por combinar peso eleitoral, aprovação de 41% e conversão de 73%. Goiás, com 33% de aprovação e apenas 61% de conversão, representa um problema duplo: base estreita e baixa capacidade de transformá-la em voto.

A eleição brasileira permanece polarizada, e essa polarização reduz a volatilidade. Mas calcificação não significa imobilidade. Significa que a disputa ocorre nas margens: entre quem aprova sem entusiasmo, quem avalia como regular, quem rejeita os dois polos e quem pode decidir comparecer ou ficar em casa. É nesse contingente que alguns pontos de aprovação podem se transformar em muitos pontos de probabilidade eleitoral. E é pra isso que servem as campanhas. A campanha na TV e no radio, em especial, tem um papel fundamental.

Lula não parte do zero. Sua aprovação já lhe oferece uma coalizão potencial maior do que sua intenção de voto em boa parte dos estados. Mas esse excedente não pertence automaticamente ao presidente. Ele precisa ser convertido. Se a aprovação é o fundamento, a conversão é a campanha. E a eleição de 2026 será decidida justamente pela capacidade de aproximar uma coisa da outra.

Campanhas continuam relevantes porque fazem três trabalhos que a aprovação, sozinha, não faz. Primeiro, transformam avaliação difusa em preferência por um candidato. Segundo, reorganizam prioridades: um eleitor pode aprovar a política social, mas votar pela segurança pública; pode desaprovar a economia, mas escolher pela defesa da democracia. Terceiro, mobilizam ou desmobilizam comparecimento. Fundamentos delimitam o campo; a campanha disputa cada metro dentro dele.

Nota metodológica — A conversão estadual é a razão entre intenção de voto em Lula e aprovação do governo, em cada UF; a média de 76% é simples e não ponderada pelo eleitorado. A correlação de 0,99 é descritiva e não prova causalidade. Na comparação histórica, foram usados levantamentos Datafolha da reta final dos quatro ciclos de reeleição presidencial, sempre com intenção de voto sobre o total da amostra e avaliação positiva definida como ótimo/bom. Percentuais arredondados podem alterar a taxa em décimos. A observação de 2026 não integra a média histórica.

Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) — Foto: Reprodução/TV Globo

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