Skip to content
Gigantum.net
Health

Death Café Ribeirão Preto: Projeto da USP debate luto e finitude | G1

Death Café promove rodas gratuitas sobre luto, cuidados paliativos e finitude. Desde 2022, iniciativa realizou 48 encontros e registrou mais de mil participações.

· 1,848 words

Um projeto de extensão da Universidade de São Paulo (USP) reúne pessoas de diferentes idades na Biblioteca Sinhá Junqueira, no Centro de Ribeirão Preto (SP), mensalmente para conversar sobre morte, luto, cuidados paliativos e espiritualidade em saúde.

No chamado Death Café - Pausa para o café: Vamos falar sobre morte? , os participantes chegam depois de perder alguém, acompanhar uma doença grave ou perceber que não conseguem discutir o assunto com familiares e amigos. Outros procuram os encontros por medo da própria morte, curiosidade ou vontade de refletir sobre a vida.

A enfermeira aposentada Valéria de Almeida Pereira, de 67 anos, começou a frequentar o projeto depois de perder a mãe para um câncer de pulmão, em março de 2023. Dois meses depois, encontrou nas rodas de conversa uma maneira de lidar com a saudade.

"Eu descobri que, quanto mais eu falo da minha mãe, melhor eu me sinto. Não necessariamente falar só da sua passagem, desse sofrimento que foi para nós e para ela, mas falar da mulher que ela foi, da mãe que ela foi."

A iniciativa já realizou 48 encontros e registrou mais de mil participações desde maio de 2022, segundo a coordenação . As reuniões são gratuitas, não exigem inscrição e já receberam desde adolescentes até pessoas com mais de 80 anos.

Participantes do Death Café se reúnem para conversar sobre morte, luto e cuidados paliativos em Ribeirão Preto (SP). — Foto: Arquivo pessoal

Para a professora Marysia Mara Rodrigues do Prado De Carlo, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e uma das coordenadoras da iniciativa, as motivações são diferentes, mas muitos participantes compartilham a dificuldade de encontrar um espaço para falar sobre a morte.

Segundo ela, a espiritualidade abordada nos encontros está relacionada à busca por sentido para a vida e não, necessariamente, à religiosidade. As conversas respeitam as diferentes crenças dos participantes e não são direcionadas a nenhuma religião específica.

"O relato que esses participantes trazem muito é que eles nunca conseguem conversar sobre isso. Os amigos ou os familiares falam 'não fala sobre isso, isso é um tema fúnebre'. Ou que, se falar, vai ser pior."

'Quanto mais falo da minha mãe, melhor me sinto'

Valéria trabalhou durante 35 anos no Hospital Santa Tereza, em Ribeirão Preto. Mesmo com a experiência como profissional da saúde, ela conta que não sabia como conversar com a mãe sobre o avanço de um câncer de pulmão, os tratamentos e os desejos para o fim da vida.

A doença foi descoberta em 2017. Durante alguns anos, a mãe continuou ativa, fazendo feira, ioga, pintura e pilates. Com o avanço dos sintomas, no entanto, começou a perder autonomia.

Valéria e a irmã sabiam que a mãe desejava permanecer em casa, mas tinham dúvidas sobre como respeitar essa escolha e lidar com as decisões relacionadas ao tratamento.

"A gente tinha muitas angústias, muitas dúvidas. Não sabia como proceder, como abordar, como discutir aquilo, o que ela queria, os seus desejos em relação à situação. Foi muito pesado."

Enfermeira aposentada Valéria de Almeida Pereira ao lado da mãe, que morreu em março de 2023 após enfrentar um câncer de pulmão — Foto: Arquivo pessoal

Cerca de três meses antes da morte, a família conheceu uma médica especializada em cuidados paliativos, que passou a acompanhar a paciente em casa. Além de ajudar no controle dos sintomas, a profissional conversou com ela sobre desejos e receios.

Segundo Valéria, uma das situações mais importantes ocorreu quando a médica disse diretamente à mãe sobre o que ela queria para o período que ainda teria de vida.

"A gente não conseguia conversar com a minha mãe sobre o que ela pensava, o que ela queria. E aí a médica faz essa conversa com ela. Aquilo foi de uma grandiosidade, me deu tanto conforto a minha mãe poder falar o que ela queria."

A mãe de Valéria morreu em casa, em 25 de março de 2023, acompanhada pela família. Parentes que moravam em Minas Gerais viajaram para Ribeirão Preto e estiveram presentes nos últimos dias.

"Eu tive a bênção de conseguir me despedir dela, ficar conversando com ela baixinho. Pude fazer uma despedida que me confortou muito."

Marysia explica que os cuidados paliativos não são destinados apenas a pessoas nos últimos dias de vida. O acompanhamento pode começar durante o tratamento de uma doença grave, buscando aliviar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida do paciente e dos familiares.

"O cuidado paliativo é falar de vida com qualidade. Ter boa qualidade de vida enquanto houver vida e, principalmente, cuidar da família. Porque, para o cuidado paliativo, cuidar da família é essencial."

Depois da morte da mãe de Valéria, a médica continuou acompanhando a família e indicou algumas possibilidades para conversar sobre o luto.

Uma delas foi o Death Café. Desde então, Valéria participa de todos os encontros e viu nas conversas uma oportunidade para lembrar da mãe, compartilhar experiências e ouvir outras pessoas que enfrentaram perdas.

Ela diz que falar sobre a mãe não elimina a saudade ou o sofrimento, mas as conversas a ajudaram a encontrar uma forma de conviver com a ausência.

Em casa, Valéria mantém fotografias da mãe espalhadas pelos cômodos e conta que ainda conversa com ela diariamente, compartilhando notícias boas e ruins.

"Para mim, o luto é para sempre. Mas hoje eu sinto que ela ocupou um espaço no meu coração com mais conforto, com menos dor. Eu converso com a minha mãe todo dia. Eu choro, conto notícias ruins, notícias boas. Cada um acha a sua forma, e o Death Café fez uma diferença nesse processo meu. Fez e continua fazendo".

Valéria de Almeida Pereira encontrou no Death Café um espaço para compartilhar lembranças da mãe e conversar sobre o luto — Foto: Arquivo pessoal

A estudante de terapia ocupacional Bruna Ferreira Pepe, de 25 anos, conheceu o Death Café por meio da Liga de Espiritualidade em Saúde e Cuidados Paliativos (LESCP-USP).

Atualmente no segundo ano da graduação, ela preside a liga, ajuda a organizar os encontros e participa das conversas compartilhando experiências pessoais.

Bruna conta que, antes do projeto, evitava pensar sobre a morte. Nos últimos dois anos, porém, enfrentou três perdas : dois primos, que morreram em acidentes de trânsito, e a cachorra Nina, de 14 anos.

Segundo ela, as mortes repentinas foram difíceis, porque não houve tempo para despedida. Mas o acompanhamento no Death Café fez Bruna passar pelo período com um pouco mais de conformidade e entendimento.

"É um espaço que a gente consegue trazer esse tipo de coisa sem ter aquele medo. 'Será que eu falo sobre isso? Vai ser uma conversa ruim?' É um lugar em que você se sente livre para poder falar."

Estudante Bruna Ferreira Pepe com a cachorra Nina, que morreu aos 14 anos, em março de 2026; perda também foi compartilhada nos encontros do Death Café — Foto: Arquivo pessoal

Marysia explica que mortes repentinas e doenças prolongadas estão entre os assuntos mais frequentes nas rodas. Embora sejam experiências diferentes, ambas podem deixar sentimentos que as pessoas têm dificuldade de compartilhar.

"O que a gente mais percebe é que as pessoas querem falar sobre morte, nos seus mais diferentes aspectos. A morte abrupta, que geralmente é muito traumática, mas, principalmente, a morte da pessoa com doença crônica, que tem a ver com o sofrimento prolongado."

Para Bruna, participar do Death Café não significa estar preparada para perder alguém, mas as conversas fizeram com que ela passasse a refletir também sobre a vida das pessoas que morreram, e não apenas sobre a ausência que deixaram.

"Acho que a gente pensa muito mais na vida do que na morte. Conversar sobre isso, pensar sobre morte, é mais sobre a pessoa em vida. Não que seja fácil, mas você consegue pensar melhor sobre isso, tentar se consolar."

Projeto de extensão da USP promove rodas de conversa gratuitas sobre a morte na Biblioteca Sinhá Junqueira, em Ribeirão Preto (SP) — Foto: Arquivo pessoal

Para Marysia, um dos principais obstáculos é o fato de a morte ainda ser tratada como um tabu . A professora define o assunto como um "interdito cultural", que costuma ser evitado mesmo quando alguém enfrenta uma doença grave ou a perda de uma pessoa próxima.

Ela conta que muitos participantes chegam ao Death Café depois de tentarem conversar sobre o assunto com familiares e amigos, mas não encontrarem abertura.

"Acontece muito o relato 'olha, eu nunca falei sobre isso, eu sempre guardei comigo, porque nunca tive com quem falar'".

Valéria também encontrou dificuldades para falar sobre a morte fora do projeto. Segundo ela, familiares e amigos frequentemente evitam o assunto, seja por medo ou por não saberem como lidar.

"É difícil você ter espaços na sociedade para conversar disso. Na família, com seus amigos, as pessoas assustam. 'Eu não quero falar de morte'".

Marysia explica que a proposta do projeto está relacionada ao conceito de educação para a morte , que busca ampliar as possibilidades de reflexão sobre a finitude, o luto e as decisões relacionadas ao cuidado.

Isso não significa, ainda segundo ela, viver constantemente preocupado com a morte, mas reconhecer que o assunto faz parte da vida e pode ser discutido antes que uma situação de perda aconteça.

"A gente tem essa ideia da educação para a morte, no sentido de que todos nós possamos lidar melhor, entendendo que a morte é parte da vida. E já tivemos diversas pessoas dizendo 'comecei a repensar minha própria finitude, comecei a conversar com a minha família sobre isso'".

Durante os encontros do Death Café, participantes compartilham experiências, perdas e reflexões sobre a finitude da vida — Foto: Arquivo pessoal

Os encontros no Death Café acontecem sempre no segundo sábado de cada mês, das 10h30 às 12h, na Biblioteca Sinhá Junqueira, no Centro de Ribeirão Preto. As cadeiras são organizadas em roda e não há palestras nem temas obrigatórios.

A professora e os integrantes da liga ajudam a mediar as conversas e esclarecer dúvidas, mas não oferecem aconselhamento psicológico . A intenção é permitir que os próprios participantes compartilhem experiências.

"A gente procura sempre trabalhar de uma forma que não seja triste ou fúnebre, como as pessoas pensam. A gente brinca, a gente ri, as pessoas contam histórias. Mas é claro que também choram, também trazem histórias difíceis."

O projeto começou em maio de 2022, a partir da Liga de Espiritualidade em Saúde e Cuidados Paliativos. A iniciativa segue uma proposta internacional de rodas de conversa sobre a morte , presente em dezenas de países.

A proximidade do Dia de Finados costuma fazer com que o luto e as lembranças de familiares apareçam nas conversas realizadas em novembro. Para Marysia, a data representa uma oportunidade para que as pessoas revisitem sentimentos e reflitam sobre a própria relação com a morte.

"Eu acho que são grandes oportunidades para que as pessoas possam repensar seus próprios conceitos, que possam revisitar, muitas vezes, seus sentimentos."

Desde 2022, o Death Café reúne pessoas de diferentes idades para falar sobre a morte e ouvir histórias de outros participantes — Foto: Arquivo pessoal

VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

Gathered from external sources. Rights to this text belong to whoever originally published it.

Monday, November 2, 2026

© 2026 Gigantum.net. Content gathered automatically from external sources; rights to each text belong to whoever originally published it.